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"LACERDINHA" E OS POLÍTICOS DE ÉPOCA

No começo dos anos 1960, a “lacerdinha”, um insetozinho asiático, minúsculo, de cor negra, se tornou uma praga nacional. Uma peste! O sugestivo apelido era em referência ao jornalista, escritor, editor e político carioca Carlos Lacerda (Carlos Frederico Werneck de Lacerda, 1914 - 1977), famoso por sua radical e raivosa oposição aos presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Um pentelho! Na Fortaleza daquela época água de beber chegava às casas de carroça-pipa, puxada por jegue. O carroceiro colocava o “burro na sombra” e lá ficava no silêncio do pé de fícus-benjamim - no melhor da Avenida D. Manuel, quase esquina com a Av. Duque de Caxias. Mamãe Nilce comprava, semanalmente, três latões de água com 20 litros cada. Recomendava, sempre: “Cuidado com as lacerdinhas na água!" Os galões enchiam um imenso pote de barro, que dormia do lado de fora da casa, na porta da cozinha. Água “boa” de beber, da adutora do Acarape, só chegou à cidade no inicio dos anos 1970. A água com lacerdinha era filtrada e depois fervida. O problema não eram as lacerdinhas: “o que não mata engorda!” Ditado popular da época de criança. O problema era um gato-dourado de nome Charles Boyer (homenagem ao ator e cantor francês), de propriedade do meu irmão Luiz, que do alto do muro do vizinho, urinava dentro do pote. O pior: ninguém conseguia pegar o safado do gato. Com o tempo ficou assim: água com urina! Na biblioteca da casa, mamãe Nilce lia e acompanhava o reboliço político da época. Papai Luiz, do canto da porta, provocava: “Nilce, esse Lacerda é mesmo uma praga!”. Risos. Tudo para o meu pai Luiz era motivo de piada. Carlos Lacerda em 1968 foi cassado e preso pelo regime militar. Foi solto uma semana depois, após uma greve de fome. Lacerda nos últimos anos de vida dedicou-se ao jornalismo e a direção da editora Nova Fronteira, que fundou em 1965. Em 2006 o controle acionário da casa editorial foi adquirido pelo grupo Ediouro Publicações. Lacerda faleceu no ano de 1977, aos 63 anos de idade, vítima de um infarto cardíaco. Quanto ao gato Charles Boyer, loiro e cotó, ainda dorme majestoso nos galhos do pé de fícus, no melhor da hora, de olho na chegada da carroça-pipa, na espera do espelho de macho, no reflexo das águas do pote de barro. Reencontros de hoje: O escritor Mário Magalhães - não o conheço - escreveu "Lacerda - Coração de Tempestade" (Companhia das Letras, 2026). Comprar e ler? Hora de reencontar o gato Charles Boyer, a biblioteca de mamãe Nilce, as piadas maravilhosas de papai Luiz e até, quem sabe, reencontrar as lacerdinhas do pé de fícus-benjamim do tempo. 

João Scortecci

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Futebol e Literatura: O impacto de Scarpa, Abel e Roger Machado no incentivo à leitura!

O jogador de futebol Gustavo Scarpa tornou-se um dos principais nomes do momento quando o assunto é o incentivo à leitura. Sua atuação traz esperança em um cenário desafiador para o mercado editorial, atualmente pressionado pelas práticas de descontos agressivos da gigante Amazon, que dificultam a sobrevivência das livrarias. Em meio a esse impasse econômico, onde o consumidor naturalmente prioriza o menor preço, Scarpa encontrou um caminho para aproximar as pessoas dos livros. Hoje no Atlético Mineiro, o atleta compartilha em suas redes sociais reflexões e dicas de obras que discutem vida, morte, preconceito e comportamento humano. Junto com a torcida do "Galo", ele idealizou o projeto Galeitura, um movimento que rapidamente ganhou milhares de apoiadores focados em estimular o hábito de ler. Exemplos não faltam. Roger Machado, o treinador é o mecenas do Projeto Canela Preta, criado em 2020, durante sua passagem pelo time do Bahia. Em parceria com a Hucitec Editora financia a publicação de 50 livros de autores negros e indígenas, abordando racismo, poesia e cultura afro-brasileira. Abel Ferreira, técnico de futebol do Palmeiras, autores de livros sobre futebol, é um grande incentivador da leitura e embaixador da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias (RNBC), que democratiza o acesso aos livros em periferias e comunidades vulneráveis. O reflexo disso aparece no próprio Palmeiras que, em 2026, inaugurou espaços de leitura em sua Academia de Futebol para as categorias de base, limitando o uso de celulares. Iniciativas corporativas também somam forças a esse movimento. O projeto Livros para Todos, do Grupo Editorial Scortecci — em parceria com a Abigraf e a IBÁ —, atua na criação e expansão de bibliotecas públicas e comunitárias. O grupo também assina a campanha “CirculeUmLivro”, que fomenta a leitura e a economia circular por meio da troca de obras. Em entrevista recente, Gustavo Scarpa destacou o desejo de ver esse impacto multiplicado: "Que outros clubes de futebol façam o mesmo, seguindo os exemplos do Atlético Mineiro e do Palmeiras". Ele ainda revelou que muitos atletas têm o hábito de ler, mas não compartilham o gosto nas redes sociais por receio. Estranho. Receio significa um sentimento de medo moderado, apreensão ou incerteza em relação a um resultado, consequência ou situação futura. A famosa frase "A bola pune" é um bordão clássico eternizado pelo técnico de futebol Muricy Ramalho. "A burrice pune!" O ditado resume a ideia de que o futebol não perdoa quem perde muitas chances ou vacila na vida. Algo assim.

João Scortecci 


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CLARICE LISPECTOR, CHATÔ E O ATENTADO CONTRA A REVISTA PAN

O empresário Assis Chateaubriand foi uma das figuras mais controversas da nossa história — temido, acusado de chantagem e focado em construir seu império a qualquer custo. Entre as tantas vidas impactadas por seus métodos, está a do meu avô materno, José Scortecci, editor da Revista PAN. Lançada na década de 1930, a PAN era um semanário de cultura mundial de vanguarda. Ela trazia análises da Segunda Guerra Mundial e abria espaço para novos talentos, incluindo Clarice Lispector, que estreou na literatura em suas páginas com o conto Triunfo, em maio de 1940. O sucesso da revista incomodou profundamente Chatô, o "Cidadão Kane brasileiro". Em 24 de setembro de 1936, a mando de Chateaubriand, as oficinas da gráfica que imprimia a PAN sofreram um incêndio criminoso que destruiu seu maquinário moderno. Como era comum na época, o poder de Chatô abafou o caso. Mesmo assim, a PAN resistiu e circulou até 1945. Hoje, a coleção completa dessa joia da nossa imprensa — que adquiri de um colecionador — está preservada no memorial da Scortecci Editora.

