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A MULHER DE BRANCO COM ALGODÃO NA BOCA

No ano de 1976, servi como soldado motorista (SD 1148) na CCS-PT, do 2º Batalhão de Guardas (BG), no Parque Pedro II, em São Paulo – Batalhão de Elite do II Exército. Meu primeiro “trampo” foi no P4, guarita que ficava no pátio do Pelotão de Transportes. Depois fui escalado – algumas vezes – para o P5, portão de entrada e saída das viaturas militares do BG. Duas ou três vezes, puxei serviço na 3ª CIA, na Rua da Independência, no bairro do Cambuci, onde também funcionava o Hospital Militar. Meses depois, virei “peixe” (soldado protegido) do Sargento Leandro, responsável pela escala de serviço, que passou, então, a me escalar para QG do II Exército, no Parque do Ibirapuera. A história do fantasma da mulher de branco com algodão na boca aconteceu na 3ª CIA, numa noite escura, fria e misteriosa. Alguém deu o alerta: “Cuidado com o fantasma da mulher de branco com algodão na boca!”. Risos. Eram 2h30 da madrugada, quando a mulher apareceu. Susto! Meu coração quase saiu pela boca. Veio do morro do Cambuci – não andava, flutuava –, passou pelo portão da guarda, parou na calçada em frente, espiou o vazio da Rua da Independência, e me encarou. Gelei. Cabelos longos, loiros, pálida, camisola branca, descalça, com uma mecha de algodão na boca. Engatilhei o FAL – Fuzil Automático Leve – e mirei na cabeça. “O que foi, soldado?” Era o oficial da guarda fazendo a ronda da noite. Disse-lhe: “A mulher do algodão!” Apontei. Nada. Ela havia sumido. O oficial, calmamente, explicou-me: “Já vi uma vez. Fica calmo. Ela é do bem. Filha de um Coronel da reserva que morreu no hospital militar!”. Virou-se foi embora. Mantive o FAL engatilhado, até ser rendido, às 4h, pontualmente. Puxei serviço na 3ª CIA do BG mais duas ou três vezes. Numa delas levei para a cadeia um soldado armeiro, que havia roubado uma pistola do Exército. Segundo soube, desmontou a pistola e a levou, peça por peça. Um dia descobriram e, antes de ser expulso, pegou “cana” de alguns meses. Cumpriu sua pena na cadeia da 3ª CIA, no Cambuci. A cadeia – num porão escuro, sem janelas – tinha a altura de 1,20 m. Um buraco, literalmente. O preso não podia ficar de pé. Era obrigado a ficar de cócoras ou deitado no chão frio. A cena, até hoje, 50 anos depois, ainda, às vezes, mexe com meus miolos. Quanto ao fantasma da mulher de branco com algodão na boca, descobri que não fui o único a vê-la. A moça era popular no quartel. Sua presença volátil, nos anos de chumbo, ajudou-me a escrever o incrível ano de 1976, o ano que não terminou.

João Scortecci


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TUDO EM FAMÍLIA: TRAGÉDIA GREGA NO MONTE OLIMPO

Tragédia Grega no Monte Olimpo. Aconteceu mais ou menos assim: Cronos, deus do tempo e o mais forte dos titãs, era um comunista de carteirinha, das antigas. Devorador de criancinhas! É o que dizem. Comeu seus próprios filhos! Escapou da gula antropofágica apenas o seu primogênito, Zeus. Zeus, o deus dos deuses, foi salvo por Gaia, a mãe terra, a pedido de Reia, sua mãe. Gaia - esperta que só a natureza - elaborou um plano diabólico e salvou Zeus, poupando-o da fúria de Cronos. Zeus - um galo incansável - casou-se com Métis, deusa da prudência, que lhe deu a filha Atena, deusa da sabedoria, da guerra e da beleza eterna. Zeus - mulherengo e danado, imprudente com as coisas do coração - logo trocou Métis por Têmis, deusa da justiça, com quem teve as filhas Moiras e Horas. O casamento dos dois durou pouco. Dizem – não sei se é verdade - que Zeus ainda se casou mais cinco vezes. Zeus nunca superou o trauma de ter um pai antropofágico e comunista. Já velho e doente, casou-se ainda mais uma vez, com Mnemósine, deusa da memória que - sabiamente - o fez esquecer de tudo: das farras, das orgias e dos babados do Monte Olimpo. Do seu casamento - o mais cultural de todos - nasceram Clio, musa protetora e inspiradora da história, Euterpe, da música, Talia, da comédia e poesia e Urânia, da astronomia. Detalhe mitológico: Zeus - adormecido na demência, vez por outra, ainda – conta histórias de amor, escuta músicas do coração, faz poesias e namora estrelas do céu maior, lá no alto do Monte Olimpo. Moral da história: o culpado da tragédia grega foi Cronos, o antropófago do reino dos titãs, comunista e comedor de criancinhas.

João Scortecci

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SPLASHDOWN E O PENTAGRAMA DA ESTRELA

Splashdown no Pacífico! Órion caiu docemente nas águas do mar. Eu e Akasha - deusa protetora contra os demônios do inferno - assistimos tudo. Akasha, estrela da noite, guardiã da boca do buraco de minhoca, rezava e sorria de emoção. Órion, finalmente, pousou: sã e salva. Abraçamo-nos de alegria. Dormimos no limbo. Sonhei com a castidade da lua e suas sombras. Artemis - éter de fluidos cósmicos – no céu do pentagrama da vida! Hausto divino. A cápsula de barro, onde dentro guarda-se o graal da humanidade, descansou. Cálice dos primórdios – quando tudo ainda era nada – até, então, o derradeiro banho de magmas, do princípio e do fim. Perguntei-lhe, então: Akasha, quem somos? Akasha, de onde viemos? Akasha, para onde vamos? Silêncios. Mais adiante, respondeu-me com os dedos do destino apontando para o pentagrama posto na boca do buraco de minhoca. Acordei. Na sala do coração uma agitação medonha. As três Marias - Mintaka, Anilam e Alnitak - tagarelavam. Perguntei-lhes: O que vocês estão fazendo? Mintaka respondeu-me: Um splashdown de ovos mexido, com bacon, tomatinho, queijo ralado, azeite de oliva e sal, a gosto. Você quer? Perguntaram. Quero! Respondi. Vocês viram Akasha? Alnitak, a estrela caçula, resfolegou aos deuses do céu: Acorda homem: sai da boca do buraco da minhoca e vem comer! Foi o que fiz. Akasha, sã e salva, dos pesadelos da noite. Até quando? Não sei.

