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OS PRIMÓRDIOS DA BIENAL DO LIVRO DE SÃO PAULO

A primeira feira do livro em São Paulo, realizada pela CBL - Câmara Brasileira do Livro, data de agosto de 1951. O objetivo da entidade - além de promover o livro e fomentar o mercado editorial e gráfico brasileiro - era introduzir, no país, a tradição europeia das feiras de livros realizadas na França, na Alemanha e na Itália. Com o nome de “Feira Popular do Livro”, o evento aconteceu na Praça da República, região central da cidade de São Paulo. A experiência repetiu-se no ano de 1956, dessa vez no Viaduto do Chá, ponto ainda mais central da capital paulista e com maior fluxo de pedestres. Em 1961, em parceria com o Museu de Arte de São Paulo – que até 1968 funcionou na Rua 7 de Abril - foi promovida a primeira “Bienal Internacional do Livro e das Artes Gráficas”, evento que se repetiu em 1963 e 1965, com apoio de editoras, livrarias e gráficas. Em 1970 - de 15 a 30 de agosto - a Câmara Brasileira do Livro promoveu e realizou, de forma oficial e independente, no Pavilhão do Parque do Ibirapuera, a 1ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, marco na história da entidade e do mercado editorial brasileiro. Pesquisando sobre a participação da indústria gráfica nas bienais do livro de São Paulo, entre 1963 e 1965, o que descobri remete à informação que parte das grandes editoras brasileiras até 1970 eram também empresas gráficas.  Em 1996, a Bienal do Livro de São Paulo, passou a ser realizada nos pavilhões do Expo Center Norte, zona norte da capital paulista. O Ibirapuera havia ficado pequeno para abrigar o grande número de expositores e também o público leitor. Em 2002, a bienal deixou o espaço do Expo Center Norte e foi para o Centro de Exposições Imigrantes, onde foi realizada até 2004. A localização do Centro de Exposições Imigrantes e as dificuldades de acesso ao local foram razões para a mudança de endereço. A partir de 2006, a Bienal do Livro de São Paulo passou a ser realizada no Parque do Anhembi e lá permaneceu até 2018. Em 2020, data do seu cinquentenário, por causa da pandemia da Covid-19, não pôde ser realizada. A Câmara Brasileira do Livro, promotora do evento realizou, então, provisoriamente, a 1ª Bienal Internacional Virtual do Livro de São Paulo. Em 2022, a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, voltou a ser presencial e mais uma vez, no Expo Center Norte e contou com público recorde, sendo considerada, até então, pelo público e profissionais do livro, como uma das melhores bienais de todos os tempos. Em 2024 o evento retornou ao complexo do Anhembi (Distrito Anhembi, bairro de Santana, Zona Norte), espaço remodelado e climatizado. Participo das bienais do livro de São Paulo desde quando o evento ainda era realizado no Pavilhão do Parque do Ibirapuera. De lá pra cá foram 16 bienais. A Bienal Internacional do Livro de São Paulo é o maior evento literário e cultural da América Latina e faz parte do calendário oficial da cidade.

João Scortecci

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JUSCELINO KUBITSCHEK: DIFÍCIL DESCER E MAIS AINDA SUBIR!

Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902 – 1976) nasceu em Diamantina, Minas Gerais. Até aos 19 anos morou em uma ladeira: difícil descer e mais ainda subir! Dizem que sua paixão por ruas e cidades planas vem desta época. Isso explica Brasília? Talvez. Anotei a “prosa” para perguntar ao amigo Roniwalter Jatobá (biógrafo de JK) sobre o assunto. Meu pai Luiz Gonzaga, engenheiro civil e elétrico, foi amigo de JK e andaram conversando sobre o projeto de construir uma estrada de ferro. É o que sei. Minha curiosidade de menino ficou no destino dos trilhos: “café com pão, café com pão, café com pão, Virgem Maria, o que foi isto maquinista?” (Manuel Bandeira). Eu queria era brincar de “trenzinho”. Para quem não sabe, sou apaixonado por locomotivas, vagões, trilhos e estações de trem. Devo ter sido em outra “encadernação” maquinista, agente de estação, bilheteiro ou sinalizador, algo assim. Voltando ao JK e ao início dos anos 1980, frequentei a casa do poeta Menotti Del Picchia, na Avenida Brasil. O Príncipe dos Poetas havia trabalhado com meu avô materno José Scortecci, na Revista PAN. Isso no final dos anos 1930, antes da Segunda Guerra Mundial. Foi de Menotti que escutei as melhores histórias sobre os modernistas de 22, em especial sobre o antropofágico Oswald de Andrade. Só eu sei o que escutei! Nossos encontros aconteciam na sala principal da casa de Menotti sob os olhares de JK, devidamente enquadrado junto à porta da entrada. Menotti – isso não é segredo – era fã do mineiro e sempre que nos despedíamos ele resfolegava apontando para sua foto: “Um grande homem! Esse foi um presidente de verdade!”. Nunca conversamos sobre o acidente de carro – possivelmente criminoso – que vitimou JK, no dia 22 de agosto de 1976. Quando jovem achava essas desconfianças tudo “fantasia” e “invenção” de maluco. Mudei. Hoje acredito em Saci Pererê, olho gordo, conspiração, bruxaria e até em Papai Noel. Sou feliz assim! Dizem – deve ser verdade – que “maluquice” vem com a idade e o melhor da inocência revisitada. No ano de 1976 estava no serviço militar obrigatório, de plantão no II Exército, no Parque do Ibirapuera. Lembro da notícia e do silêncio que foi perdê-lo na história. Reencontrei Juscelino Kubitschek, muito tempo depois, nas páginas do Semanário PAN, do editor e gráfico José Scortecci, meu avô materno. Difícil descer e mais ainda subir: café com pão, café com pão, café com pão, Virgem Maria, o que foi isto maquinista? Precipícios, talvez.

João Scortecci

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TUDO NOS INTERESSA, MESMO SENDO APENAS IMPRESSÃO!

Lendo uma nota sobre a “crise” no varejo que assola o País, encontrei uma palavra que me motivou a escrever este editorial. Evito previsões – não tenho bola de cristal – e tento a todo custo fugir da obrigação institucional de pretender passar para o setor gráfico um otimismo ingênuo e a ideia de que as coisas vão melhorar. Ilusão. 2027 será um ano difícil e complicado. Vamos, então, à palavra da vez: “assimétrica”!

Eis a nota: “A crise do varejo tradicional atinge a indústria gráfica brasileira de forma assimétrica, dividindo o setor entre o colapso dos materiais promocionais físicos e a forte resiliência da área de embalagens impulsionada pelo e-commerce”. E mais: “Como fornecedora transversal, a atividade gráfica reflete diretamente as mudanças operacionais das grandes redes"!

No final dos anos 1970, no meu único emprego antes de me tornar, em 1982, empresário editorial e gráfico, aprendi com meu patrão Hiroshi Kitani, já falecido, sobre como avaliar o mercado, se as coisas estão indo bem ou não. Repetia, sempre: “Observe de perto – mensalmente, se possível – a venda de caixas de papelão!”. Na época – confesso – não entendia muito bem onde estava o segredo. Ele, economista e gestor brilhante, obrigava-me literalmente a ligar para fornecedores de caixa de papelão e sondar o mercado. Dizia, com propriedade: “O vendedor sempre entrega!”. A explicação lógica da coisa: estão vendendo caixas de papelão? Sim. Então o varejo vai bem, obrigado.