João Scortecci


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QUEM ANDA BALANÇA OS BRAÇOS

Lendo sobre o assunto: “O movimento dos braços contrabalança o balanço das pernas, impedindo que o corpo gire ou perca a estabilidade a cada passo. Andar balançando os braços de forma oposta às pernas gasta aproximadamente 12% menos energia do que caminhar com os braços grudados ou parados ao corpo.” A Inteligência Artificial, então, perguntou: “Gostaria de saber mais sobre a biomecânica da caminhada?”. “Sim”, respondi. Numa feira de robótica no interior de São Paulo, isso no ano de 2015, conversando com um engenheiro robótico, ele me disse: “Os humanos, quando andam, se equilibram balançando os braços, já os robôs, não; andam com os braços colados ao corpo!”. Anotei. De lá para cá tudo mudou: os robôs hoje fazem de tudo e quando andam também balançam os braços! Na física e na biomecânica, a caminhada é descrita como um pêndulo invertido. A cada passo, o corpo se move sobre a perna de apoio, que atua como uma haste rígida. O centro de gravidade do corpo sobe e desce em uma trajetória ondulatória. Essa mecânica permite uma troca contínua entre energia cinética (movimento) e energia potencial gravitacional (altura). Graças a esse design biológico, a caminhada humana é um dos métodos de locomoção mais eficientes da natureza, reaproveitando grande parte da energia gasta a cada passo. Na Netflix, num filme B, confuso, ruim de tudo, sobre Inteligência Artificial, a história – sem pé e sem cabeça – se passa no ano de 2063, quando robôs rebeldes dominaram o mundo e destroem Los Angeles, matando milhões de pessoas. Na trama, os humanos andavam balançando os braços economizando 12% de energia e os robôs, não; andavam com os braços colados ao corpo. No final do filme, os robôs eram os mocinhos – reviravolta completa – e só queriam viver em paz. Os humanos eram os verdadeiros bandidos. Acontece. Hoje vou caminhar no Parque das Perdizes – visitar a minha neta – e depois comer pastel de alho-poró e beber água de coco. Pretendo dar voltas no parque com os braços colados ao corpo e ver o que acontece. Aviso dado. Desconfio que me tornei um robô, um humanoide do pêndulo invertido, em um futuro não muito distante, algo assim.

João Scortecci


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REGRAS DE FUTEBOL DE RUA DOS ANOS 1960

Jogávamos bola na rua, descalços, na calçada da Av. D. Manoel, quase esquina com a Av. Duque de Caxias, na cidade de Fortaleza dos anos 1960. Os dois melhores jogadores da turma não podiam estar no mesmo time. Regra inegociável! Tirávamos par ou ímpar e escolhíamos alternadamente os times. Metade para cada lado! Os ruins de bola ficavam na defesa e os bons, no ataque: simples assim. Ser escolhido por último era uma grande humilhação. Os gordinhos e os canelas duras sofriam, mas jogavam! Ninguém sobrava ou ficava de fora. Um time jogava sem camisa e o outro com camisa. O pior de cada time virava goleiro, a não ser que tivesse alguém catador de bola. Se ninguém quisesse ser goleiro, adotava-se o rodízio: cada um do time agarra por um tempo, até alguém marcar um gol no adversário. Quando tinha um pênalti, saía o goleiro ruim e entrava o goleiro bom, só para tentar pegar a cobrança. As traves eram de sandálias havaianas ou com paralelepípedos. Gol pequeno, sem goleiro, ou gol grande, com goleiro. Os piores de cada time jogavam na defesa, não podiam avançar! O dono da bola jogava no mesmo time do craque. Não tinha juiz. As faltas eram marcadas no grito: se um jogador sofresse falta tinha que gritar: “Falta!”. Pegava a bola ligeirinho e batia a falta. Lesões, como arrancar a tampa do dedão do pé, ralar o joelho, sangrar o nariz e outras, eram do jogo. Quando alguém chutava a bola para longe, tinha que ir buscar. Lances polêmicos eram resolvidos no grito e na pressão, ou no braço. A partida acabava quando anoitecia, quando a bola furava ou quando a mãe do dono da bola mandava ele para casa tomar banho. Um detalhe insignificante: quando o dono da bola não obedecia ao chamado da mãe era comum ela aparecer de surpresa e levá-lo pela orelha. Fim de jogo.

João Scortecci

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FUZIS, FEIJÕES E FLATULÊNCIAS

“Sinédoque” é uma figura de linguagem – a palavra vem do grego e significa “compreender várias coisas conjuntamente”. É um tipo especial de “metonímia”. Caracteriza-se pela substituição de um termo por outro. Consiste na atribuição da parte pelo todo (“pars pro toto”), ou do todo pela parte (“totum pro parte”). Isso tudo – ou quase nada – para tentar entender, ou desenhar, quem sabe, o perfil de uma relação-sinédoque entre um fuzil – pedra que produz fogo – e um feijão – semente que alimenta e alegra a barriga dos brasis com proteínas, ferro, cálcio, vitaminas, carboidratos e fibras. Aqui – em dia de incertezas – descubro “conjuntamente” a relação-sinédoque entre fuzis e feijões. Leio, também, sobre flatulências, gases, puns, traques e sobre armas automáticas, modelo 762, de 20 tiros, que custam, aproximadamente, 12 mil reais, em lojas da Internet, o equivalente a 1.600 quilos de feijão. Comparação estúpida! Minha “pederneira” fartou-se de gases! Feito isso, iniciei, de pronto, outra leitura qualquer, numa sequência no modo “totum pro parte”. Na página seguinte, no rodapé das ideias, encontrei mais outra sinédoque. Coincidência? Li sobre o rastilho de nitrato de potássio, enxofre e carvão que assola o País. Na fábula “João e o pé de feijão” o menino sonhador troca uma vaca – a única da família – por um punhado de feijões mágicos. A mãe de João, enfurecida, joga os feijões pela janela. Os feijões brotam num gigante pé de feijão, que sobe até o céu. João, então, escala o feijoeiro e, lá no alto, encontra um castelo, lugar habitado por um gigante cruel, que se alimenta do povo e da miséria humana. A história continua, cheia de aventuras, até o dia em que João – fugindo do gigante que o persegue – pega um machado e corta o pé de feijão. Moral da história: estou tentando compreender várias coisas ao mesmo tempo! Acordei pilhado e com flatulências na alma. “Totum pro parte”!

João Scortecci

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A HISTÓRIA DO AERO WILLYS DE MATAR DO CORAÇÃO!