João Scortecci


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“ALMOÇO EM CASA” COM O POETA ARTUR DE AZEVEDO

Na mesma época que me tornei editor de livros, no ano de 1982, abri um dos primeiros restaurantes “self-service” da cidade de São Paulo. Chamava-se “Almoço em Casa”. Ficava na Rua Artur de Azevedo, nº 1129, no bairro de Pinheiros, e funcionou durante dois anos. A casa foi importante no início da vida de empresário. Pagava as contas e garantia o jantar do dia! Lembro-me de que, na época, o nome da rua – em homenagem ao dramaturgo, poeta, contista, prosador, comediógrafo e jornalista Artur de Azevedo (1855 - 1908) – foi um sinal “cultural” na hora da escolha do local. “Almoço em Casa” ficava a três quarteirões da editora, na época no endereço da Rua Teodoro Sampaio, nº 1704, loja 13. Artur de Azevedo, com seu irmão, o escritor Aluísio Azevedo (1857 - 1913), foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Era um apaixonado pelo teatro – um comediógrafo –, tendo encenado mais de cem peças no Brasil e em Portugal. Artur foi um dos apoiadores da criação do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, na Cinelândia, centro da cidade do Rio de Janeiro, inaugurado em 1909, poucos meses depois de sua morte. Outro dia, sussurrou-me, os versos: “Ai, quem me dera, em verso aprimorado, saber reproduzir tão lindas cenas!” Voltei, então, no tempo... No melhor das minhas lembranças do ano de 1982, pude – liberto – reviver cenas de mim mesmo. Eu com 26 anos de idade. Havia largado o emprego, para viver – literalmente – de livros. Eu, 5 horas da manhã, no CEAGESP, comprando verduras e legumes para o restaurante, depois escolhendo feijão, lavando arroz, cortando cebolas, descascando batatas e pepinos, moendo carne e olhando, pelos olhos do tempo, o relógio das horas. “Ai, quem me dera” a releitura do sonho! Faria tudo igual, novamente. Quem me dera “reproduzir tão lindas cenas”, do eu de mim. Depois, largava tudo, e voava, veloz - liberto - para a editora. Em 2024 as casinhas da Rua Artur de Azevedo, em Pinheiros, foram demolidas, para a construção de mais um prédio. Descobri o que já sabia sobre o tempo: Ai, quem me dera, em verso aprimorado, reencontrar o eu de mim. Faria tudo igual, novamente. Quem me dera!

João Scortecci

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HAMBÚRGUER E O FLORESCIMENTO HUMANO

Acordei com a imagem na cabeça de um moedor mastigando um pedaço de carne crua. Alguém girava a manivela com força e prática. A carne moída brotava das entranhas do moedor e caía numa imensa bacia de alumínio. No rádio alguém falava sobre um importante estudo sobre a nova medida da felicidade e florescimento humano. Anotei. No relógio 4h35 da manhã. Levantei, bebi um copo de água, esvaziei a bexiga e liguei o PC. Encontrei o assunto na Veja Saúde, estudo encabeçado por instituições de peso como a Universidade Harvard, Instituto Gallup, Universidade Baylor e Centro para Ciência Aberta. Harvard, sempre Harvard! Um estudo sobre Saúde física e mental, equilíbrio emocional, vínculos sociais, propósito de vida, caráter e segurança financeira. Utilizando um novo conceito, o de florescimento humano, a Global Flourishing Study (Fundado em 2016) está mapeando em 22 países - incluindo o Brasil - e mais de 200 mil pessoas o que nos faz viver plenamente. Interessante! A primeira leva de descobertas desse trabalho – projeto de 5 anos e investimento de 43 milhões de dólares - acaba de ser divulgada (2025) e traz, entre outras descobertas, uma análise sobre como países e gerações vêm se saindo. Florescer - do inglês flourishing -, é um estado em que todas as áreas da vida estão nutridas e em harmonia. O que nos faz florescer? Seis pilares balizam o estudo da Global Flourishing: Saúde física e mental, Bem-estar emocional, Propósito de vida, Vínculos sociais, Caráter e Segurança financeira. A somatória dos dados forma um índice de florescimento. Os voluntários do estudo passam por entrevistas com questionários estruturados e metodologia consolidada com o objetivo de montar um raio X de diversas esferas da vida. O que me chamou atenção no estudo: a idade influencia na felicidade! A juventude é quem amarga o pior lugar no índice. Em diversos países, incluindo Brasil, EUA, Suécia e Grã-Bretanha, a faixa etária dos 18 aos 24 anos é a que detém as menores notas na avaliação do florescimento humano. Nessas nações, a felicidade tende a aumentar com a idade, rompendo com a famosa curva em U dos estudos de bem-estar, teoria de que a satisfação com a vida é alta na juventude, cai na meia-idade e só volta a subir na velhice. Uma das expectativas é o que apontarão no futuro os dados sobre envelhecimento, os desafios e as oportunidades que se abrem com o avançar da idade. Quanto ao moedor de carne, depois de 2 dias comendo peixe, pretendo fazer no almoço hambúrguer caseiro, com a carne moída da bacia de alumínio. Sou um ogro - criatura mitológica do folclore europeu, descrita como um gigante humanoide de aparência grotesca, pele verde ou escura – e facilmente influenciável, quando quero. 

João Scortecci

 

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TUDO ESTRANHO, MUITO ESTRANHO

O mundo anda estranho. Muito estranho. Aconteceu mais ou menos assim: O sol ainda acordando, lentamente, saindo por detrás de um prédio estranho – torto e de dar medo – construído no terreno da antiga Cooperativa Agrícola de Cotia, em Pinheiros, ao lado da estação do Metrô Faria Lima, já estacionando na garagem da editora, quando passei com o carro por cima de alguma coisa estranha, na calçada. Fez barulho. Olhei e não vi nada. Abri o portão automático da garagem e entrei com o carro. Ao entrar, observei, à esquerda, a poucos metros de distância, um rapaz, jovem, estranho, com um bebê no “canguru”. Provavelmente aguardando um Uber, uma perua escolar, ou um carona. Estou há mais de 10 anos nesse endereço. Confesso: foi a primeira vez que os vi, no pedaço. Desci do carro para ver o que havia atropelado: sacos de lixo, que se rasgaram e sujaram a calçada. Merda! Lixo do vizinho – casal de idosos estranhos – que adoram o meu poste. Chamo de “meu”, porque o danado está grudado estranhamente na entrada da minha garagem. O lixo da editora – na sua totalidade composto de papel – é recolhido diariamente por uma empresa de reciclagem terceirizada, que atende, também, a livraria e a gráfica. Examinei o lixo esparramado na calçada: restos de comida, cascas de frutas, embalagens de leite, macarrão e pão velho. Que desastre! A ideia era entrar no prédio, pegar vassoura, pazinha, saco de lixo e recolher tudo. Mais tarde, depois das 8 da manhã, quando a faxineira da empresa chegasse, pediria que, então, lavasse a calçada. Quando estava abrindo a porta do escritório, o jovem estranho, com o bebê no “canguru”, apareceu no portão e gritou: “O Senhor atropelou o lixo!”. Abri o portão e o encarei. Ele me ignorou. Dar uns “tabefes”, às 6 horas da manhã, num jovem com um bebê no canguru, não é nada prático e muito menos recomendado. Mesmo que, vez por outra – estranhamente – tenha saudade do tempo de menino onde resolvíamos tudo no braço. Respondi: “Não vi.” Recolhi o lixo e pedi para que, então, lavassem a calçada. O mundo anda estranho, muito estranho. O lixo do vizinho continua lá, diariamente. Pobre do meu poste! Atropelar sacos de lixo é algo estranho. Muito estranho.