A crise do varejo brasileiro vive um momento de forte aceleração, com mais de R$ 68 bilhões em dívidas de grandes marcas, reestruturadas por meio de recuperações judiciais ou extrajudiciais. Esse cenário restritivo gera um efeito dominó imediato sobre a indústria nacional, que enfrenta o encolhimento de pedidos, o congelamento de créditos e o aumento do risco de calotes na cadeia de suprimentos. As causas são muitas: mudanças drásticas nos hábitos de consumo, juros restritivos, taxa Selic em torno de 14% ao ano, endividamento das famílias com “apostas online”, drenando mais de R$ 62,5 bilhões do orçamento familiar, a possível aprovação do fim da escala 6 x 1, a insegurança jurídica e, mais do que tudo, as incertezas sobre impostos e tributações com a implantação da reforma tributária.

Recentemente, recebemos na sede da Abigraf-SP o político, advogado, mestre e doutor em filosofia e ex-presidente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Jorge Perez, de família de gráficos, que, num papo informal, contou-nos uma máxima do seu avô gráfico, Durval Pereira de Andrade: “Dizem que nós, gráficos, fazemos milagres, mas é só impressão!”. Anotei.

Sobre a frase-título deste editorial “Tudo nos interessa!”, continua sendo uma singular verdade “assimétrica”. Tudo nos afeta, mesmo sendo somente impressão.

João Scortecci

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CERVEJARIA ASTRA E O BANHO DE PISCINA COM ÁGUA FERMENTADA DO PAPICU

Eu ainda era menino de tudo quando o Papai Luiz (Luiz Gonzaga do Carmo Paula, 1923 - 2007), engenheiro civil e elétrico, chegou em casa e nos avisou: “Vamos construir aqui em Fortaleza uma cervejaria!” Algo grandioso – explicou. Pai Luiz, até então, no seu currículo: Dieselização da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro -, moinhos de trigo - Moinho de Trigo Fortaleza e Outros -, Frigorífico Industrial de Fortaleza, Jornal O Povo, Ginásios Júlia Jorge e Paulo Sarasate, Unifor - Universidade de Fortaleza, Petrolusa - Indústria Petroquímica, Camisas Saronord e as usinas do Macuripe e Auxiliar Diesel-Elétrica de Fortaleza, construir uma Cervejaria era um imenso desafio profissional. Papai trabalhava para o Grupo J. Macedo S.A., do empresário Macêdo (José Dias de Macêdo, 1919 - 2018), dono de um dos maiores grupos empresárias do Nordeste brasileiro, então, dono do empreendimento Astra. A pedra fundamental da Cervejaria Astra, foi lançada em 1965, no endereço da Rua Lauro Nogueira, 1355, bairro Papicu, em Fortaleza, CE. Em 1970, depois de 5 anos, a fábrica, finalmente, foi inaugurada. Teve festa no clube Náutico Atlético Cearense e banho de piscina, cheia até a boca, com cerveja Astra. Lembro-me que papai Luiz passou mal, teve alergia no corpo todo e quase não conseguiu ir à festa de inauguração. A marca Astra, ficou conhecida pelo slogan: “Astra, cerveja do Ceará” e em pouco tempo caiu no agrado do público. Ganhou até letra e música do compositor cearense Francisco José Abreu e, da noite para o dia, virou sucesso de vendas. Papai Luiz dizia, na época: “O segredo de uma boa cerveja é a água!” Anotei. O que aprendi desde então: beber cerveja! A Astra começou a ser fabricada - para testes - alguns meses antes do seu lançamento oficial. Éramos provadores diários da cerveja, e, semanalmente, recebíamos da fábrica, em casa, caixas e mais caixas, de Astra. Bebíamos tudo! No ano seguinte, em 1971, o controle acionário da empresa foi comprado pelo grupo Miranda Corrêa, que passou a controlar as cervejarias: Astra, em Fortaleza e Miranda Corrêa, em Manaus. Em 1999, a empresa foi vendida para o grupo Ambev - fusão das empresas Antarctica e Brahma -, e ganhou rótulo da Brahma, quando, então, teve toda a sua produção transferida para uma nova fábrica da Ambev, em Aquiraz, CE. Em 16 de maio de 2010, a antiga fábrica da cervejaria Astra, foi ao chão. Para implodir o prédio, foram necessários 250 kg de dinamite. A população - eufórica - pôde assistir a implosão, de longe, cujo impacto pôde ser sentido bem longe dali. Depois da implosão o que ficou de pé foi, apenas, a torre da caixa d’água. “Deve ter sido sacanagem do Gonzaga” palavras do meu tio Mário Capelo, ao telefone, contando-me, aos berros, de como havia sido a implosão. O terreno foi vendido para o empresário Paes Mendonça (João Carlos Paes Mendonça), controlador de um conglomerado de empresas, a JCPM, entre as quais a TV, a Rádio e o Jornal do Comércio do Recife, além de 11 shoppings, supermercados e hipermercados Bompreço, espalhados por grandes cidades do Nordeste brasileiro. No local, foi construído o Shopping Riomar Fortaleza, inaugurado em 29 de outubro de 2014. o Shopping Riomar é o maior shopping do Ceará, com 93.000 m² e o 8º maior do Brasil. Papai Luiz Gonzaga tinha toque. Não vivia sem água. Lavava as mãos de hora em hora, principalmente depois de cumprimentar alguém. Construiu ao longo da vida açudes, poços artesianos, cisternas e caixas d’água. Todas obras reforçadas e a prova de vazamentos e rachaduras. Isso, talvez, explique, na implosão da cervejaria Astra, apenas, a torre da caixa d’água, ter ficado em pé, depois de 250 kg de dinamite. Segundo meu tio Mário Capelo, melhor amigo do meu pai Luiz;: “Sacanagem do Gonzaga!”. Não duvido!

João Scortecci

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POESIA DE PONTOS, TRAÇOS E ESPAÇOS DE CÓDIGO MORSE

 O médico legista, professor, escritor, antropólogo, etnólogo e acadêmico Roquette-Pinto (Edgard Roquette-Pinto, 1884 – 1954), é o pai da radiodifusão no Brasil. No ano de 1922, criou a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro com o objetivo de difundir a educação por esse meio, num Brasil onde 60% da população, na época cerca de 30 milhões de pessoas, não sabia ler. Roquette-Pinto, numa negociação com empresários americanos da Westinghouse, recebeu de presente os equipamentos básicos de transmissão, para criar a primeira emissora de rádio do Brasil. A invenção do rádio é atribuída – com ressalvas – ao físico italiano Marconi (Guglielmo Marconi, 1874 – 1937). O rádio é a união de três tecnologias: a telegrafia, o telefone sem fio e as ondas de transmissão. A primeira transmissão documentada de rádio foi para o jornal de Dublin, Irlanda, e sobre um evento esportivo que ocorreu durante a regata de Kingstown, capital de São Vicente e Granadinas, no Caribe. A invenção, porém, ainda não tinha o formato que conhecemos hoje, porque transmitia somente sinais. A transmissão de voz só ocorreu em 1922. Lendo sobre as tecnologias que fundamentaram a invenção do rádio, deparei-me com a da telegrafia, invenção do físico Samuel Morse (Samuel Finley Breese Morse, 1791 – 1872). A tecnologia consiste num sistema de telecomunicações que possibilita a transmissão e reprodução à distância do conteúdo de documentos, escritos, impressos, imagens fixas ou qualquer outra informação, por meio de impulsos ou sinais elétricos. Essa tecnologia revolucionou a comunicação no século XIX. Samuel Morse foi também o inventor do Código Morse, sistema de representação de letras, algarismos e sinais de pontuação através de um sinal codificado enviado de modo intermitente. Quando menino, isso no Ceará dos anos 1960, meu pai Luiz me ensinou a mexer na engenhoca. Nunca mais esqueci: lê-se o código Morse combinando pontos (sinais curtos) e traços (sinais longos) que representam letras, números e sinais. Cada letra tem uma sequência única. O tempo de um traço dura três vezes o tempo de um ponto. Pausas curtas separam letras, e pausas longas separam palavras. A poesia é morse: palavras pontuadas, frases curtas e longas, enigmáticas, pausadas de silêncios e dores, com espaços teimosos, renitentes, vazios e incertos, inesperados e imortais! Embalei, então, o meu nome: S (...), C (-.-.), O (---), R (.-.), T (-), E (.), C (-.-.), C (-.-.), I (..). Escrito, mais ou menos assim: "Silêncio do corpo, Ontem e hoje: segredos infinitos, Risos na flor, Tesão da alma selvagem, e escuridão: perpétua! Cada dia um cravo, cada noite uma mensagem de fim: inteiras, fracionadas, pontuais, incertas, na imensidão do tempo celeste. Noite de pontos, traços e espaços: manhã de poesia!".