Não sei o que é pior: morrer do coração ou matar alguém do coração. Morre-se! No ano de 1971, pegar um táxi na cidade de Fortaleza era o máximo: um luxo! Fazíamos tudo a pé ou de pick-up “Rural”. Naquele dia estava com a mesada no bolso e precisava chegar ao IBEU – Instituto Brasil-Estados Unidos, num piscar de olhos. Tinha exame de inglês e estava atrasado. Do portão de casa avistei um táxi branco, um Aero Willys, novinho em folha, dando sopa do farol da esquina. Não tive dúvidas: corri – e num pulo só – entrei no banco de trás do táxi. Gritei – apressado – para o condutor do “carrão”, um senhor de idade, gordo, cabelos brancos e óculos fundo de garrafa: “Toca urgente para o IBEU!”. Não satisfeito, cutuquei suas costas com o dedo indicador. O senhor, assustado, levantou os dois braços e apagou. Caiu desmaiado, em cima do volante do Aero Willys, disparando a buzina. Fiquei ali, parado, inerte, apavorado. Morreu do coração? Pensei. Um casal que passava, viu a cena, aproximou-se da janela do carro – aberta, o calor era infernal – e me perguntou: “O que aconteceu com o homem?”. “Desmaiou, acho”, respondi. Juntou gente. E até um tetél, carro de Rádio Patrulha. Tiraram o senhor do carro e o colocaram sentado, num tamborete de madeira, no portão da casa vizinha, da Família Biasoli. Estava consciente – transpirava feito um porco – e depois de alguns minutos acordou, de vez. Respirei fundo: graças a Deus! O homem me olhou nos olhos e perguntou: “Foi você?”. “Sim!”, confirmei, balançando a cabeça. “Eu não sou táxi!”, justificou-se, apontando o dedo para o teto do Aero Willys, abandonado, de portas abertas, no meio da avenida D. Manoel, esquina com Avenida Duque de Caxias. “Você entrou no carro errado!”, resmungou. Sem saber o que responder, disse-lhe: “E eu não sou assaltante!”. Catei a minha pasta do IBEU e voltei para casa. Até hoje, depois de mais de 50 anos, quando entro num táxi, pergunto: “Táxi?”. Detalhes supersticiosos: nunca mais na vida andei de Aero Willys branco e desisti de vez do curso de Inglês. Acontece.

João Scortecci

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JUDAS E A MALHAÇÃO DO HOMEM BOMBA

Papai Luiz acendia o pavio com o cigarro da boca do Judas e gritava: “Corram que o papoco vai ser grande!” Corríamos todos: até o tronco da imensa amendoeira-da-praia. Lá – no dorso mágico do chapéu-de-sol, estávamos seguros. E o Judas, o Iscariotes, voava aos pedaços: papocava! Papai Luiz e meu tio Mário Capelo eram os responsáveis pelo fogaréu. Bombas rasga-lata na cabeça, na barriga, nos braços, nas pernas e nas calças do Judas. O pavio do estopim ficava na boca, na língua escarlate do Judas. Bastava acender o cigarro Continental sem filtro e esperar queimar até o cotoco. Mamãe Nilce e tia Lenira cuidavam do Judas: enchimentos, maquiagem, roupas, chapéu e sapatos. E nós: da gritaria! A “Malhação de Judas” é uma tradição popular, trazida pelos colonizadores espanhóis e portugueses, que acontece nos sábados de Aleluia. Resume-se em surrar – com pau de vassoura e bambu – e depois atear fogo, pendurado num poste ou num pau de sebo, um boneco, que representa a figura do Judas Iscariotes, traidor de Jesus, conforme narrado nos Evangelhos do Novo Testamento. Com o tempo, além de Judas Iscariotes, a malhação passou a contemplar também políticos mentirosos, traidores, enganadores do povo. Na infância, gostávamos da farra, do fogaréu, quase sempre na “Casa da Floresta” dos meus tios Mário Capelo e Lenira, no Ceará dos anos 1960. Antes de detoná-lo aos céus, rezávamos pela sua alma pecadora, tirávamos fotos, servíamos café, tapioca e bolo de milho. Parte do ritual de morte! E ele, Judas, indiferente, aguardava, passivamente, o trágico destino. 

João Scortecci

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DOIDEIRAS DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

 Há uma singela e doce diferença entre maluquice e doideira. Meu pai Luiz dizia: “Maluquice é coisa de maluco e doideira é coisa de doido!”. Anotei. Papai era um homem sábio, prático e espirituoso. Li na matéria sobre Inteligência Artificial, do “The New York Times”, publicada na “Folha de S. Paulo”: “Já é tarde demais para deter a ameaça da inteligência artificial”. Resumo catastrófico da matéria: modelos fora de controle, grupos extremistas utilizando a ferramenta, rebeliões contra seus desenvolvedores, ameaças, crimes cibernéticos, fraudes, maluquices e muita doideira. Comentei o assunto com um amigo escritor, entendido em IA e ele comentou sobre um conto que está escrevendo e que talvez vire um livro no futuro. Spoiler do conto: um gigantesco Data Center – Centro de processamento de dados, instalação física que as organizações utilizam para armazenar seus aplicativos e dados críticos – localizado na grande São Paulo, passa, arbitrariamente, a controlar a água e a energia que abastecem a metrópole, escravizando 12 milhões de habitantes. Disse-lhe: “Que doideira! Isso é possível?”. Mostrou-me, então, uma matéria onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia sancionado o Redata – Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center –, que cria incentivos fiscais para estimular a instalação e a ampliação de Data Center no Brasil, com foco em Inteligência Artificial e computação em nuvem. Li a nota. Insisti, então: “Isso pode acontecer?”. “Claro. Não seremos destruídos – fique em paz – seremos arbitrariamente escravizados!”, sentenciou. “Impossível!”, protestei. O amigo, então, olhou-me nos olhos e balançou negativamente a cabeça, aparentemente decepcionado comigo. Provocou-me: “Você é um poeta inocente!”. Mudei de assunto: “Vai publicar o conto?”. Respondeu-me, na lata: “Sim, na antologia de 45 anos da Scortecci”. Silêncio. Meu pai Luiz tinha razão: “Maluquice é coisa de maluco e doideira coisa de doido!”. Sobre os Data Centers: “exigem volumes massivos de água e energia elétrica para operar ininterruptamente e resfriar seus supercomputadores. Os servidores funcionam 24 horas por dia, exigindo uma carga elétrica comparável à de cidades de grande porte. O avanço de ferramentas de IA intensifica o processamento e eleva drasticamente a necessidade de eletricidade nas instalações.” Aqui com os meus algoritmos poéticos: e se o amigo estiver certo? Tarde demais para deter a ameaça da inteligência artificial. E nada mais.