João Scortecci

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“PLUFT, O FANTASMINHA”, DE MARIA CLARA MACHADO

Pluft, o fantasminha (1955) é a peça teatral infantil de maior sucesso da escritora e dramaturga mineira Maria Clara Machado (Maria Clara Jacob Machado, 1921 – 2001). Considerada a maior autora de teatro infantil do País, escreveu 30 peças para crianças e cinco para adultos. Em 1951, fundou, na cidade do Rio de Janeiro, uma das maiores escolas de teatro do Brasil, o Tablado. Na peça Pluft, o fantasminha, uma menina de nome Maribel é raptada pelo malvado pirata Perna-de-Pau. Escondida no sótão de uma velha casa, ela conhece uma família de fantasmas e faz amizade com Pluft, um fantasminha que tem medo de gente. A peça foi encenada pela primeira vez pelo teatro Tablado, em setembro de 1955, com direção da autora, e recebeu o prêmio da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte. Em 1961, foi adaptada para o cinema, por Romain Lesage, e, em 1975, para minissérie de TV, produzida pela Rede Globo em parceria com a TV Educativa. Posteriormente, foi publicado livro com a peça vertida para prosa. Maria Clara Machado era filha do escritor Aníbal Machado e de Aracy Varela Jacob, que morreu quando Maria Clara tinha nove anos de idade. Sua família mudou-se da capital mineira para a cidade do Rio de Janeiro e se radicou no bairro de Ipanema, onde Maria Clara morou desde os dois anos de idade até sua morte. Desde seus tempos de criança, a casa onde morou era um ponto de encontro de intelectuais, amigos de seu pai – nas palavras dela, "um romântico comunista". Entre os grandes nomes que frequentavam as reuniões estavam Maria Helena Vieira da Silva, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Di Cavalcanti, Oswaldo Goeldi, Guignard, Portinari, Otto Lara Resende, Rubem Braga, João Cabral de Melo Neto, Moacyr Scliar e Tônia Carrero. Também passaram por lá Albert Camus (escritor, filósofo, e jornalista franco-argelino) e Pablo Neruda (poeta-diplomata chileno e político, Prêmio Nobel de Literatura em 1971). Maria Clara Machado faleceu na cidade do Rio de Janeiro, no dia 30 de abril de 2001, aos 80 anos de idade. Dizem que o seu espírito hoje vive no Tablado do coração de Maribel, no sótão de uma velha casa, na companhia de Pluft, um fantasminha que tem medo de gente. É o que dizem. Eu não duvido de nada.

João Scortecci


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1964 E OS MEUS OITO PRIMEIROS ANOS DE VIDA

No ano de 1964 eu tinha oito anos de idade. Morava na Avenida D. Manoel, n. 1.086, na cidade de Fortaleza/CE. O dia 31 de março daquele ano caiu numa terça-feira. Quando mamãe Nilce entrou no quarto – na manhã do dia 1º de abril – eu já estava acordado, uniformizado, espiando pela janela veneziana do quarto, um tanque de guerra estacionado em frente de casa, à sombra do pé de fícus. Mamãe Nilce entrou no quarto e avisou: “Hoje não tem colégio e ninguém sai de casa!” Feriado? Pensei. Dia da mentira! No quarto, dormíamos eu e meus dois irmãos: Luiz, na época com 14 anos, e José, com 13. Tomamos café da manhã em silêncio, assustados, no balcão de fórmica da cozinha – café com leite quente e pão sovado –, atentos às notícias da Rádio Dragão do Mar, no rádio Philco Transglobe. Papai Luiz, na sala, ao telefone, conversava demoradamente com o Marechal Juarez Távora (1898 – 1975), tio do então governador do Ceará, Virgílio Távora (1919 – 1988). Depois, disse: “Não saiam de casa. É uma ordem!” Entrou na Rural Willys – cinza e branca - e saiu, velozmente. Certa vez – já adulto – quis saber onde ele tinha ido naquele dia que mudou a história do Brasil. Papai Luiz desconversou. “Não me lembro!” No dia 3 de abril de 1964, o jornal “O Povo” – da tia Lúcia Dummar –, publicou no editorial a seguinte nota: “A paz alcançada. A vitória da causa democrática abre o País à perspectiva de trabalhar em paz e de vencer as graves dificuldades atuais. Não se pode, evidentemente, aceitar que essa perspectiva seja toldada, que os ânimos sejam postos a fogo. Assim o querem as Forças Armadas, assim o quer o povo brasileiro e assim deverá ser, pelo bem do Brasil.” Na minha inocência, até então, repetia o que diziam: É a “revolução”. Em 1968, a tal “revolução”, repentinamente, mudou de nome. Passou a se chamar “golpe”, e, depois, “ditadura”. Ninguém – na época – quis me explicar o motivo. Em 1968, quando os movimentos contra a ditadura ganharam as ruas do País, veio, então, o Ato Institucional n. 5, o AI-5. Eu tinha na época 12 anos de idade. Foi o escritor e médico psiquiatra cearense Mourão (Antônio Mourão Cavalcante, 1948 – 2022), amigo da família e chefe-escoteiro no Colégio Cearense, quem primeiro me alertou sobre o que estava acontecendo no País. Mourão – estudante de medicina na época – havia andado pelas passeatas de Paris e durante um tempo teve de se esconder, sei lá onde. Mudei-me para São Paulo em 1972, no auge da ditadura e dos chamados "anos de chumbo". Foi em 1973, junto com meu irmão José, na época aluno da FAU/USP, que a ficha caiu e eu então, finalmente, soube o significado e o peso cruel da ditadura. É dessa época a Revista Poetação, as passeatas e as reuniões secretas. Em 1976, servi como motorista no 2º Batalhão de Guardas, no Parque Pedro II, em São Paulo, e no QG do IIº Exército, no Ibirapuera. Vi e não vi. Guardo, ainda, no meu silêncio: luzes, noites, vozes e gritos. Pesadelos? Talvez. O jornalista e escritor Zuenir Ventura, no seu livro: “1968 – O ano que não terminou” escreveu: “Por isso, a nossa ‘geração de 68’ foi a que mais caro pagou por sua rebeldia, através de prisões, tortura, exílio e até morte”. Depois de mais de seis décadas, ainda, me pergunto: O que aquele tanque de guerra estava fazendo estacionado em frente de casa, na Fortaleza de 1964? Eu tinha 8 anos de idade e aquele dia, 1º de abril de 1964, marcou-me de segredos e histórias perdidas de uma vida inteira. 

João Scortecci

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VIRGINIA WOOLF: “UMA MULHER DEVE TER DINHEIRO E UM TETO TODO SEU, SE ELA QUISER ESCREVER FICÇÃO.”