João Scortecci

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GAZZETTA: MOEDA VENEZIANA

 Num documento português de 19 de agosto de 1642 sobre a proibição de impressão da “Gazeta da Restauração”, li: “Por força de lei, fica proibida sua impressão e de todas as gazetas com notícias do reino ou de fora”. “Gazeta” ou “gazzetta” – no dialeto veneziano, “gaxeta” – é o nome de uma moeda de prata da Sereníssima República de Veneza, do século XVI, no valor de dois centavos. Na frente da moeda, a figura do juiz sentado e, no verso da moeda, a figura do Leão de São Marcos, símbolo da cidade de Veneza, representando força, coragem e a voz de Cristo no deserto. A moeda foi emitida de 1539 até 1559, durante o governo do Doge Pietro Lando (1462 – 1545). Em 1563, foi publicada a primeira “folha de avisos”, uma folha de notícias vendida ao público pelo preço de dois centavos. A partir de então, tornou-se um epíteto – palavra ou expressão que se associa a um nome ou pronome para qualificá-lo – para jornal, tipo específico de publicação periódica, quando os primeiros jornais venezianos custavam uma gaxeta. O primeiro jornal em português, “A Gazeta da Restauração” (formato 14 x 20 cm, 12 páginas) foi fundado em 1641, pelo alvará régio concedido ao poeta, impressor e livreiro Manuel de Galhegos (1597 – 1665), um ano depois de Portugal recuperar sua independência da Espanha, em 1º de dezembro de 1640. O Jornal serviu de instrumento de propaganda de D. João IV (1604 – 1656), apelidado de “O Restaurador”, para consolidar o poder e combater os “feitos” dos espanhóis, durante longos 60 anos enraizados no espírito do povo português, principalmente entre a nobreza. Entre 1580 e 1640, a linha fronteiriça que separa a Espanha de Portugal deixou de existir, e os dois países formaram um só reino, chamado de União Ibérica. A primeira edição de “A Gazeta da Restauração” teve a marca tipográfica da Oficina de Lourenço de Anveres, sediada em Lisboa. As oito publicações seguintes foram impressas na tipografia do jornalista Domingos Lopes Rosa, com a redação de João Franco Barreto e depois do frei Francisco Brandão. “A Gazeta da Restauração” ganhou, ainda, uma nona edição, a última, em julho de 1642. Em 19 de agosto de 1642, por força de uma lei, foi proibida sua impressão e de todas as gazetas com notícias do reino ou de fora, com a seguinte argumentação: “Em razão da pouca verdade de muitas e do mau estilo de todas elas”. O nome "Gazeta" ficou no tempo e, até hoje, refere-se a um tipo de jornal.

João Scortecci



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BIENAL DO LIVRO: COBRA GIGANTE, PEDAÇOS DE MELÃO E LIVROS!

Da edição de 1994 da Bienal Internacional do Livro de São Paulo de 1994, realizada no Parque do Ibirapuera, Pavilhão Ciccillo Matarazzo, participei uma única vez, a última, antes de o evento mudar de local. Esse evento realizado a cada dois anos, nos anos pares, acontece desde 1970, nos espaços do Ibirapuera, do Anhembi, Expo Center Norte, São Paulo Expo e agora, depois de 56 anos, novamente no Anhembi, reformado e ampliado. Em 1994, decidi participar pela primeira vez, de uma bienal do livro. Na época, a Scortecci Editora tinha 16 anos de idade, e a oportunidade era, sem pensar muito, um ato de loucura. Comprei o espaço no último dia possível. Olhei a planta do evento – um labirinto – ou melhor, um caracol, obra do arquiteto Niemeyer, no coração do Parque do Ibirapuera, com 40 mil m² de área e 250 m de extensão. “Uma cobra gigante?”, comentei. “Isso mesmo: o público entra pela boca da cobra e sai pelo rabo”. Foi o que me disseram, na época. “Um curral!”, pensei. Nas entranhas da planta, bem no meio do corpo da cobra gigante, bem embaixo da rampa de acesso ao piso superior, localizei um espaço ainda livre, de 20 m². “Quero este!”, apontei com o dedo. Na verdade, era o último espaço disponível. Fiz o cheque. Fui embora feliz, radiante, mordendo as orelhas de alegria. “Eu estou na Bienal do Livro de São Paulo!”, gritei. Era uma sexta-feira, final de tarde. No sábado, acordei matutando e pensando na loucura que havia feito. Dei o passo maior que as pernas! E o pior: comecei a desconfiar do espaço escolhido. No domingo, tive um pesadelo terrível: uma cobra gigante estava me devorando, vivo, pelos pés! A ficha, então, caiu: um espaço maravilhoso, no meio da cobra, dando sopa? Algo estranho. Certeza: caí numa roubada. Juro: pensei em cancelar a compra e depois me afogar no laguinho do Parque do Ibirapuera. Manchete: “Jovem Editor se afoga no laguinho do Parque do Ibirapuera!”. Algo assim. Guardei a cisma e fui, então, à luta. De lá para cá, a Scortecci já participou de 16 edições da Bienal Internacional do Livro de São Paulo e, ainda, tivemos participação no 1º Salão do Livro de São Paulo, em 1999, e outra, durante a pandemia da Covid-19, da 1ª Bienal Internacional Virtual do Livro, em 2020. Em 1994, no final do primeiro dia do evento, um sábado, tudo havia transcorrido maravilhosamente bem. Deixei o espaço feliz, radiante, pisando nos cascos, pronto para a maratona de dez dias de Bienal. No segundo dia, um domingo, fui um dos primeiros a chegar ao Pavilhão do Ibirapuera. Passei pela cabeça da cobra – local onde estavam as grandes editoras – e mirei o meu destino: chegar até o vão livre, embaixo da marquise da rampa de acesso ao piso superior, onde estaria, então, o estande da Scortecci. Estava lá. Contemplei, de longe, os livros perfilados nas estantes de madeira, num total, aproximadamente, de 300 títulos. Parei na entrada do estande e gritei: “Não! Não!”. Alguém da segurança me aguardava, sentado numa bancada. “O que aconteceu aqui?”, perguntei. O segurança apontou para o mezanino e disse, calmamente: “Sabia que lá em cima funciona um restaurante self-service?”. “E eu com isso?”, protestei. Cenário: os livros da Scortecci estavam sujos – emporcalhados – com restos de comida. Alguém “varreu” e jogou a sujeira rampa abaixo, explicou-me o segurança. Na estante principal, central do estande, onde havia arrumado os lançamentos do ano, um troféu inesquecível: pedaços de melão. Fui reclamar e o que eu escutei de um diretor da CBL, até hoje, dói nas tripas: “A noite você precisa cobrir as estantes de livros com um plástico!” Deveria? Isso, talvez, explique a fama que tenho, até hoje, depois de 32 anos de bienais, de reclamar, sempre, sistematicamente, de alguma coisa errada. Virou folclore! Respondo sempre, com o coração de editor e poeta: “Não gosto de melão e tenho medo de cobra!”.