João Scortecci

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GOL DO GALÍCIA E A LEVEZA DO MEDO

 Medo é medo! Existem técnicas para vencer o medo. Não tente fingir que o medo não existe. Ele existe! Converse com o seu corpo e controle a respiração. O corpo precisa entender que você está em perigo e precisa dele. Ele – o corpo – é seu maior aliado para enfrentar o medo. Analise a situação e o momento. Pergunta: o perigo é real ou uma imaginação da sua mente? Embora o medo seja uma emoção natural de proteção, ele perde a força quando você o enfrenta de maneira prática e consciente. Por duas vezes estive com um revólver na cabeça e jurado de morte. Consegui manter a calma e o equilíbrio emocional. Numa delas até poderia ter reagido e dominado o assaltante, mas não o fiz. Eu estava calmo e meu agressor nervoso e drogado. Eu o acalmei. Conversamos sobre futebol – torcedor do Galícia Esporte Clube, de Salvador –, e sua cidade natal, uma pequena cidade do interior da Bahia. Levou-me dinheiro e um relógio. Hoje de madrugada (na CBN, talvez) escutei uma entrevista com o correspondente de guerra e jornalista Lourival Sant’Anna, autor do livro “Minha guerra contra o medo – O que o risco de morte ensina sobre a vida”. Lourival contou passagens de sua vida no front, onde por diversas vezes esteve ameaçado de morte. Na sinopse do livro, estão os sete passos básicos propostos por Lourival Sant’Anna para lidar com o medo e acalmar a alma. Interessante. Eu já conhecia de longa data a técnica 5-4-3-2-1, exercício de ancoragem ou atenção plena que usa os cinco sentidos para acalmar a ansiedade e trazer a mente de volta ao momento presente. Segue o exercício: “5 - coisas que você pode ver: Olhe ao redor e identifique cinco objetos no seu ambiente. Pense neles ou diga o nome deles em voz alta. 4 - coisas que você pode tocar: Conecte-se com o sentido do tato. Reconheça quatro coisas que você consegue sentir fisicamente agora. 3 - coisas que você pode ouvir: Feche os olhos por um instante e preste atenção em três sons ao seu redor. 2 - coisas que você pode cheirar: Identifique dois aromas no ambiente. 1 - coisa que você pode saborear: concentre-se em um gosto que você sente na boca no momento.”. Funciona! Levantei-me e comecei a conversar com o meu velho corpo: controlei a respiração, fiz massagem nas canelas e nos pés, fui ao banheiro, tirei um café preto e puxei uma soneca na poltrona da sala. Até sonhei: estava no Parque Santiago, estádio time do Galícia, em Salvador, assistindo a um jogo de futebol entre o time do Galícia e o Bahia. Estranho, muito estranho: nunca estive por lá. Não tente fingir que o medo não existe. Ele existe.

João Scortecci


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OS PRIMÓRDIOS DA BIENAL DO LIVRO DE SÃO PAULO

A primeira feira do livro em São Paulo, realizada pela CBL - Câmara Brasileira do Livro, data de agosto de 1951. O objetivo da entidade - além de promover o livro e fomentar o mercado editorial e gráfico brasileiro - era introduzir, no país, a tradição europeia das feiras de livros realizadas na França, na Alemanha e na Itália. Com o nome de “Feira Popular do Livro”, o evento aconteceu na Praça da República, região central da cidade de São Paulo. A experiência repetiu-se no ano de 1956, dessa vez no Viaduto do Chá, ponto ainda mais central da capital paulista e com maior fluxo de pedestres. Em 1961, em parceria com o Museu de Arte de São Paulo – que até 1968 funcionou na Rua 7 de Abril - foi promovida a primeira “Bienal Internacional do Livro e das Artes Gráficas”, evento que se repetiu em 1963 e 1965, com apoio de editoras, livrarias e gráficas. Em 1970 - de 15 a 30 de agosto - a Câmara Brasileira do Livro promoveu e realizou, de forma oficial e independente, no Pavilhão do Parque do Ibirapuera, a 1ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, marco na história da entidade e do mercado editorial brasileiro. Pesquisando sobre a participação da indústria gráfica nas bienais do livro de São Paulo, entre 1963 e 1965, o que descobri remete à informação que parte das grandes editoras brasileiras até 1970 eram também empresas gráficas.  Em 1996, a Bienal do Livro de São Paulo, passou a ser realizada nos pavilhões do Expo Center Norte, zona norte da capital paulista. O Ibirapuera havia ficado pequeno para abrigar o grande número de expositores e também o público leitor. Em 2002, a bienal deixou o espaço do Expo Center Norte e foi para o Centro de Exposições Imigrantes, onde foi realizada até 2004. A localização do Centro de Exposições Imigrantes e as dificuldades de acesso ao local foram razões para a mudança de endereço. A partir de 2006, a Bienal do Livro de São Paulo passou a ser realizada no Parque do Anhembi e lá permaneceu até 2018. Em 2020, data do seu cinquentenário, por causa da pandemia da Covid-19, não pôde ser realizada. A Câmara Brasileira do Livro, promotora do evento realizou, então, provisoriamente, a 1ª Bienal Internacional Virtual do Livro de São Paulo. Em 2022, a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, voltou a ser presencial e mais uma vez, no Expo Center Norte e contou com público recorde, sendo considerada, até então, pelo público e profissionais do livro, como uma das melhores bienais de todos os tempos. Em 2024 o evento retornou ao complexo do Anhembi (Distrito Anhembi, bairro de Santana, Zona Norte), espaço remodelado e climatizado. Participo das bienais do livro de São Paulo desde quando o evento ainda era realizado no Pavilhão do Parque do Ibirapuera. De lá pra cá foram 16 bienais. A Bienal Internacional do Livro de São Paulo é o maior evento literário e cultural da América Latina e faz parte do calendário oficial da cidade.

João Scortecci

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JUSCELINO KUBITSCHEK: DIFÍCIL DESCER E MAIS AINDA SUBIR!

Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902 – 1976) nasceu em Diamantina, Minas Gerais. Até aos 19 anos morou em uma ladeira: difícil descer e mais ainda subir! Dizem que sua paixão por ruas e cidades planas vem desta época. Isso explica Brasília? Talvez. Anotei a “prosa” para perguntar ao amigo Roniwalter Jatobá (biógrafo de JK) sobre o assunto. Meu pai Luiz Gonzaga, engenheiro civil e elétrico, foi amigo de JK e andaram conversando sobre o projeto de construir uma estrada de ferro. É o que sei. Minha curiosidade de menino ficou no destino dos trilhos: “café com pão, café com pão, café com pão, Virgem Maria, o que foi isto maquinista?” (Manuel Bandeira). Eu queria era brincar de “trenzinho”. Para quem não sabe, sou apaixonado por locomotivas, vagões, trilhos e estações de trem. Devo ter sido em outra “encadernação” maquinista, agente de estação, bilheteiro ou sinalizador, algo assim. Voltando ao JK e ao início dos anos 1980, frequentei a casa do poeta Menotti Del Picchia, na Avenida Brasil. O Príncipe dos Poetas havia trabalhado com meu avô materno José Scortecci, na Revista PAN. Isso no final dos anos 1930, antes da Segunda Guerra Mundial. Foi de Menotti que escutei as melhores histórias sobre os modernistas de 22, em especial sobre o antropofágico Oswald de Andrade. Só eu sei o que escutei! Nossos encontros aconteciam na sala principal da casa de Menotti sob os olhares de JK, devidamente enquadrado junto à porta da entrada. Menotti – isso não é segredo – era fã do mineiro e sempre que nos despedíamos ele resfolegava apontando para sua foto: “Um grande homem! Esse foi um presidente de verdade!”. Nunca conversamos sobre o acidente de carro – possivelmente criminoso – que vitimou JK, no dia 22 de agosto de 1976. Quando jovem achava essas desconfianças tudo “fantasia” e “invenção” de maluco. Mudei. Hoje acredito em Saci Pererê, olho gordo, conspiração, bruxaria e até em Papai Noel. Sou feliz assim! Dizem – deve ser verdade – que “maluquice” vem com a idade e o melhor da inocência revisitada. No ano de 1976 estava no serviço militar obrigatório, de plantão no II Exército, no Parque do Ibirapuera. Lembro da notícia e do silêncio que foi perdê-lo na história. Reencontrei Juscelino Kubitschek, muito tempo depois, nas páginas do Semanário PAN, do editor e gráfico José Scortecci, meu avô materno. Difícil descer e mais ainda subir: café com pão, café com pão, café com pão, Virgem Maria, o que foi isto maquinista? Precipícios, talvez.