A casa editorial britânica Hogarth Press foi fundada em 1917, pelo casal Woolf, Leonard Sidney Woolf (1880 - 1969) e Virginia Woolf (1882 - 1941). Durante o período “entreguerras”, a editora deixou de ser um passatempo e se tornou um negócio. Compraram impressoras gráficas e começaram a publicar e imprimir livros do “Grupo de Bloomsbury”, formado por artistas e intelectuais britânicos, que existiu entre 1905 e o fim da Segunda Guerra Mundial. Dentre seus membros mais conhecidos, estão Virginia Woolf, John Maynard Keynes, Clive Bell, E. M. Forster, Duncan Grant, Desmond MacCarthy e Lytton Strachey. A editora e gráfica Hogarth Press foi a pioneira na publicação de trabalhos sobre psicanálise e obras estrangeiras traduzidas, especialmente da língua russa. Em 1938, Virginia Woolf renunciou aos seus interesses no negócio, que passou a funcionar com uma parceria entre Leonard Woolf e o poeta John Lehmann (1907-1987), fundador dos periódicos New Writing e London Magazine. A parceria durou até 1946, quando passou a ser administrada pela Chatto and Windus, editora de livros, fundada na Era Vitoriana. Desde 1987, a Hogarth Press é um selo da The Crown Publishing Group, parte da Random House, Inc., uma das principais editoras em língua inglesa do mundo. Virginia Woolf estreou na literatura em 1915, com o romance The voyage out (A viagem), que abriu o caminho para a sua carreira como escritora e uma série de obras notáveis. Seus trabalhos mais famosos incluem os romances Mrs. Dalloway (1925), To the lighthouse (O farol) (1927), Orlando: a biography (1928). No final dos anos 1920, tornou-se uma escritora de sucesso, com reconhecimento internacional, mas caiu no ostracismo após a Segunda Guerra Mundial. Foi redescoberta por causa do livro-ensaio publicado em 1929, A Room of One's Own (Um teto todo seu), no qual se encontra a famosa citação "Uma mulher deve ter dinheiro e um teto todo seu, se ela quiser escrever ficção". Woolf foi uma das precursoras do uso do fluxo de consciência, técnica narrativa que simula o processo de pensamento desordenado e contínuo de um personagem, sem a intervenção direta de um narrador. Essa técnica literária marcou o estilo de Woolf, James Joyce e William Faulkner. Em 1941, com o estopim da Segunda Guerra Mundial, a destruição da sua casa em Londres e a fria recepção da crítica à sua biografia do amigo pintor e crítico de arte, Roger Fry (1866 – 1934), Virginia Woolf caiu em profunda depressão. Em 28 de março de 1941, aos 59 anos de idade, vestiu seu casaco, encheu os bolsos com pedras, caminhou em direção ao Rio Ouse, perto da sua casa, em North Yorkshire, no Reino Unido, e se afogou. Antes de cometer suicídio deixou um bilhete para o marido Leonard Sidney Woolf: “Tenho certeza de que estou enlouquecendo novamente. Sinto que não podemos passar por outro desses momentos terríveis. E desta vez não vou me recuperar. Começo a ouvir vozes e não consigo me concentrar. Então, estou fazendo o que me parece a melhor coisa a fazer. Você me deu a maior felicidade possível. Você foi, em todos os sentidos, tudo o que alguém poderia ser (...)” . Seu corpo foi encontrado três semanas mais tarde, em 18 de abril de 1941, por um grupo de crianças, perto da ponte de Southease, no Sudeste da Inglaterra. 

João Scortecci

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MARCOS REY, PALMA DONATO, MÁRIO DE ANDRADE E O TROFÉU JUCA PATO

Conheci o escritor e roteirista Marcos Rey (Edmundo Donato, 1925 – 1999) nos anos 1980. Ficamos amigos e, sempre que possível, nos encontrávamos nas noites literárias da “Pauliceia Desvairada”. Era de um bom humor invejável. Estava sempre sorrindo! Por longo tempo frequentamos a sede da UBE - União Brasileira de Escritores, na Rua 24 de Maio, n. 250, 13º andar, na capital paulista, e trabalhamos juntos na comissão do Prêmio Juca Pato – Intelectual do Ano, criado em 1962, por iniciativa de Marcos Rey e realizado pela UBE. O premiado recebe o Troféu Juca Pato, que é a réplica do personagem criado pelo jornalista Lélis Vieira (1880 – 1949) e imortalizado pelo ilustrador e chargista Belmonte (Benedito Carneiro Bastos Barreto, 1896 – 1947). Não é um prêmio literário, mas uma láurea conferida à personalidade que, havendo publicado livro de repercussão nacional no ano anterior, tenha se destacado em qualquer área do conhecimento e contribuído para o desenvolvimento e prestígio do País, na defesa dos valores democráticos e republicanos. Em 1996, depois de dois anos de interrupção – entre 1993 e 1994, devido ao despejo da entidade –, a premiação foi retomada, e Marcos Rey foi indicado para receber o Troféu Juca Pato. Eu, João Batista Sayeg, Marigê Marchini, Caio Porfírio Carneiro e outros abrimos a lista de indicação, que contou com as assinaturas de 30 sócios da entidade. Naquele ano não houve concorrentes, e Marcos Rey foi, então, aclamado vencedor, merecidamente. Ele morreu três anos depois, no dia 1º. de abril de 1999, aos 74 anos de idade. Mais recentemente, soube que Palma (Linda Palma Bevilacqua Donato), viúva de Marcos Rey, faleceu aos 90 anos de idade. Ela era o anjo da guarda do escritor. Estavam sempre juntos. Inteligente e de um coração maravilhoso. Gostava de livros e era uma leitora voraz. Nos anos 2000, depois da morte de Marcos Rey, ela me ligou, perguntando sobre publicação de livro. Estava escrevendo suas memórias. “Traga que eu publico”, respondi. “Não está pronto. Estou colocando a vida no papel”, justificou-se. Meses depois, fiquei sabendo que sofreu um AVC. O tempo passou. Não sei se concluiu ou não suas memórias. Marcos Rey amava São Paulo. Antes de morrer, deixou dois pedidos inegociáveis: ser cremado e que suas cinzas fossem espalhadas em um lugar onde houvesse pedras e concreto. Marcos Rey foi então cremado, e suas cinzas foram jogadas de um helicóptero, que sobrevoou a cidade de São Paulo, na sua, nossa, de Mário de Andrade e de muitos “Pauliceia Desvairada”.

João Scortecci

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LIVRARIA TEIXEIRA E A CAIXA REGISTRADORA DO LIVRO

Foi o escritor cearense Caio Porfírio Carneiro (1928 – 2017), secretário-geral da UBE – União Brasileira de escritores, na época com sede na Rua 24 de Maio, n. 250, 13º andar, próxima da Praça da República, centro da capital paulista, quem me levou para conhecer a então centenária Livraria Teixeira, da Rua Marconi, n. 40. Isso no final dos anos 1970. A Livraria Teixeira – que também era editora e publicava livros – foi fundada em 1876, pelos imigrantes portugueses Antonio Maria Teixeira e José Joaquim Teixeira. Em sua história teve herdeiros, sócios e sofreu, ao longo das décadas, diversas alterações de razão social. A livraria Teixeira & Irmão nasceu na Rua São Bento, n. 52, e funcionou também nos endereços: Avenida São João, n. 8, Rua Libero Badaró, n. 491, e, a partir de 1955, na Rua Marconi, n. 40, onde permaneceu por mais de 40 anos. Como casa editorial lançou Poesias (1888), primeiro livro de Olavo Bilac, a primeira edição de A carne (1888), de Júlio Ribeiro e Espumas Flutuantes (1889), de Castro Alves, além de livros didáticos e jurídicos. Na lista de frequentadores assíduos, constam o Imperador Dom Pedro II, o Presidente da República Washington Luís, o prefeito da capital paulista Prestes Maia, o jurista Rui Barbosa e os escritores Jorge Amado, Érico Veríssimo, José Mauro de Vasconcelos, Procópio Ferreira, Mário Lago, Lêdo Ivo, Lygia Fagundes Telles, entre outros. Atribui-se à Livraria Teixeira uma novidade no Brasil, na época: as tardes de autógrafos, seguidas de palestras e debates. Depois da morte dos irmãos Teixeira, a livraria teve, ao longo do tempo, vários sócios. Em 1910, o caixeiro português Vieira Pontes (José Vieira Pontes, 1880 - 1952) tornou-se gerente e sócio majoritário, destacando-se, ainda, no cenário do teatro brasileiro, como um importante teatrólogo. Vieira Pontes dirigiu a casa por 50 anos, até sua morte em 1952. Em 1944, os colaboradores Dorival Lourenço da Silva e Horácio Contier Lomelino, funcionários da casa desde 1928 e 1929, respectivamente, tornaram-se também sócios da então Livraria Teixeira, Vieira Pontes & Cia, Ltda. Em 1952, como sócio majoritário, assumiu Arthur Ferreira Girão e, mais uma vez, houve mudança de razão social, passando para "Livraria Teixeira, Ferreira Girão & Cia. Ltda.”. Com a morte de Arthur Ferreira Girão, em 1959, entraram na sociedade os também colaboradores Mário Chistovam e Carlos Cardoso Filho, desde 1933 e 1939, respectivamente, formando o quadro societário da Livraria Teixeira, Lomelino, Silva & Cia. Ltda. Na década de 1990, a livraria entrou em crise, não conseguindo pagar nem mesmo os aluguéis. Lembro-me, na época, de ter participado e colaborado em várias iniciativas para tentar salvar a casa, sem sucesso. Em 2000, fechou as portas. Em uma das vezes que visitei a Livraria Teixeira, apaixonei-me pela caixa registradora, do início do século passado, que ficava num balcão, à esquerda. Poucos meses depois, comprei num antiquário uma caixa registradora, também do início do século XX, da marca Rena. A máquina foi restaurada – hoje faz parte do memorial da Scortecci Editora – e, vez por outra, ilustra o estande da editora, durante as bienais do livro de São Paulo. Quando a vejo – máquina registradora - lembro-me da Livraria Teixeira, do amigo cearense Caio Porfírio Carneiro, dos primórdios da UBE e das tardes de quarta-feira quando nos reuníamos para conversar sobre as histórias do livro. 