João Scortecci

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SABEDORIA CAIPIRA: QUE A VIDA NOS AJUDE COM A PROSA

 O escritor, farmacêutico, político e professor, Euclydes Camargo Madeira (1907 – 2000), era um contador de “causos”. Conheci-o no início dos anos 1980, quando publiquei três de seus livros: “Tietê – Terra dos apelidos, sua história, sua gente e suas coisas”, “O Professor de Urussunga” e “Na Terra de Cornélio Pires – Sua história, sua gente, seus imigrantes, seus causos e seus apelidos”. Até então desconhecia o espírito – e seus encantos – da sabedoria caipira, que hoje me fascina. Adoro um papo caipira! Euclydes Madeira morava na cidade de Tietê, interior de São Paulo, e tinha o hábito de madrugar na porta da editora. Começava a falar – contar seus “causos” – e não parava mais. Depois de “matracar” por horas, pedia, gentilmente, desculpas. “Falei muito!”, justificava. No início incomodava e atrapalhava muito minha agenda. Depois, com o tempo, desisti de agendá-lo. Criamos laços e não mais abria mão de atendê-lo. Quem o conheceu sabe do que falo: um caipira bom contador de “causos” e mestre na arte da sabedoria popular. Hoje, depois de muitos anos, lembrei-me do Madeira e de Tietê, quando lia na Internet sobre “Soluções práticas para problemas pequenos”, aqueles do dia a dia, simples, que chegam e vão embora, do nada. Na leitura – logo no início do manual – cinco questionamentos provocativos: “O problema existe? Tem solução? O que precisa ser feito? Vale à pena? Quanto vai custar?”. Anotei. Ainda lendo o manual: “os marqueteiros são especialistas em usar expressões novas para embalar ideias velhas e teorias antigas”. Anotei, também. Quando já estava no finalzinho do manual – livrinho de 32 páginas – dei de cara com uma nota de rodapé: “Não adianta contar as galinhas que restam do galinheiro enquanto a raposa ainda estiver com fome!”. Foi quando o caipira Euclydes Madeira me sussurrou ao pé do ouvido: “Que a vida nos ajude com a prosa!”. Perguntei-lhe, então: “O que precisa ser feito para salvar as galinhas?”. Madeira riu, colocou o chapéu na cabeça, olhou as horas e se despediu: “Falei muito!”. Já na porta de saída da editora, virou-se e respondeu, sabiamente: “Alimente também a raposa!”. Euclydes Madeira faleceu na virada do século, com 93 anos de idade. Embalei, então, a ideia.

João Scortecci



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EDVALDO E O CACHIMBO ITALIANO SAVINELLI

 Já fumei cachimbo, isso nos anos 1980. O que aprendi na época: quem fuma vira, queira ou não, um colecionador de cachimbos. Cheguei a ter perto de 30 cachimbos, alguns importados, comprados a peso de ouro. Eu, sempre, exagerado. Guardava-os na editora, num sobrado alugado que ficava na Rua Teodoro Sampaio, na cidade de São Paulo, em frente à Galeria Pinheiros, sede da Scortecci Editora até 1992. O sobrado foi invadido num fim de semana e minha coleção se escafedeu. Junto com a coleção levaram, também, minha coleção de canetas. Uma tragédia! Duas de ouro, uma delas com mais de 80 anos, que pertenceu ao meu avô José Scortecci. No ano de 1984, ainda na época da Galeria Pinheiros, contratei como ajudante geral um jovem de nome Edvaldo, engraxate, que trabalhava na barbearia em frente, loja 8, de propriedade de Adelson Gravena e seus irmãos Orestes e Nelson, referências no bairro de Pinheiros. Edvaldo sonhava um dia se tornar barbeiro. Ajudei-o a pagar um curso noturno sobre a arte de cortar cabelos e, na sua formatura, presenteei-o com um kit profissional de barbearia. Ele chorou de alegria! Edvaldo era engraçado, imitava as pessoas, trejeitos e voz. Um artista! Entrei na editora – tinha avisado que não voltaria mais naquele dia – e o encontrei na minha sala, sentado na minha poltrona, fumando o meu cachimbo preferido, um Savinelli, italiano. Na editora, uma pequena sala de 30 metros quadrados, estavam Edvaldo e minha secretária. Ela me viu, mas ele não. Puxei uma cadeira de canto e fiquei ali, do lado, assistindo o seu desempenho. Edivaldo fumava – jogava a fumaça no ar – e imitava a minha voz. Os cachimbos nasceram nas Américas no período pré-colombiano. Povos indígenas usavam o instrumento com tabaco em rituais sagrados para ligar a Terra ao Céu, rezar e selar a paz. Os europeus levaram o hábito para o Velho Mundo no século XVI, e a palavra veio de termos africanos passados ao português. Nos anos 1990 publiquei o livro “Tabacos e Cachimbos: de Cristóvão Colombo até Hoje”, do Alfredo Antonio Maia, um especialista no assunto. Edvaldo, quando me viu, engasgou-se. Colocou o cachimbo no cinzeiro da mesa, mas permaneceu imóvel, sentado na minha poltrona. Eu, abduzido, olhava-o, em silêncio, sem saber o que dizer. Minha secretária entrou na sala e me ofereceu um café. Aceitei. Edvaldo, então, ameaçou se levantar. Fiz sinal para que continuasse sentado. Disse-lhe, com cara de bravo: “Pega o cachimbo e repete o desempenho!”. Ele, desinibido e cheio de graça, repetiu a cena. Não satisfeito, retirou o telefone do gancho e fingiu conversar com um autor sobre edição de livro. Perfeição! Confesso: era eu e mais ninguém! Edvaldo trabalhou na editora ainda mais alguns meses. Depois pediu as contas e partiu: feliz da vida! Foi trabalhar de barbeiro num salão de beleza no centro da cidade. Nunca mais soube dele. Uma pena!