João Scortecci

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TUDO NOS INTERESSA, MESMO SENDO APENAS IMPRESSÃO!

Lendo uma nota sobre a “crise” no varejo que assola o País, encontrei uma palavra que me motivou a escrever este editorial. Evito previsões – não tenho bola de cristal – e tento a todo custo fugir da obrigação institucional de pretender passar para o setor gráfico um otimismo ingênuo e a ideia de que as coisas vão melhorar. Ilusão. 2027 será um ano difícil e complicado. Vamos, então, à palavra da vez: “assimétrica”!

Eis a nota: “A crise do varejo tradicional atinge a indústria gráfica brasileira de forma assimétrica, dividindo o setor entre o colapso dos materiais promocionais físicos e a forte resiliência da área de embalagens impulsionada pelo e-commerce”. E mais: “Como fornecedora transversal, a atividade gráfica reflete diretamente as mudanças operacionais das grandes redes"!

No final dos anos 1970, no meu único emprego antes de me tornar, em 1982, empresário editorial e gráfico, aprendi com meu patrão Hiroshi Kitani, já falecido, sobre como avaliar o mercado, se as coisas estão indo bem ou não. Repetia, sempre: “Observe de perto – mensalmente, se possível – a venda de caixas de papelão!”. Na época – confesso – não entendia muito bem onde estava o segredo. Ele, economista e gestor brilhante, obrigava-me literalmente a ligar para fornecedores de caixa de papelão e sondar o mercado. Dizia, com propriedade: “O vendedor sempre entrega!”. A explicação lógica da coisa: estão vendendo caixas de papelão? Sim. Então o varejo vai bem, obrigado.

A crise do varejo brasileiro vive um momento de forte aceleração, com mais de R$ 68 bilhões em dívidas de grandes marcas, reestruturadas por meio de recuperações judiciais ou extrajudiciais. Esse cenário restritivo gera um efeito dominó imediato sobre a indústria nacional, que enfrenta o encolhimento de pedidos, o congelamento de créditos e o aumento do risco de calotes na cadeia de suprimentos. As causas são muitas: mudanças drásticas nos hábitos de consumo, juros restritivos, taxa Selic em torno de 14% ao ano, endividamento das famílias com “apostas online”, drenando mais de R$ 62,5 bilhões do orçamento familiar, a possível aprovação do fim da escala 6 x 1, a insegurança jurídica e, mais do que tudo, as incertezas sobre impostos e tributações com a implantação da reforma tributária.

Recentemente, recebemos na sede da Abigraf-SP o político, advogado, mestre e doutor em filosofia e ex-presidente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Jorge Perez, de família de gráficos, que, num papo informal, contou-nos uma máxima do seu avô gráfico, Durval Pereira de Andrade: “Dizem que nós, gráficos, fazemos milagres, mas é só impressão!”. Anotei.

Sobre a frase-título deste editorial “Tudo nos interessa!”, continua sendo uma singular verdade “assimétrica”. Tudo nos afeta, mesmo sendo somente impressão.

João Scortecci

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CERVEJARIA ASTRA E O BANHO DE PISCINA COM ÁGUA FERMENTADA DO PAPICU

Eu ainda era menino de tudo quando o Papai Luiz (Luiz Gonzaga do Carmo Paula, 1923 - 2007), engenheiro civil e elétrico, chegou em casa e nos avisou: “Vamos construir aqui em Fortaleza uma cervejaria!” Algo grandioso – explicou. Pai Luiz, até então, no seu currículo: Dieselização da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro -, moinhos de trigo - Moinho de Trigo Fortaleza e Outros -, Frigorífico Industrial de Fortaleza, Jornal O Povo, Ginásios Júlia Jorge e Paulo Sarasate, Unifor - Universidade de Fortaleza, Petrolusa - Indústria Petroquímica, Camisas Saronord e as usinas do Macuripe e Auxiliar Diesel-Elétrica de Fortaleza, construir uma Cervejaria era um imenso desafio profissional. Papai trabalhava para o Grupo J. Macedo S.A., do empresário Macêdo (José Dias de Macêdo, 1919 - 2018), dono de um dos maiores grupos empresárias do Nordeste brasileiro, então, dono do empreendimento Astra. A pedra fundamental da Cervejaria Astra, foi lançada em 1965, no endereço da Rua Lauro Nogueira, 1355, bairro Papicu, em Fortaleza, CE. Em 1970, depois de 5 anos, a fábrica, finalmente, foi inaugurada. Teve festa no clube Náutico Atlético Cearense e banho de piscina, cheia até a boca, com cerveja Astra. Lembro-me que papai Luiz passou mal, teve alergia no corpo todo e quase não conseguiu ir à festa de inauguração. A marca Astra, ficou conhecida pelo slogan: “Astra, cerveja do Ceará” e em pouco tempo caiu no agrado do público. Ganhou até letra e música do compositor cearense Francisco José Abreu e, da noite para o dia, virou sucesso de vendas. Papai Luiz dizia, na época: “O segredo de uma boa cerveja é a água!” Anotei. O que aprendi desde então: beber cerveja! A Astra começou a ser fabricada - para testes - alguns meses antes do seu lançamento oficial. Éramos provadores diários da cerveja, e, semanalmente, recebíamos da fábrica, em casa, caixas e mais caixas, de Astra. Bebíamos tudo! No ano seguinte, em 1971, o controle acionário da empresa foi comprado pelo grupo Miranda Corrêa, que passou a controlar as cervejarias: Astra, em Fortaleza e Miranda Corrêa, em Manaus. Em 1999, a empresa foi vendida para o grupo Ambev - fusão das empresas Antarctica e Brahma -, e ganhou rótulo da Brahma, quando, então, teve toda a sua produção transferida para uma nova fábrica da Ambev, em Aquiraz, CE. Em 16 de maio de 2010, a antiga fábrica da cervejaria Astra, foi ao chão. Para implodir o prédio, foram necessários 250 kg de dinamite. A população - eufórica - pôde assistir a implosão, de longe, cujo impacto pôde ser sentido bem longe dali. Depois da implosão o que ficou de pé foi, apenas, a torre da caixa d’água. “Deve ter sido sacanagem do Gonzaga” palavras do meu tio Mário Capelo, ao telefone, contando-me, aos berros, de como havia sido a implosão. O terreno foi vendido para o empresário Paes Mendonça (João Carlos Paes Mendonça), controlador de um conglomerado de empresas, a JCPM, entre as quais a TV, a Rádio e o Jornal do Comércio do Recife, além de 11 shoppings, supermercados e hipermercados Bompreço, espalhados por grandes cidades do Nordeste brasileiro. No local, foi construído o Shopping Riomar Fortaleza, inaugurado em 29 de outubro de 2014. o Shopping Riomar é o maior shopping do Ceará, com 93.000 m² e o 8º maior do Brasil. Papai Luiz Gonzaga tinha toque. Não vivia sem água. Lavava as mãos de hora em hora, principalmente depois de cumprimentar alguém. Construiu ao longo da vida açudes, poços artesianos, cisternas e caixas d’água. Todas obras reforçadas e a prova de vazamentos e rachaduras. Isso, talvez, explique, na implosão da cervejaria Astra, apenas, a torre da caixa d’água, ter ficado em pé, depois de 250 kg de dinamite. Segundo meu tio Mário Capelo, melhor amigo do meu pai Luiz;: “Sacanagem do Gonzaga!”. Não duvido!