João Scortecci

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DOENÇA DE POETA E OS HIPOCAMPOS DA LOUCURA

Gosto dos loucos. São sábios e interessantes! Louco: aquele cujo comportamento ou raciocínio denota alterações patológicas das faculdades mentais. Gosto da parte que diz: faculdades mentais. O poeta romano Juvenal (Décimo Júnio Juvenal, c. 55 e 60 – 127), autor de “Sátiras”, sofria de hipergrafia: tendência à escrita compulsiva e extensa, termo médico para descrever a “doença” da escrita. A hipergrafia é desencadeada pela epilepsia do lobo temporal e às vezes está associada à doença bipolar, na qual a mania se alterna com a depressão. O impulso para escrever tem origem no sistema límbico – conjunto de células cerebrais associadas à emoção – e transformado em ideias “editadas” pelos lobos temporais. Encontrei o poeta romano Juvenal lendo sobre “Sátiras”, fonte de uma penca de máximas filosóficas, algumas de arrancar os cabelos da razão. Exemplo: “E quem vai vigiar os vigias?”. Lendo sobre Juvenal, lembrei-me dos muitos escritores que conheço – ou conheci – que sofrem ou sofriam de hipergrafia aguda. Bipolaridade de gênero! “João, o que faço: não paro mais de escrever?”. Respondo: “Nada!” Uma hora qualquer - do nada - o lobo temporal entra em colapso e a cura acontece naturalmente. Pode acreditar! Chamam isso de “seca literária!”. Quem duvidar recomendo ler a obra “História da Loucura na Idade Clássica" (“Histoire de la folie à l'âge classique”) (1961), do filósofo, historiador das ideias, teórico social, filólogo, crítico literário e professor francês Paul-Michel Foucault (1926 – 1984). Uma curiosidade: em 2026 comemora-se o centenário do seu nascimento. No tarot, a carta “o Louco” é a última do baralho – a de número 22 – mas também é considerada a carta “zero”, porque a partir dela tudo se renova: início e fim. Definição do arcano: impetuosidade, vontade de viver, entusiasmo temporário, integridade e otimismo. E significa: quebrar o ciclo, romper, e por princípio definir e apontar o caminho de novos horizontes. No Tarot, a carta “o Louco” pode ser considerada uma carta benéfica, ou não. Um coringa! Resumindo: desconhecia a existência do tal “sistema límbico”, conjunto de estruturas cerebrais interconectadas que processam emoções, comportamentos motivados e memória, responsável pela loucura ímpar dos poetas hipergráficos. Pergunta: “E quem vai vigiar os poetas?”. Bipolaridade de gênero! 

João Scortecci


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ECA DIGITAL E RUTH ROCHA

Acordei com alguém no radinho falando sobre uma tal “Lei Felca”. Felca? O que eu descobri: apelido – nome de guerra – do youtuber, influenciador digital e humorista Felipe Bressanim Pereira. Não o conhecia. Muito prazer! Aqui confesso: não consigo mais acompanhar um pouco de tudo. Depois da pandemia da Covid -19, realinhei a mira, o foco, o pensamento crítico. Continuo curioso, isso me basta. Abri a Internet e digitei: “Lei Felca”. Encontrei: ECA Digital – Estatuto Digital da Criança e do Adolescente –, instituído pela Lei nº 15.211/2025, uma atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) de 1990, focada na proteção de menores de 18 anos no ambiente on-line. A lei entrou em vigor em 17 de março de 2026. Ufa! Encontrei-me! Em 1990 acompanhei de perto a aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente. Junto, no ano de 2002, o trabalho primoroso da amiga e escritora Ruth Rocha, que traduziu os princípios do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e da Declaração Universal dos Direitos da Criança, para uma linguagem poética e acessível. “Os Direitos das Crianças” defende proteção, saúde, educação, lazer e, fundamentalmente, o direito à felicidade e ao amor. Obra belíssima, ilustrada por Eduardo Rocha. Poema “O Direito das Crianças”, de Ruth Rocha: “Toda criança no mundo / Deve ser bem protegida / Contra os rigores do tempo / Contra os rigores da vida. / Criança tem que ter nome / Criança tem que ter lar / Ter saúde e não ter fome / Ter segurança e estudar (...). “Embora eu não seja rei, / Decreto, neste país, / Que toda, toda criança / Tem direito a ser feliz!”. Guardo no coração os últimos versos: “Embora eu não seja rei”. Li e reli a nova Lei do ECA Digital. Confesso: não sei como “conseguiremos” colocá-lo em prática. Apenas um longo começo? Talvez. Importante? Sim, muito. Cada linha um imbróglio, um abismo, uma forca. Um “Nó oito”, utilizado em escalada, alpinismo e navegação para ancoragens seguras. Não podemos subir com segurança e do nada – por imprudência, descaso ou medo – despencar lá do alto. De volta – incerto – ao poema de Ruth Rocha: “Ver uma estrela cadente, / Filme que tenha robô, / Ganhar um lindo presente, / Ouvir histórias do avô.”. Embora eu não seja rei, sou soldado-poeta do imortal exército de Brancaleone.

João Scortecci

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RICARDO RAMOS - GOSTAVA DELE AOS TRANCOS E BARRANCOS!