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PELÉ, GOLIAS E A FAMÍLIA TRAPO

 No ano de 1969, visitando meus tios maternos na cidade de São Carlos, no interior de São Paulo, assisti na TV, em preto e branco, ao programa humorístico, “Família Trapo”. Tratava-se de uma reprise de uma gravação do ano de 1967, em que o comediante Bronco (José Ronald Golias, 1929 – 2005) tentava ensinar ao Rei Pelé (Edson Arantes do Nascimento, 1940 – 2022), como bater um pênalti. Cena hilária! Inesquecível. No gol – travestido de goleiro – o incrível Jô Soares (José Eugênio Soares, 1938 – 2022). No intervalo, meu tio Alfredo Petrilli, cunhado da minha mãe, Nilce, todo cheio de si, declarou: “Vocês sabiam que o Golias é carlopolitano?”. Não sabia. Anotei. Família Trapo – exibido pela TV Record – é um marco na história da TV brasileira. Ronald Golias era o incrível e inesquecível Carlos Bronco Dinossauro. Faziam parte da trama: Jô Soares, Ricardo Corte-Real, Cidinha Campos, Renata Fronzi, Otelo Zeloni e mais um convidado especial, por episódio. Conheci o “Bronco” na cidade de São Paulo – isso nos anos 1980 –dentro da agência 0444 do Banco Itaú, na Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, nos primórdios da editora. Tínhamos a mesma gerente de conta e, vez por outra, ocupávamos a mesma salinha do café e do cofre, no mezanino. Lá – cheios de segredos e chaves – batíamos longos papos. Um doido de pedra e um poeta, juntos, trancados num cofre de banco! “Bom dia, Golias!” “Bom dia, Poeta!”. Um dia, arrisquei lhe perguntar algo pessoal. “Golias, quem passa as suas roupas?”. Nem preciso dizer aqui que o carlopolitano andava – sempre – todo amarrotado! Golias me olhou sério, da cabeça aos pés. “Ninguém!”, respondeu. Mudamos de assunto. Golias cheirava azedo e andava irresistivelmente “esculachado”. Desconfio que nem banho tomava. Uma figura! Prometeu um dia visitar a editora, na Galeria Pinheiros, mas nunca apareceu. No início dos anos 2000, sumiu de vez. Em abril de 2004, soube que havia feito uma cirurgia para implante de um marcapasso. Em maio do mesmo ano, foi internado por causa de um coágulo no cérebro. Carlos Bronco Dinossauro – o carlopolitano – faleceu no dia 27 de setembro de 2005, aos 76 anos de idade. Tive o privilégio de ver Pelé jogar uma única vez, num jogo no Estádio do Pacaembu, no dia 4 de novembro de 1973, entre o time do Santos e o da Portuguesa. O Rei Pelé marcou dois gols, na vitória santista por 3 a 2. Daquele memorável jogo de futebol ficou uma lição: o jogo só termina quando o árbitro apita o final!

João Scortecci



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HOMERO E A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL DA INDIVIDUALIDADE DENTRO DO COLETIVO

Eu, então, 70 anos. Acordei, pontualmente, às 4h30, hora em que nasci. Mamãe Nilce confirmou o horário. E mais: está escrito na certidão de nascimento, do cartório João de Deus, livro A-200, folha 398, sob número de ordem 118.997. Quem me acordou foi Homero, poeta épico da Grécia Antiga, autor – é o que dizem – dos poemas épicos “Ilíada” e “Odisseia”. Perguntei-lhe, surpreso, assim que abri os olhos: “Homero, é você ou estou possuído?”. Justifiquei-me, ainda: “Muitos dizem que você nunca existiu, que não passa de um indivíduo histórico, um nome fictício, algo assim. Estudiosos são céticos sobre sua existência. Dizem que sua obra é uma IA – uma miscelânea épica – de textos de vários intelectuais. O que você me diz? Já sei: deve ser um 'déjà vu' do filme 'Odisseia' (2026), escrito e dirigido por Christopher Nolan, adaptação do poema 'Odisseia', estrelado por Matt Damon como Odisseu, o rei grego de Ítaca – ilha grega: berço da poesia – e sua longa e perigosa jornada de volta para casa após a Guerra de Troia. É isso?”. Homero riu. Confesso: ainda não tive tempo para assistir ao filme, muito recomendado. Insisti: “O que queres de mim?”. Homero – até surpreso – respondeu-me: “Dar-lhe parabéns! Aniversário de 70 anos, né?” Agradeci, desconfiado. Na verdade, sua resposta não me convenceu. Cutuquei: “Diga, meu poeta, abra o seu coração!”. Homero resfolegou uma profunda dor temporal: “Não gostei nada da minha foto que a IA postou na Internet. Pareço velho, sujo, com cara de pastel adormecido!”. “O que queres de mim?”, insisti. Homero, então, respondeu-me, recitando versos da “Odisseia”: “Hóspede amigo, salve; o que precisas,/ Depois do teu repasto o saberemos”. Anotei. A palavra “repasto”, sugestiva, deu-me fome. Preparei ovos mexidos, queijo ralado, tomatinho fresco, creme de leite, colher de sopa de azeite virgem e uma pitada de sal. Logo saberemos! Abri o modo IA do Google e escrevi uma nota com o desabado de Homero – um desagravo poético: “Eu, Homero, mesmo considerado um ser fictício, continuo vivo e profundo no tempo de muitos!”. A IA respondeu: “Essa frase traz uma reflexão profunda sobre a individualidade dentro do coletivo e a nossa relação com a temporalidade”. Interessante. Mostrei a resposta para o poeta Homero. Ele me olhou, balançando a cabeça, concordando e ao mesmo tempo discordando da temporalidade. Parecia triste, confuso. Protestou, então: “E quanto à minha cara de pastel?”. Respondi: “Coisas da IA generativa!”. E, como dizia o meu saudoso pai Luiz: “Amanhã eu resolvo o seu caso!”.

João Scortecci  

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O COMEDOR DE CAMARÃO MAIS BONITO DO MUNDO

Das superstições. Das crendices, mitos, danças e lendas. Das práticas mágicas adotadas e vividas pelo povo brasileiro. Eu e os dicionários. Paixão antiga! Edição de luxo, em dois volumes, do “Dicionário do Folclore Brasileiro”, do potiguar – comedor de camarão, em Tupi – Luís da Câmara Cascudo (1898 – 1986). Uma obra prima! Presente do editor e amigo Luiz Alves Junior, da Global Editora. Sobre os adjetivos pátrios: classe de palavras que designam um indivíduo de acordo com o seu local de nascimento ou residência. Etnônimo: designa tribo, etnia, raça ou nação a que pertence o indivíduo. Exemplos: Guarani, Xavante, Tupi, Alemão. Gentílicos: designa o país, a região, o estado, a província, o condado, o município, a cidade, a povoação ou afins, em que alguém nasceu, habita ou de onde procede. Exemplos: potiguar, capixaba, carioca, baiano, gaúcho, cabeça-chata... Cabeça-chata? Brincadeira. “Cabeça-chata” é um apelido pejorativo usado para se referir aos nordestinos, especialmente aos cearenses. Ela surgiu ligada a estereótipos físicos associados à miscigenação indígena e ganhou força com as grandes migrações para o sul do país no século XX. Quando deixei o Ceará em 1972 e me mudei para São Paulo, não gostava de ser chamado de cabeça-chata. A expressão “cabeça-chata” faz uma alusão preconceituosa à braquicefalia – formato de crânio mais achatado do meu povo cearense. Hoje, depois de 50 anos, até gosto. Digo sempre: inteligência além da conta! As histórias são muitas, algumas engraçadas: nós, cearenses, temos a cabeça chata porque dormimos em rede! Ou, ainda, que o achatamento de nossas cabeças vem do fato de, desde criancinha, nossas mães darem –sistematicamente – “pancadinhas” nas nossas cabeças: “Cresça, meu filho; cresça para ir ganhar dinheiro em São Paulo!”. A verdade é que nós, cearenses, assumimos o apelido. Um exemplo – oportuno – aconteceu com a torcida do Palmeiras – Sociedade Esportiva Palmeiras – que assumiu o apelido de “porco”, em outubro de 1986, transformando uma ofensa dos rivais em um símbolo de orgulho. Hoje – 40 anos depois – ninguém resiste ao grito da torcida: “E dá-lhe Porco, e dá-lhe Porco, olê, olê, olé!”. Sobre o potiguar Luís da Câmara Cascudo – o feio mais bonito do mundo – digo sempre: não tenho mais medo das suas caretas: “Os pássaros não são devedores dos frutos e da água da fonte. Eles testificam, perante a natureza, a continuidade da missão cultural”.