João Scortecci

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POESIA DE PONTOS, TRAÇOS E ESPAÇOS DE CÓDIGO MORSE

 O médico legista, professor, escritor, antropólogo, etnólogo e acadêmico Roquette-Pinto (Edgard Roquette-Pinto, 1884 – 1954), é o pai da radiodifusão no Brasil. No ano de 1922, criou a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro com o objetivo de difundir a educação por esse meio, num Brasil onde 60% da população, na época cerca de 30 milhões de pessoas, não sabia ler. Roquette-Pinto, numa negociação com empresários americanos da Westinghouse, recebeu de presente os equipamentos básicos de transmissão, para criar a primeira emissora de rádio do Brasil. A invenção do rádio é atribuída – com ressalvas – ao físico italiano Marconi (Guglielmo Marconi, 1874 – 1937). O rádio é a união de três tecnologias: a telegrafia, o telefone sem fio e as ondas de transmissão. A primeira transmissão documentada de rádio foi para o jornal de Dublin, Irlanda, e sobre um evento esportivo que ocorreu durante a regata de Kingstown, capital de São Vicente e Granadinas, no Caribe. A invenção, porém, ainda não tinha o formato que conhecemos hoje, porque transmitia somente sinais. A transmissão de voz só ocorreu em 1922. Lendo sobre as tecnologias que fundamentaram a invenção do rádio, deparei-me com a da telegrafia, invenção do físico Samuel Morse (Samuel Finley Breese Morse, 1791 – 1872). A tecnologia consiste num sistema de telecomunicações que possibilita a transmissão e reprodução à distância do conteúdo de documentos, escritos, impressos, imagens fixas ou qualquer outra informação, por meio de impulsos ou sinais elétricos. Essa tecnologia revolucionou a comunicação no século XIX. Samuel Morse foi também o inventor do Código Morse, sistema de representação de letras, algarismos e sinais de pontuação através de um sinal codificado enviado de modo intermitente. Quando menino, isso no Ceará dos anos 1960, meu pai Luiz me ensinou a mexer na engenhoca. Nunca mais esqueci: lê-se o código Morse combinando pontos (sinais curtos) e traços (sinais longos) que representam letras, números e sinais. Cada letra tem uma sequência única. O tempo de um traço dura três vezes o tempo de um ponto. Pausas curtas separam letras, e pausas longas separam palavras. A poesia é morse: palavras pontuadas, frases curtas e longas, enigmáticas, pausadas de silêncios e dores, com espaços teimosos, renitentes, vazios e incertos, inesperados e imortais! Embalei, então, o meu nome: S (...), C (-.-.), O (---), R (.-.), T (-), E (.), C (-.-.), C (-.-.), I (..). Escrito, mais ou menos assim: "Silêncio do corpo, Ontem e hoje: segredos infinitos, Risos na flor, Tesão da alma selvagem, e escuridão: perpétua! Cada dia um cravo, cada noite uma mensagem de fim: inteiras, fracionadas, pontuais, incertas, na imensidão do tempo celeste. Noite de pontos, traços e espaços: manhã de poesia!".

João Scortecci

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GAZZETTA: MOEDA VENEZIANA

 Num documento português de 19 de agosto de 1642 sobre a proibição de impressão da “Gazeta da Restauração”, li: “Por força de lei, fica proibida sua impressão e de todas as gazetas com notícias do reino ou de fora”. “Gazeta” ou “gazzetta” – no dialeto veneziano, “gaxeta” – é o nome de uma moeda de prata da Sereníssima República de Veneza, do século XVI, no valor de dois centavos. Na frente da moeda, a figura do juiz sentado e, no verso da moeda, a figura do Leão de São Marcos, símbolo da cidade de Veneza, representando força, coragem e a voz de Cristo no deserto. A moeda foi emitida de 1539 até 1559, durante o governo do Doge Pietro Lando (1462 – 1545). Em 1563, foi publicada a primeira “folha de avisos”, uma folha de notícias vendida ao público pelo preço de dois centavos. A partir de então, tornou-se um epíteto – palavra ou expressão que se associa a um nome ou pronome para qualificá-lo – para jornal, tipo específico de publicação periódica, quando os primeiros jornais venezianos custavam uma gaxeta. O primeiro jornal em português, “A Gazeta da Restauração” (formato 14 x 20 cm, 12 páginas) foi fundado em 1641, pelo alvará régio concedido ao poeta, impressor e livreiro Manuel de Galhegos (1597 – 1665), um ano depois de Portugal recuperar sua independência da Espanha, em 1º de dezembro de 1640. O Jornal serviu de instrumento de propaganda de D. João IV (1604 – 1656), apelidado de “O Restaurador”, para consolidar o poder e combater os “feitos” dos espanhóis, durante longos 60 anos enraizados no espírito do povo português, principalmente entre a nobreza. Entre 1580 e 1640, a linha fronteiriça que separa a Espanha de Portugal deixou de existir, e os dois países formaram um só reino, chamado de União Ibérica. A primeira edição de “A Gazeta da Restauração” teve a marca tipográfica da Oficina de Lourenço de Anveres, sediada em Lisboa. As oito publicações seguintes foram impressas na tipografia do jornalista Domingos Lopes Rosa, com a redação de João Franco Barreto e depois do frei Francisco Brandão. “A Gazeta da Restauração” ganhou, ainda, uma nona edição, a última, em julho de 1642. Em 19 de agosto de 1642, por força de uma lei, foi proibida sua impressão e de todas as gazetas com notícias do reino ou de fora, com a seguinte argumentação: “Em razão da pouca verdade de muitas e do mau estilo de todas elas”. O nome "Gazeta" ficou no tempo e, até hoje, refere-se a um tipo de jornal.