Conheci o jornalista e escritor Ricardo Ramos (Ricardo de Medeiros Ramos, 1929 - 1992), em 1978, numa quarta-feira, na sede da UBE - União Brasileira de Escritores, na Rua 24 de Maio, 250, no centro da cidade de São Paulo, entre as praças da República e da Sé. Chegávamos cedo, aos poucos, por volta das 17 horas. A sede da entidade ficava no 13º andar, num imenso salão de 459 m², pertencente ao INSS. No espaço: na entrada, à direita, uma sala de diretoria, com uma mesa de reunião, em que cabiam – apertado – 16 pessoas, duas poltronas perto da janela, estante com livros; uma secretaria conjugada à sala, com duas mesas e alguns arquivos de aço administrados pelos incansáveis Caio Porfírio Carneiro e Lauro Vargas; um salão principal, com sofás, formando três ambientes; à esquerda, um pequeno auditório para 40 lugares; banheiros, no final do salão; e, ocupando todo o espaço do fundo do salão, uma pequena cozinha e o inesquecível “Bar do Franco”, ponto de encontro de intelectuais e artistas, onde bebíamos uísque cowboy e comíamos pastel de queijo de higiene duvidosa. Ninguém morreu: que eu saiba! Íamos embora tarde da noite, em pequenos grupos, por questão de segurança ou para jantar fora – e continuar bebendo – na madrugada paulistana. Ricardo Ramos publicou dezenas de livros. Foi publicitário, editor, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing e o idealizador do Prêmio Nestlé de Literatura. Ganhou, por três vezes, o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, com as obras: “Os caminhantes de Santa Luzia” (1960), “Os desertos” (1962) e “Matar um homem” (1971). Era um contador de causos e não perdia uma boa piada, por nada deste mundo. Sempre aprontava! A lista de travessuras é grande! Vez por outra, aos sábados, nos reuníamos na casa do professor e crítico literário Fábio Lucas, na Vila Mariana. Bebíamos, jogávamos conversa fora e depois saíamos para comer feijoada no “Livorno”, da Rua Vergueiro. No lançamento do seu livro “Desculpe a nossa falha” (1991), fui presenteado com um exemplar. Ricardo Ramos me chamou de lado e disse, apontando para a sua foto na orelha do livro: “Scortecci, gosto muito desta foto. Quero ser lembrado por ela!”. Ricardo Ramos morreu jovem, com 63 anos de idade. Estivemos juntos, pela última vez, numa noite inesquecível, na casa do amigo comum José Carlos Garbuglio, que recepcionava, na época, um casal de professores franceses. Lembro-me dos dois assuntos da noite: Plano Collor, que havia nos deixado na maior pindaíba, e Jacques-Yves Cousteau (1910 - 1997) e suas viagens de pesquisa, a bordo do poderoso Calypso. “Aqui na minha casa – foi o que Garbuglio nos disse – podemos meter o pau em qualquer desgraçado deste mundo, vivo ou morto, menos no Cousteau!”. Risos. Ricardo Ramos já estava doente. Naquela noite, a meia garrafa de uísque que bebeu lhe fez mal. Estranhei. Depois, quando a doença veio de vez, entrou em depressão e se isolou. Calou-se! Nem telefone atendia. Faleceu no dia 20 de março de 1992. Juntei os amigos próximos e imprimimos, na Gráfica Scortecci, um pôster com mensagens e a foto que ele adorava. Em sua homenagem, providenciamos, também, junto à Prefeitura Municipal de São Paulo, a indicação para uma praça com seu nome, nas proximidades da Avenida Sumaré, em São Paulo. O seu velório foi na Academia Paulista de Letras, no Largo do Arouche. Sua morte foi notícia em toda a mídia. No “Jornal Hoje", da Globo, sua última travessura. Alguém duvida? O apresentador deu a notícia do falecimento, leu sua biografia (invejável) e mostrou, erroneamente, não a sua foto de que ele tanto gostava, mas a foto de José Carlos Garbuglio. Este escritor, que assistia ao noticiário da Globo – foi o que me contaram, depois – quase morreu do coração. A foto do post de hoje é a de que Ricardo Ramos gostava e, com ela, imortalizou-se. "Gostava dele aos trancos e barrancos!" foi o que escrevi no pôster, hoje peça integrante da memória de Scortecci.

João Scortecci


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LAÉSSIO, O LADRÃO DE LIVROS

Vez por outra ele volta e dá o ar da graça. Não desiste nunca! Já esteve preso mais de cinco vezes, talvez mais. Não encontrei o seu histórico de crimes, sua ficha corrida. Disse-me um amigo: “Não tem cara de ladrão!”. Respondi: “Também pudera! Roubar livros não é para qualquer pé rapado!” Laéssio Rodrigues de Oliveira é conhecido e famoso no mundo dos livros. Nasceu em Teresina, no Piauí, em 15 de janeiro de 1973. Ainda criança mudou-se com a família do Piauí para São Bernardo do Campo, na região do ABCD paulista. Seu pai trabalhava como eletricista. Bebia muito e acabou morrendo atropelado em uma rodovia. Sua mãe ainda vive. Aos 15 anos de idade, assumiu-se gay. Desde criança, é fissurado por gibis e jornais. Conversa com conhecimento sobre cinema, música e livros raros. Na adolescência, apaixonou-se pela atriz e cantora Carmen Miranda (Maria do Carmo Miranda da Cunha, 1909 – 1955) e, desde então, coleciona tudo que pode sobre a cantora. Para alimentar a compulsão de fã, passou, então, a furtar documentos e livros raros. O primeiro crime aconteceu no Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo: roubou um exemplar da revista “Fon Fon”, da década de 1940, com o rosto de Carmen Miranda na capa. No ano de 1996, aos 23 anos de idade, conheceu seu primeiro cliente, o escritor e musicólogo Abel Cardoso Júnior (1938 – 2003), radicado em Sorocaba, interior de São Paulo, autor do livro sobre Carmen Miranda, “A Cantora do Brasil”. Declarou, quando foi detido: “Vendi todo meu acervo para ele. Larguei um emprego na prefeitura para viver disso”. Na virada do século, resolveu empreender: comprou uma barraca na Feirinha do Bixiga, reduto de colecionadores de antiguidades na cidade de São Paulo. Aconselhado por clientes, resolveu, então, trabalhar com documentos raros e livros antigos. É acusado de crimes nos estados da Bahia, Pará, Paraná e São Paulo. Declarou, ainda: “Para pegar livro, não é preciso matar ninguém, sequestrar ninguém. Sou alheio a violência, não gosto de violência”. Foi preso diversas vezes, com condenações que somam mais de 10 anos. Cumpriu pena no sistema prisional de Bangu, durante cinco anos. Durante o período que esteve em Bangu, montou uma biblioteca na penitenciária, depois de solicitar doações a diversas editoras. Recebi, na Scortecci Editora, um pedido seu de doação. Não atendi. Laéssio Rodrigues de Oliveira está solto, novamente. Foragido? Não sei. No último dia 27 de fevereiro de 2026, esteve na sede do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo – entidade fundada em 1894, dedicada à preservação e ao estudo da história paulista –, onde se apresentou como pesquisador, assinou livros de visita, mas acabou sendo reconhecido pelo presidente da instituição, o Prof. João Tomás do Amaral. O ladrão de livros desconfiou e fugiu, antes da chegada da polícia. Laéssio não desiste nunca. Vai voltar! Comentário do amigo sobre o famoso ladrão de livros, Laéssio Rodrigues de Oliveira: “Antes de levá-lo preso quero uma selfie com o homem, hoje com 53 anos de idade.”. Repito: roubar livros não é para qualquer intelectual. Precisa ser esperto! Um bibliocleptomaníaco raiz.