João Scortecci



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HISTÓRIAS DA CIDADE MINEIRA DE ESMERALDAS

 Mineiro é uai e desconfiado que só ele. Custoso! A história é da boca do povo. Quem me contou – maravilhosamente bem – foi o escritor e crítico literário mineiro Fábio Lucas. Histórias de Esmeraldas, sua cidade natal, localizada na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Segundo o “bom mineiro” três coisas são vistas a olho nu da lua. São elas: as muralhas da China, a foz do rio Amazonas e o brilho da cidade de Esmeraldas. Não faço desfeita! E mais: a história dos irmãos gêmeos Tomorto e Tovivo, nascidos em Esmeraldas, na metade do século passado, ele jura que é tudo verdade. Tomorto e Tovivo eram populares e queridos por todos na cidade. Por azar do destino o Tovivo morreu, assim, do nada. De entojo. Comeu algo ruim e bumba: deu nó nas tripas e caiu morto, nos pés do Cristo, do Morro do Mirante. O assunto – repentino e inesperado – “engoliu” toda a cidade luz. Depois de muita murrinha e bateção de lata, o bispo, o prefeito, o juiz e os políticos da cidade, decidiram promover, então, uma consulta popular – um plebiscito, para decidirem o que fazer. Na cédula – com carimbo da igreja e rubrica do prefeito – as trenzeiras da dúvida. Duas opções: inverter os nomes dos gêmeos – Tomorto passaria a se chamar Tovivo e vice versa ou, então, divinamente, ressuscitar o Tovivo. E assim foi decidido. O plebiscito aconteceu num domingo de sol e festa na cidade. No dia da apuração – juiz, prefeito, padre, imprensa e o povo, todos presentes –, veio a surpresa, na hora da apuração dos votos: todas as cédulas estavam em branco! Lasqueira de trem custoso! Alguém, então, gritou: “Melhor assim!”. E assim ficou. Tomorto – é o que dizem – viveu até perto dos 100 anos de idade. E não adianta apiar da aflição. Vai que no voto ganha ressuscitar o Tovivo? Esmeraldas é quem sabe das coisas!

João Scortecci

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GUILLOTIN: CABEÇAS VÃO ROLAR!

Na Itália, quando visitava o Duomo, Catedral de Santa Maria del Fiore, em Florença, escutei da boca de uma parente da Família Scortecci: “Italianos e franceses adoram ver uma cabeça cortada, rolando ladeira abaixo”. Risos. Anotei. Lendo sobre o médico francês Guillotin (Joseph-Ignace Guillotin, 1738 – 1814), que, em 10 de outubro de 1789, propôs o uso de um dispositivo mecânico de decapitação, para realizar as penas de morte na França, lembrei-me da história. O médico Guillotin – isso eu não sabia – não foi o inventor da guilhotina, mas seu nome se tornou um epônimo – aquele ou aquilo que dá o seu nome a qualquer coisa ou pessoa –, para esse dispositivo de decapitação. A guilhotina – ideia defendida por Guillotin – tinha a finalidade de proporcionar uma morte rápida e sem dor aos condenados à morte. Justificou – em audiência na Assembleia Nacional Francesa – que esse seria um método mais humanitário, eficaz e igualitário. O aparelho da guilhotina é constituído de uma grande armação reta – aproximadamente 4 m de altura –, na qual é suspensa uma lâmina losangular, pesando aproximadamente 40 kg. As medidas e o peso fazem parte das normas técnicas francesas para construção do aparelho. A lâmina é erguida à parte superior da armação por uma corda e fica mantida no alto, até que a cabeça do condenado seja colocada sobre uma barra que a impede de se mover. Em seguida, a corda é liberada, e a lâmina cai de uma distância de 2,3 m no pescoço da vítima, lhe cortando a cabeça. Guillotin considerava esse método de execução mais humano do que o enforcamento ou a decapitação com o uso de um machado. Afirmava que a agonia do enforcado podia ser longa, caso o dano aos ossos do pescoço não causasse a morte imediata, e o machado não cumpria seu papel ao primeiro golpe, o que aumentava consideravelmente o sofrimento da vítima. Guillotin inspirou-se em uma gravura do pintor, ilustrador e matemático alemão Albrecht Dürer (1471 – 1528), feita no século XVI, na qual o ditador romano Tito Mânlio, com um aparelho semelhante a uma guilhotina, decapita seu próprio filho, que desobedeceu a ordens militares. No primeiro projeto da guilhotina, havia uma lâmina horizontal. Foi o doutor Louis, célebre cirurgião da época, que recomendou, em um relatório entregue em 7 de março de 1792, a construção de um aparelho com lâmina oblíqua, única maneira de matar os condenados com certeza e rapidez, o que era impossível com uma lâmina horizontal. Calculam-se aproximadamente 40 mil vítimas da guilhotina entre 1792 e 1799. A última pessoa guilhotinada na França foi o imigrante tunisiano Hamida Djandoubi, em 10 de setembro de 1977, condenado por tortura, estupro e assassinato de sua ex-namorada Elisabeth Bousquet. Um dos acontecimentos mais importantes da Revolução Francesa foi a execução do Rei Luís XVI, na guilhotina, em 21 de janeiro de 1793, às 10h20, em Paris, na Praça da Revolução, antiga Praça Luís XV, renomeada, em 1795, como Praça da Concórdia. Luís XVI foi preso, julgado e condenado à morte, por alta traição. O que ficou da história? Que os Italianos e os franceses adoram ver uma cabeça cortada, rolando ladeira abaixo. Segundo eles um método mais humanitário, eficaz e igualitário. O culpado possivelmente tenha sido o pintor, ilustrador e influenciador alemão Albrecht Dürer que, com sua sugestiva gravura, viralizou a ideia. É o que dizem.

João Scortecci

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MAMÃE NILCE E A "BIBLIOTECA DAS MOÇAS"