João Scortecci



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BIENAL DO LIVRO: COBRA GIGANTE, PEDAÇOS DE MELÃO E LIVROS!

Da edição de 1994 da Bienal Internacional do Livro de São Paulo de 1994, realizada no Parque do Ibirapuera, Pavilhão Ciccillo Matarazzo, participei uma única vez, a última, antes de o evento mudar de local. Esse evento realizado a cada dois anos, nos anos pares, acontece desde 1970, nos espaços do Ibirapuera, do Anhembi, Expo Center Norte, São Paulo Expo e agora, depois de 56 anos, novamente no Anhembi, reformado e ampliado. Em 1994, decidi participar pela primeira vez, de uma bienal do livro. Na época, a Scortecci Editora tinha 16 anos de idade, e a oportunidade era, sem pensar muito, um ato de loucura. Comprei o espaço no último dia possível. Olhei a planta do evento – um labirinto – ou melhor, um caracol, obra do arquiteto Niemeyer, no coração do Parque do Ibirapuera, com 40 mil m² de área e 250 m de extensão. “Uma cobra gigante?”, comentei. “Isso mesmo: o público entra pela boca da cobra e sai pelo rabo”. Foi o que me disseram, na época. “Um curral!”, pensei. Nas entranhas da planta, bem no meio do corpo da cobra gigante, bem embaixo da rampa de acesso ao piso superior, localizei um espaço ainda livre, de 20 m². “Quero este!”, apontei com o dedo. Na verdade, era o último espaço disponível. Fiz o cheque. Fui embora feliz, radiante, mordendo as orelhas de alegria. “Eu estou na Bienal do Livro de São Paulo!”, gritei. Era uma sexta-feira, final de tarde. No sábado, acordei matutando e pensando na loucura que havia feito. Dei o passo maior que as pernas! E o pior: comecei a desconfiar do espaço escolhido. No domingo, tive um pesadelo terrível: uma cobra gigante estava me devorando, vivo, pelos pés! A ficha, então, caiu: um espaço maravilhoso, no meio da cobra, dando sopa? Algo estranho. Certeza: caí numa roubada. Juro: pensei em cancelar a compra e depois me afogar no laguinho do Parque do Ibirapuera. Manchete: “Jovem Editor se afoga no laguinho do Parque do Ibirapuera!”. Algo assim. Guardei a cisma e fui, então, à luta. De lá para cá, a Scortecci já participou de 16 edições da Bienal Internacional do Livro de São Paulo e, ainda, tivemos participação no 1º Salão do Livro de São Paulo, em 1999, e outra, durante a pandemia da Covid-19, da 1ª Bienal Internacional Virtual do Livro, em 2020. Em 1994, no final do primeiro dia do evento, um sábado, tudo havia transcorrido maravilhosamente bem. Deixei o espaço feliz, radiante, pisando nos cascos, pronto para a maratona de dez dias de Bienal. No segundo dia, um domingo, fui um dos primeiros a chegar ao Pavilhão do Ibirapuera. Passei pela cabeça da cobra – local onde estavam as grandes editoras – e mirei o meu destino: chegar até o vão livre, embaixo da marquise da rampa de acesso ao piso superior, onde estaria, então, o estande da Scortecci. Estava lá. Contemplei, de longe, os livros perfilados nas estantes de madeira, num total, aproximadamente, de 300 títulos. Parei na entrada do estande e gritei: “Não! Não!”. Alguém da segurança me aguardava, sentado numa bancada. “O que aconteceu aqui?”, perguntei. O segurança apontou para o mezanino e disse, calmamente: “Sabia que lá em cima funciona um restaurante self-service?”. “E eu com isso?”, protestei. Cenário: os livros da Scortecci estavam sujos – emporcalhados – com restos de comida. Alguém “varreu” e jogou a sujeira rampa abaixo, explicou-me o segurança. Na estante principal, central do estande, onde havia arrumado os lançamentos do ano, um troféu inesquecível: pedaços de melão. Fui reclamar e o que eu escutei de um diretor da CBL, até hoje, dói nas tripas: “A noite você precisa cobrir as estantes de livros com um plástico!” Deveria? Isso, talvez, explique a fama que tenho, até hoje, depois de 32 anos de bienais, de reclamar, sempre, sistematicamente, de alguma coisa errada. Virou folclore! Respondo sempre, com o coração de editor e poeta: “Não gosto de melão e tenho medo de cobra!”.

João Scortecci

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SABEDORIA CAIPIRA: QUE A VIDA NOS AJUDE COM A PROSA

 O escritor, farmacêutico, político e professor, Euclydes Camargo Madeira (1907 – 2000), era um contador de “causos”. Conheci-o no início dos anos 1980, quando publiquei três de seus livros: “Tietê – Terra dos apelidos, sua história, sua gente e suas coisas”, “O Professor de Urussunga” e “Na Terra de Cornélio Pires – Sua história, sua gente, seus imigrantes, seus causos e seus apelidos”. Até então desconhecia o espírito – e seus encantos – da sabedoria caipira, que hoje me fascina. Adoro um papo caipira! Euclydes Madeira morava na cidade de Tietê, interior de São Paulo, e tinha o hábito de madrugar na porta da editora. Começava a falar – contar seus “causos” – e não parava mais. Depois de “matracar” por horas, pedia, gentilmente, desculpas. “Falei muito!”, justificava. No início incomodava e atrapalhava muito minha agenda. Depois, com o tempo, desisti de agendá-lo. Criamos laços e não mais abria mão de atendê-lo. Quem o conheceu sabe do que falo: um caipira bom contador de “causos” e mestre na arte da sabedoria popular. Hoje, depois de muitos anos, lembrei-me do Madeira e de Tietê, quando lia na Internet sobre “Soluções práticas para problemas pequenos”, aqueles do dia a dia, simples, que chegam e vão embora, do nada. Na leitura – logo no início do manual – cinco questionamentos provocativos: “O problema existe? Tem solução? O que precisa ser feito? Vale à pena? Quanto vai custar?”. Anotei. Ainda lendo o manual: “os marqueteiros são especialistas em usar expressões novas para embalar ideias velhas e teorias antigas”. Anotei, também. Quando já estava no finalzinho do manual – livrinho de 32 páginas – dei de cara com uma nota de rodapé: “Não adianta contar as galinhas que restam do galinheiro enquanto a raposa ainda estiver com fome!”. Foi quando o caipira Euclydes Madeira me sussurrou ao pé do ouvido: “Que a vida nos ajude com a prosa!”. Perguntei-lhe, então: “O que precisa ser feito para salvar as galinhas?”. Madeira riu, colocou o chapéu na cabeça, olhou as horas e se despediu: “Falei muito!”. Já na porta de saída da editora, virou-se e respondeu, sabiamente: “Alimente também a raposa!”. Euclydes Madeira faleceu na virada do século, com 93 anos de idade. Embalei, então, a ideia.