João Scortecci

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SOL A PINO E MÃO NA RODA

Conheci a expressão “mão na roda” quando atolei o novíssimo Alfa Romeo do meu pai Luiz Gonzaga nas areias da Praia do Futuro, no Ceará dos anos 1970. Na época – motorista novo e pé de chumbo - tudo lá ainda era deserto, somente mar, dunas e sonhos. Na hora deu desespero. Sou um filho morto! Pensei. Quanto acelerava – o pneu girava – e o buraco – cada vez maior, engolia o carro. Saí do volante – noite estrelada – e coração acelerado, quase saindo pela boca. Joguei o litro de Bacardi no mar e sentei-me, perdido, no capô do carro. E agora? A ideia era esperar o dia amanhecer e pedir ajuda. Gosto de ver o sol nascer: ritual de uma vida inteira. Naquele dia o sol demorou a chegar, veio preguiçoso e tímido. Procurei – na imensidão das areias - algo para calçar a roda do carro. Nada. Não podia abandonar o carro, ali, no meio do nada, e sair para pedir socorro. Fechei o carro e caminhei até a boca da estrada – na época ainda de paralelepípedo – na direção de uma pequena construção, no meio do nada. Era um bar, um boteco de estrada, aberto, rádio tocando alto e três bêbados, curvados, no balcão. Quem aqui quer uma beiçada? Os três homens levantaram a cabeça, interessados. Foi nessa hora que o sol chegou de vez, iluminando tudo. Primeiro temos que tirar aquele carro – estiquei o braço apontando na direção do Alfa Romeo – do atolamento. Levantamos a traseira do carro e tapamos a cratera com areia e um pouco de tudo que encontramos nas cercanias. O carro saiu fácil, desatolou-se. Gritos! Missão cumprida. Beberam cachaça Bagageira. Disse-lhes: Eu não bebo! Menti. Paguei a garrafa, agradeci a “mão na roda” e fui embora, aliviado. Meu pai Luiz Gonzaga me aguardava, calmamente, deitado na rede do terraço. Olhou o Alfa Romeo, deu duas voltas completas ao redor do carro e resmungou, pensativo: Precisamos lavar o carro! Sim. Respondi. Foi o que fizemos, juntos, no silêncio do mar, no amor de pai pelo filho, do sol a pino, na roda do tempo veloz.

João Scortecci 

 

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DOCE DE LEITE ARISTOTÉLICO

Das concepções aristotélicas. E os elementos: fogo, ar, terra e água. Princípios do principal. A saber: receita alquimista de Maria, irmã de Moisés. E mais um pouco de tudo: banho-maria! Receita de bruxa? Talvez. Anotações do coração: lata de leite moça na panela de ferro e fervura. Não esquecer – detalhe importante – de tirar, antes, o rótulo de papel. Depois de ferver, baixe o fogo. Vigiar – no olho grande – e espiar: vez por outra. Demora mesmo. O suficiente. Pronto? Agora deixe esfriar. Pode assoprar? Pode, mas não ajuda. Paciência. Deixa o doce respirar, ventaniar no descanso da brisa fresca da manhã. Aristóteles – sentado no banco da cozinha – me olha, desconfiado. Amor à sabedoria. Castiga no queijo branco. Corte em tiras. Sabe fazer? Olha – e faz igual: assim! E agora? Abre a boca – dos infernos – e come, aos pecados, feito Dante. Quem? Ninguém. Esquece. Isso engorda? Muito. Aristóteles cheira e prova miúdo, com cara de quem gostou. Não repete a gula: assim são os polímatas. Cadê o poeta mineiro? Está lá no canto da cozinha, papeando com Moisés, o moço dos tijolos. Estão filosofando? Sempre! Estão – ambos – em banho-maria. Sobre o que conversam: posso saber? Concepções da metafísica, lógica, política, retórica, mineirices do claro enigma. E Maria? Ainda na lata, pronta para ser devorada. Guardou o rótulo da lata da moça? Sim, claro. O que você vai fazer com ele? Talvez escrever no verso uma mimosa, um poema doce, uma cartinha de cheiro, ou algo assim. Você – vate metido – e essa sua fraqueza literária de resfolegar no tempo! São as concepções aristotélicas da vida. Versejar – ainda é – o melhor uso que o homem pode fazer do seu tempo livre. E agora? Lambe os dedos. É o melhor do doce de leite.

João Scortecci

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JOHN DALTON E O CROMOSSOMO X

O químico e físico John Dalton (1766 - 1844) nasceu em Eaglesfield, uma pequena cidade na Escócia. Não o conhecia – confesso – e nunca tinha ouvido falar sobre sua pessoa, inventos e descobertas. Cheguei até John Dalton lendo sobre “discromatopsia”, defeito na visão de algumas cores e incapacidade de percebê-las, no todo ou em parte. É o meu caso, com as cores: azul, verde e marrom. Acordo - quando estou cansado ou tive uma noite mal dormida - todo zoado! Vejo tudo preto e branco. Na verdade: acinzentado! Não percebo na hora, leva um tempo. Só percebo quando as cores voltam. Digo sempre: ligaram o botão! A doideira é comum quando acordo e costuma durar até perto das 10 horas da manhã. Acontece também – mais raramente – no final do dia, na hora do pôr do sol, quando tudo fica um imenso painel acinzentado. Impossível dirigir, ler e escrever. O que faço: ligo radinho de pilha e espero o tsunami passar. A ciência diz que é um defeito no cromossomo X, responsável pela guarda das razões hereditárias e das mutações da natureza. Das 3.200 doenças hereditárias identificadas até hoje, 307 podem ser atribuídas à ocorrência de mutações ou falhas no cromossomo X, as quais interrompem a produção de algumas proteínas essenciais para o bom funcionamento do organismo. Passei alguns vexames quando criança – sapatos, roupas, meias, pinturas, plantas e frutas – e só descobri que existia algo de errado, no ano de 1976, quando no serviço militar obrigatório. A cor verde-oliva dos uniformes militares parecia cáqui, igual à do uniforme dos escoteiros. Mesmo assim, tornei-me motorista e servi no BG - 2º Batalhão de Guardas, Parque D. Pedro II e no QG do II Exército, no Ibirapuera. É engraçado o fenômeno do reencontro com as cores: “alguém” liga o botão e eu – instantaneamente – começo a enxergar colorido. Os daltônicos não enxergam todos do mesmo jeito. Há três tipos básicos de daltonismos, que também variam na intensidade. São eles: pronatomalia, deuteranomalia e tritanomalia. Eu sofro de tritanomalia. É o que dizem. John Dalton também sofria de daltonismo, como passou a ser denominado o problema de visão, depois que esse cientista publicou, em 1794, um estudo revelando que tinha dificuldade para distinguir a cor verde da cor vermelha. Seus olhos – depois de morto – foram removidos para fins de estudo. Um pedido: não façam isso com os meus! Além de John Dalton, alguns daltônicos famosos: Paul Newman, Bill Clinton, Mark Zuckerberg, Keanu Reeves e o Príncipe William. Digo sempre: não acreditem nunca no que eu estou vendo!  