“Biblioteca das Moças” foi o nome de uma coleção de romances especializada em literatura para jovens mulheres, publicada entre 1920 e 1960, pela Companhia Editora Nacional, fundada por Monteiro Lobato (1882 - 1948) e Octalles Marcondes Ferreira (1901 – 1973), e que, em 1980, passou a fazer parte do grupo IBEP - Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas, do empresário Jorge Yunes. A coleção era composta por cerca de 180 volumes, com romances de vários autores, a grande maioria assinados por M. Delly, pseudônimo do casal de irmãos franceses Frédéric Henri Petitjean de la Rosière (1870 – 1949) e Jeanne Marie Henriette Petitjean de la Rosière (1875 – 1947). As narrativas geralmente eram ambientadas na França e tinham enredos com estrutura bem definida: o herói nobre e rico e a heroína plebeia e pobre, perfazendo uma trama complexa que culminava com o casamento feliz, como nos contos de fada. O casamento era, então, apresentado como a redenção da mulher. Por volta de 1920, as jovens começaram a frequentar as livrarias, escolhendo e comprando os próprios livros, e a “Biblioteca das Moças” foi organizada em função dessa alternativa, destinada ao público feminino da época. Em 1930, a Companhia Editora Nacional chegou a publicar mais de 900 mil exemplares; em 1940, esse número chegou a 1,4 milhão; e, em 1950, o número total de publicações duplicou em relação à década anterior, alcançando mais de 2,9 milhões de exemplares publicados. Mamãe Nilce Scortecci (1927 – 2003), foi uma leitora voraz de livros dessa coleção. Lembro-me de ter visto – isso nos anos 1960 – alguns exemplares perdidos na casa dos meus avós maternos (José e Aparecida), na cidade de São Carlos, interior de São Paulo e em algumas fotos, na fazenda Nilcevia, em Dois Córregos, também no interior de São Paulo. Na adolescência, mamãe Nilce varava noites, à luz de velas, escondida de seus pais, nos seus melhores sonhos de mulher. Nilce foi uma leitora voraz a vida toda. Já casada e com filhos, morando em Fortaleza, capital do Ceará, montou, com o meu pai Luiz, uma imensa biblioteca, basicamente formada de coleções, enciclopédias, dicionários e clássicos da literatura universal. No ano 1969, ganhou de presente duas coleções de livros: Enciclopédia Delta-Larousse (Editora Delta, 12 volume) e a Coleção Prêmio Nobel de Literatura (Editora Delta, 60 volumes). Até então, reinavam: a coleção Memórias de Carlos Lacerda, a enciclopédia Tesouro da Juventude, obras completas de Monteiro Lobato e as obras completas de Stefan Zweig. Mamãe Nilce praticamente mudou-se pra lá. É dessa época que – já com os filhos crescidos e morando em São Paulo – prestou vestibular para a Faculdade de Direito, na Federal do Ceará. Em 1982, mudou-se para São Paulo, Capital. Trabalhou na Scortecci Editora, como advogada e depois como revisora de livros. Publicou três livros de poesias: Sentimentos Idos e Vividos (1988), Todas as Palavras (1992) e Reinício (1995). Em 2021, a Scortecci Editora – in memoriam – publicou a obra “Todas as Palavras”, antologia dos três títulos juntos. Mamãe Nilce faleceu em 2003, aos 76 anos de idade. Lendo a biografia do romancista búlgaro Elias Canetti (1905 – 1994), Nobel de 1981, encontrei foto de exemplares da coleção. Emocionante! Entrei – desavisado de tudo – no portal do tempo e lá fiquei, abduzido, entre livros e memórias, passista, na imensidão da casa de livros da minha infância. Morri por lá, mortalmente.

João Scortecci

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KANT E A TRANSIÇÃO DO SENTIMENTO DO BELO E DO SUBLIME

Kant, ele mesmo, e suas considerações sobre o sentimento do belo e do sublime. Perguntei-lhe: O que queres de mim? Silêncio. Tentei dormir mais um pouco, sem sucesso. Desliguei o radinho. Estava na CBN, no programa “Futuramente” escutando a Martha Gabriel e a Caroline Tamassia, entrevistando o neurologista e professor da UNIFESP, João Brainer de Andrade, um cearense acelerado, também. Imperdível! O cara é bom: espetou no meu cérebro agulhas e curiosidades. Assunto do programa: “A Inteligência Artificial está impulsionando o seu cérebro?”. Anotem: Episódio #33. Recomendo. No meio do papo – do nada – alguém cutucou Kant (Emanuel Kant, 1724 –1804), autor do livro “Crítica da Razão Pura”. E ele veio: ocupou-se de mim. Insisti: “O que queres de mim?”. Silêncio. Levantei-me. Fui ao banheiro, bebi um Nespresso número 8, sem açúcar, e liguei o PC. Digitei no buscador: “Kant e a transição do belo para o sublime”. Anotem. Sobre o conceito do Belo: “calma, ordem e a sensação de harmonia entre a imaginação e o entendimento. Limites claros, o objeto agrada por si mesmo, de modo livre e sem interesse prático, gerando um sentimento direto de alegria e satisfação sensível”. Gostei! Continuei pesquisando. Quanto ao trânsito para o Sublime: “ocorre quando nos deparamos com algo ilimitado, caótico ou grandioso demais para nossa imaginação capturar por completo. Mistura temor, pavor, com fascínio, desde que estejamos em segurança para contemplar a força da natureza ou do infinito. O sublime nos faz sentir pequenos perante o absoluto, mas engrandece a nossa razão ao percebermos que nossa mente pode pensar o que os olhos não alcançam”. Testemunha ocular da história, algo assim. Salvei tudo no bloco de notas. Foi quando, então, Kant, o alemão, resolveu aparecer, dar sinal de vida. Questionou-me, diretamente, com três perguntas filosóficas: “Que podemos saber?”. “Nada mais!”, respondi. Kant concordou, balançando a cabeça. “Que devemos fazer?”. “Respirar o derradeiro sublime!”, respondi. Kant, dessa vez, apenas me olhou. Parecia triste. E, por fim, resfolegou: “Que nos é lícito esperar?”. Não respondi. Pensei – com o coração sublimado de dor: apenas um temor de vida, que os olhos do tempo não alcançam. Um fascínio, talvez. Segurança para contemplar a força da natureza ou do infinito. E nada mais.

João Scortecci

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O PIONEIRISMO E O LEGADO DE JOÃO SCORTECCI