João Scortecci



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EDVALDO E O CACHIMBO ITALIANO SAVINELLI

 Já fumei cachimbo, isso nos anos 1980. O que aprendi na época: quem fuma vira, queira ou não, um colecionador de cachimbos. Cheguei a ter perto de 30 cachimbos, alguns importados, comprados a peso de ouro. Eu, sempre, exagerado. Guardava-os na editora, num sobrado alugado que ficava na Rua Teodoro Sampaio, na cidade de São Paulo, em frente à Galeria Pinheiros, sede da Scortecci Editora até 1992. O sobrado foi invadido num fim de semana e minha coleção se escafedeu. Junto com a coleção levaram, também, minha coleção de canetas. Uma tragédia! Duas de ouro, uma delas com mais de 80 anos, que pertenceu ao meu avô José Scortecci. No ano de 1984, ainda na época da Galeria Pinheiros, contratei como ajudante geral um jovem de nome Edvaldo, engraxate, que trabalhava na barbearia em frente, loja 8, de propriedade de Adelson Gravena e seus irmãos Orestes e Nelson, referências no bairro de Pinheiros. Edvaldo sonhava um dia se tornar barbeiro. Ajudei-o a pagar um curso noturno sobre a arte de cortar cabelos e, na sua formatura, presenteei-o com um kit profissional de barbearia. Ele chorou de alegria! Edvaldo era engraçado, imitava as pessoas, trejeitos e voz. Um artista! Entrei na editora – tinha avisado que não voltaria mais naquele dia – e o encontrei na minha sala, sentado na minha poltrona, fumando o meu cachimbo preferido, um Savinelli, italiano. Na editora, uma pequena sala de 30 metros quadrados, estavam Edvaldo e minha secretária. Ela me viu, mas ele não. Puxei uma cadeira de canto e fiquei ali, do lado, assistindo o seu desempenho. Edivaldo fumava – jogava a fumaça no ar – e imitava a minha voz. Os cachimbos nasceram nas Américas no período pré-colombiano. Povos indígenas usavam o instrumento com tabaco em rituais sagrados para ligar a Terra ao Céu, rezar e selar a paz. Os europeus levaram o hábito para o Velho Mundo no século XVI, e a palavra veio de termos africanos passados ao português. Nos anos 1990 publiquei o livro “Tabacos e Cachimbos: de Cristóvão Colombo até Hoje”, do Alfredo Antonio Maia, um especialista no assunto. Edvaldo, quando me viu, engasgou-se. Colocou o cachimbo no cinzeiro da mesa, mas permaneceu imóvel, sentado na minha poltrona. Eu, abduzido, olhava-o, em silêncio, sem saber o que dizer. Minha secretária entrou na sala e me ofereceu um café. Aceitei. Edvaldo, então, ameaçou se levantar. Fiz sinal para que continuasse sentado. Disse-lhe, com cara de bravo: “Pega o cachimbo e repete o desempenho!”. Ele, desinibido e cheio de graça, repetiu a cena. Não satisfeito, retirou o telefone do gancho e fingiu conversar com um autor sobre edição de livro. Perfeição! Confesso: era eu e mais ninguém! Edvaldo trabalhou na editora ainda mais alguns meses. Depois pediu as contas e partiu: feliz da vida! Foi trabalhar de barbeiro num salão de beleza no centro da cidade. Nunca mais soube dele. Uma pena!

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PELÉ, GOLIAS E A FAMÍLIA TRAPO

 No ano de 1969, visitando meus tios maternos na cidade de São Carlos, no interior de São Paulo, assisti na TV, em preto e branco, ao programa humorístico, “Família Trapo”. Tratava-se de uma reprise de uma gravação do ano de 1967, em que o comediante Bronco (José Ronald Golias, 1929 – 2005) tentava ensinar ao Rei Pelé (Edson Arantes do Nascimento, 1940 – 2022), como bater um pênalti. Cena hilária! Inesquecível. No gol – travestido de goleiro – o incrível Jô Soares (José Eugênio Soares, 1938 – 2022). No intervalo, meu tio Alfredo Petrilli, cunhado da minha mãe, Nilce, todo cheio de si, declarou: “Vocês sabiam que o Golias é carlopolitano?”. Não sabia. Anotei. Família Trapo – exibido pela TV Record – é um marco na história da TV brasileira. Ronald Golias era o incrível e inesquecível Carlos Bronco Dinossauro. Faziam parte da trama: Jô Soares, Ricardo Corte-Real, Cidinha Campos, Renata Fronzi, Otelo Zeloni e mais um convidado especial, por episódio. Conheci o “Bronco” na cidade de São Paulo – isso nos anos 1980 –dentro da agência 0444 do Banco Itaú, na Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, nos primórdios da editora. Tínhamos a mesma gerente de conta e, vez por outra, ocupávamos a mesma salinha do café e do cofre, no mezanino. Lá – cheios de segredos e chaves – batíamos longos papos. Um doido de pedra e um poeta, juntos, trancados num cofre de banco! “Bom dia, Golias!” “Bom dia, Poeta!”. Um dia, arrisquei lhe perguntar algo pessoal. “Golias, quem passa as suas roupas?”. Nem preciso dizer aqui que o carlopolitano andava – sempre – todo amarrotado! Golias me olhou sério, da cabeça aos pés. “Ninguém!”, respondeu. Mudamos de assunto. Golias cheirava azedo e andava irresistivelmente “esculachado”. Desconfio que nem banho tomava. Uma figura! Prometeu um dia visitar a editora, na Galeria Pinheiros, mas nunca apareceu. No início dos anos 2000, sumiu de vez. Em abril de 2004, soube que havia feito uma cirurgia para implante de um marcapasso. Em maio do mesmo ano, foi internado por causa de um coágulo no cérebro. Carlos Bronco Dinossauro – o carlopolitano – faleceu no dia 27 de setembro de 2005, aos 76 anos de idade. Tive o privilégio de ver Pelé jogar uma única vez, num jogo no Estádio do Pacaembu, no dia 4 de novembro de 1973, entre o time do Santos e o da Portuguesa. O Rei Pelé marcou dois gols, na vitória santista por 3 a 2. Daquele memorável jogo de futebol ficou uma lição: o jogo só termina quando o árbitro apita o final!

João Scortecci



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