João Scortecci


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O BIBLIOTECÁRIO BASTOS TIGRE

O poeta, jornalista, publicitário e bibliotecário Manuel Bastos Tigre nasceu em Recife, Pernambuco, no dia 12 de março de 1882. Estudou no Colégio Diocesano de Olinda e se diplomou engenheiro pela Escola Politécnica de Pernambuco, em 1906. Trabalhou como engenheiro da General Electric e foi ajudante de geólogo no Departamento de Obras Contra as Secas, no Ceará. Foi homem de múltiplos talentos e em todas as áreas obteve sucesso, especialmente como publicitário. É dele o slogan da Bayer que correu o mundo, garantindo a qualidade dos produtos daquela empresa: "Se é Bayer é bom". Como engenheiro, resolveu fazer aperfeiçoamento em eletricidade, nos Estados Unidos da América do Norte. Lá, conheceu o bibliotecário Melvil Dewey (Melville Louis Kossuth Dewey, 1851 – 1931), que instituiu o Sistema de Classificação Decimal, referência na área até os dias de hoje. Esse encontro foi decisivo na vida de Bastos Tigre. Em 1915, aos 33 anos de idade, abandonou a engenharia para trabalhar com a biblioteconomia. Naquele ano, prestou concurso para Bibliotecário do Museu Nacional do Rio de Janeiro, com tese sobre a aplicação do Sistema de Classificação Decimal de Dewey. Mais tarde, transferiu-se para a Biblioteca Central da Universidade do Brasil (hoje, Biblioteca Pedro Calmon, instituída pelo Decreto-Lei n. 8393, de 17 de dezembro de 1945), onde atuou como diretor por mais de 20 anos, até sua morte. Lendo a biografia do bibliotecário americano Melvil Dewey, descobri a razão e o motivo da paixão de Bastos Tigre pelos livros. Dewey descreveu, nos seguintes termos, como a ideia da Classificação Decimal lhe aflorou ao espírito: "Durante meses imaginei, noite e dia, que deveria haver, em alguma parte, uma solução satisfatória. No futuro teríamos milhares de bibliotecas, a maioria das quais aos cuidados de pessoas com pequena capacidade ou escasso adestramento. O primeiro requisito da solução há de ser a maior simplicidade possível. O provérbio dizia 'simples como a, b, c', mas ainda mais simples do que isso era 1, 2, 3. Após meses de estudo, um domingo, durante um longo sermão do pastor Stearns, enquanto o encarava com firmeza sem lhe ouvir uma palavra, e absorvida a mente no problema vital, a solução coruscou-me ante os olhos, a ponto de fazer-me saltar da minha cadeira e de quase levar-me a gritar: EURECA! (...)”. Bastos Tigre exerceu a profissão de bibliotecário por 40 anos e é considerado o primeiro bibliotecário por concurso, no Brasil. No dia 12 de março é comemorado o Dia do Bibliotecário, que foi instituído em sua homenagem, pelo Decreto nº 84.631, de 9 de abril de 1980. Manuel Bastos Tigre, morreu no dia 2 de agosto de 1957, na cidade do Rio de Janeiro, aos 75 anos de idade. É dele esta frase que expressa sua paixão pelos livros e pela organização do conhecimento: “Se uma hecatombe universal destruísse a civilização, uma biblioteca que escapasse, bastaria para reconstruí-la”.

João Scortecci

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O ESCRITOR MELLO MOURÃO: “OU DANTE OU NADA!”

O poeta, ficcionista, político, tradutor, ensaísta e biógrafo Gerardo Mello Mourão (Gerardo Majella Mello Mourão, 1917 – 2007), nasceu em Ipueiras (Microrregião de Ipu), no estado do Ceará. O topônimo “Ipueiras”, de origem tupi-guarani, é formado por “y”(“água”), “puera” (“que já foi e não é mais”) e significa “lugar raso onde se acumula água”, “rio que corria e já não corre”. Foi criado em Crateús, às margens do Rio Poti, onde assistiu à passagem da Coluna Prestes, movimento político-militar brasileiro (1924 – 1927), motivado pela insatisfação com o governo do presidente mineiro Artur Bernardes (1875 – 1955) e o regime oligárquico conhecido como “café com leite”, com a predominância do poder nacional de São Paulo e Minas Gerais. Aos 11 anos de idade, ingressou no Seminário dos Redentoristas holandeses, em Congonhas do Campo – MG, e, aos 17 anos, tomou o hábito de Santo Afonso de Ligório, no Convento da Glória, em Juiz de Fora. Poliglota, aprendeu línguas vivas e deu vida a línguas mortas, além do Latim e do Grego, o Holandês, o Alemão, o Francês, o Italiano, o Inglês e o Espanhol. Deixou o convento e ingressou em curso de Direito, que abandonou antes de concluir. Gerardo Mello Mourão é considerado figura-chave da literatura nacional e também da lusófona. Suas obras mais famosas são “Invenção do mar”,  epopeia que narra o descobrimento do Brasil e os primeiros momentos da colonização portuguesa (Editora Record, 1998), com a qual recebeu o Prêmio Jabuti, e a trilogia “Os Peãs” (Editora Record), formada pelos livros “O país dos Mourões” (1963), “Peripécias de Gerardo” (1972) e “Rastro de Apolo” (1977). Durante sua juventude, aderiu ao integralismo e, mais tarde, foi acusado de colaborar com o comunismo. Durante a ditadura de Getúlio Vargas (1938 – 1945), foi preso 18 vezes. Em 1942, acusado de colaborar com nazistas, foi condenado à morte, depois à prisão perpétua, pena reduzida a 30 anos de prisão, dos quais cumpriu cinco anos e 10 meses. Durante o período da ditadura militar brasileira (1964 – 1985), foi eleito duas vezes deputado federal pelo estado de Alagoas, depois cassado e torturado. Dividiu cela com nomes como Zuenir Ventura, Ziraldo, Hélio Pellegrino e Osvaldo Peralva. Um inquieto! Com Abdias do Nascimento, Godofredo Iommi, Efrain Bo, Raul Young e Napoleón López, formou uma aliança poética chamada “La Santa Hermandad de la Orquídea”. Tinham como maior inspiração o escritor italiano Dante e, por isso, adotaram o lema: “Ou Dante ou nada”. Eis um trecho do discurso de Gerardo Mello Mourão ao receber o título de “Doutor Honoris Causa” pela Universidade Federal do Ceará, em 1993: “Pois, éramos seis. Fomos armados cavaleiros quando aquele grupo de adolescentes, numa Praça de Buenos Aires, resolveu queimar em praça pública tudo quanto até então escrevera, num pacto que se chamou ‘Pacto del Victoria’, do nome do local em que nascera. Todo o compromisso do pacto foi escrito numa única linha: – ‘Ou Dante ou nada’. Por isso, queimaram-se todos os versos da ‘juvenília’. Não teríamos o direito de escrever o já escrito, de dizer o já dito. A rompante legenda adolescente nos sagrou cavaleiros da Senhora Poesia, da Senhora Musa. Passamos a chamar-nos por um nome secreto. Éramos a ‘Santa Hermandad de la Orquídea’. A guilda órfica navegou todos os continentes e tentou lavrar todas as glebas do saber e do fazer poético (...). Aqui estou também eu: ‘ego poeta’. Pois, ‘poeta sum’." Dante ou nada, lugar raso onde se acumula água, onde o inquieto guerreiro resiste além do tempo. La orquídea? Sim. Ipueiras, do Ceará.

João Scortecci
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