João Scortecci – poeta, escritor, editor, gráfico, livreiro e gestor – é reconhecido como o pioneiro no mercado de autopublicação e impressão de livros em pequenas tiragens e sob demanda no Brasil. Ao longo de mais de cinco décadas de atuação, ele revolucionou a lógica editorial nacional ao democratizar o acesso à publicação para milhares de novos autores.
Nascido em Fortaleza, Ceará, em 1956, João Scortecci mudou-se para São Paulo em 1972. Sua entrada no mundo das letras ocorreu inicialmente como escritor, fazendo sua estreia em 1973, na revista Poetação, da FAU/USP. Ao longo dos anos 1970 e início dos 1980, Scortecci deparou-se com a realidade excludente do mercado editorial da época: editoras tradicionais raramente apostavam em novos talentos e as gráficas exigiam tiragens a partir de mil exemplares, para viabilizar financeiramente a publicação de um livro.
Diante desse obstáculo, adotou uma postura empreendedora e complementar para cada elo da cadeia criativa, produtiva e distributiva do livro. Fundou a Scortecci Editora (1982), a Gráfica Scortecci (1986), a Livraria Scortecci (2001), a Escola do Escritor (2004) e a Scortecci Logística (2010). O seu grande desafio foi a Gráfica Scortecci: teve que reformar máquinas offset de mesa, marca Rotaprint, modelo Ram 3, para o uso de chapas de papel, próprias para baixas tiragens. Depois migrou para duplicadores eletrônicos e, por fim, equipamentos digitais da Canon e Xerox. A Gráfica Scortecci especializou-se em baixas tiragens a partir de 100 exemplares. Para tiragens menores e sob demanda de livros prontos para impressão, criou, em 2004, a Fábrica de Livros. Nasceu, então, o Grupo Editorial Scortecci, que edita, imprime e comercializa livros em pequenas tiragens e o slogan: “Mais que livros, imprimimos emoções!”.
Em sua história conserva os mesmos objetivos e propósitos desde a fundação: editar, imprimir e comercializar livros, promover e apoiar concursos e prêmios literários, realizar recitais e leitura de textos, participar de feiras e bienais do livro, organizar antologias literárias, realizar cursos, palestras e oficinas sobre o livro e a arte de escrever, trabalhar pela formação e ampliação de bibliotecas públicas e comunitárias e fomentar o hábito da leitura.
O principal legado editorial e gráfico de João Scortecci reside na quebra do paradigma da "grande tiragem". Com iniciativas como a Fábrica de Livros, milhares de escritores que seriam ignorados pelas grandes corporações literárias puderam publicar e comercializar suas obras. O impacto de sua marca se estende por números e reconhecimentos expressivos. Ao longo da história de seu grupo editorial, são mais de 11 mil títulos publicados em primeira edição e a Scortecci Editora já recebeu os prêmios: Jabuti da CBL – Câmara Brasileira do Livro; APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte; FBN – Fundação Biblioteca Nacional; ABL – Academia Brasileira de Letras; e PEN Clube. Foi, ainda, finalista do Prêmio Jabuti por oito vezes, nas categorias: Poesia, Contos, Reportagem, Adaptação e Escritor estreante – Romance.
João Scortecci, que, em agosto de 2026, completa 70 anos de idade e mais de 50 anos no mercado editorial, tem também papel importante em entidades e políticas públicas ligadas ao livro e seu entorno. Atuou como Diretor Adjunto e Vice-Presidente da CBL, Diretor da UBE – União Brasileira de Escritores e da ANL – Associação Nacional de Livrarias. Foi membro da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura – Lei Rouanet, Área de Humanidades, de 1996 até 2007. Atualmente é presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf-SP), membro do Conselho Eleito da CBL, membro do Conselho Técnico Editorial do SNEL – Sindicato Nacional dos Editores de Livros, diretor da ABDR – Associação Brasileira de Direitos Reprográficos, curador do Prêmio de Excelência Gráfica Luiz Metzler e blogueiro nestes endereços na Internet: Amigos do Livro, Blitz Literária, Scortecci Digital, Livros & Autores e Livros para Todos – formação e a ampliação do acervo de bibliotecas públicas e comunitárias.
Além dessa atuação multifacetada, é autor de mais de 24 livros, transitando pela poesia, crônica, literatura infantojuvenil e assuntos relacionados ao livro, com destaque para títulos como: Guia do profissional do livro, Na linha do cerol – Reminiscências poéticas, A maçã que guardo na boca, Dos cheiro de tudo e a coleção de crônicas Menino Tipográfico e outras histórias – volumes 1 a 5.
Ao alinhar sensibilidade artística e de curadoria editorial, excelência em tecnologia gráfica digital e competência em funções de gestão, João Scortecci pavimentou o caminho moderno da autopublicação no Brasil, moldando as bases de um mercado descentralizado focalizado na cauda longa da literatura nacional e protagonizando, com seu legado, um importante capítulo da história editorial, literária e cultural do Brasil.

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O AMADO JORGE E SEUS LEGADOS

O escritor baiano Jorge Amado (Jorge Leal Amado de Faria, 1912 – 2001) é um dos mais famosos e traduzidos escritores brasileiros de todos os tempos. É o autor mais adaptado no cinema, no teatro e na televisão. Destaques: “Dona Flor e seus dois maridos”, “Tenda dos Milagres”, “Tieta do Agreste”, “Gabriela, cravo e canela” e “Tereza Batista cansada de guerra”. Sua obra literária: 49 livros, ao todo. Foram traduzidos em 80 países e em 49 idiomas. “Capitães da Areia” é seu romance mais influente. Um clássico dos livros sobre a “infância abandonada”, onde se narra a história crua e comovente dos meninos pobres morando em um trapiche – armazém abandonado – na região do cais, na cidade de Salvador, capital do estado da Bahia. O livro foi publicado em 1937, ano em que a polícia do Estado Novo, de Getúlio Vargas, apreendeu e queimou em praça pública exemplares do livro. “Sob a lua, num velho trapiche abandonado, as crianças dormem. Antigamente aqui era o mar”. Jorge Amado, na adolescência, foi um dos fundadores da Academia dos Rebeldes, grupo de escritores que desempenhou um importante papel na renovação da literatura baiana. Na década de 1930, mudou-se para a capital federal – Rio de Janeiro –, onde cursou a faculdade de Direito e ali travou seus primeiros contatos com o movimento comunista organizado. Viveu exilado na Argentina e no Uruguai (1941 a 1942), em Paris (1948 a 1950) e em Praga (1951 a 1952). Em 1946, foi eleito deputado federal pelo PCB – Partido Comunista Brasileiro. Foi o autor das emendas constitucionais n. 3.064, que suprimiu a censura prévia e estabeleceu a isenção de tributação sobre livros e periódicos, e n. 3218, que garantiu a liberdade religiosa. Desligou-se do PCB em 1956, depois das denúncias de Nikita Khrushchev contra Stalin, no 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Em 1961, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 23, cujo patrono é José de Alencar. De sua experiência acadêmica bem como para retratar “os casos” dos imortais da ABL, publicou o livro “Farda, fardão, camisola de dormir” (1979), numa alusão clara ao formalismo da entidade. Jorge Amado morreu em 6 de agosto de 2001, aos 89 anos de idade. Seu corpo foi cremado e suas cinzas foram enterradas em sua casa no bairro do Rio Vermelho, em Salvador/Bahia.

João Scortecci

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HERÓIS DE 1932: O SOLDADO EOLO VENTURA

No dia 9 de julho se comemora o aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932, também conhecida como “Guerra Paulista”, que tinha por objetivo derrubar o governo federal provisório e golpista de Getúlio Vargas (1882 – 1954) e convocar uma Assembleia Nacional Constituinte. O estopim do levante armado, precipitado pela revolta popular, deu-se após a morte de quatro jovens – Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo – por tropas getulistas, durante um protesto contra o governo federal. No dia 23 de maio de 1932, um grupo de manifestantes tentou invadir a sede do PPP – Partido Popular Paulista (ex-Liga Revolucionária), grupo político-militar encabeçado pelo argentino Miguel Costa (1885 – 1959), sustentáculo de apoio ao regime de Getúlio Vargas. O embate se deu no centro da cidade de São Paulo, na esquina da Rua Barão de Itapetininga com a Praça da República. O grupo político-militar resistiu à invasão com o uso de armas e granadas. Após a “fuzilaria”, muitos feridos e quatro mortos. Um quinto manifestante, de nome Orlando de Oliveira Alvarenga, foi ferido, vindo a falecer três meses depois e não teve seu nome associado ao movimento clandestino MMDC, iniciais dos nomes dos quatro jovens mortos. Cinco dias depois da eclosão do movimento Constitucionalista, o governador aclamado, o advogado, diplomata e político Pedro de Toledo (Pedro Manuel de Toledo, 1860 – 1935), decretou a autorização de emissão do “dinheiro paulista” lastreado de acordo com as reservas em ouro nos cofres do estado. São Paulo imprimiu papel-moeda, cédulas de 5, 10, 20, 50, 100 e 200 mil réis. Meu saudoso tio Eolo Ventura, marido da tia Margô (Margarida de Paula Ventura), irmã mais velha do meu pai Luiz Gonzaga, foi soldado constitucionalista e – em almoços de família –contava, sempre, a história da noite tensa que viveram durante o conflito de 1932. Seu agrupamento estava acampado na fronteira do estado paulista com o de Minas Gerais, quando receberam um alerta da presença das tropas de Getúlio, nas cercanias. Pânico! Por volta das três horas da madrugada escutaram uma movimentação estranha e o barulho de galhos quebrados. Mesmo com a ordem para não atirarem, abriram fogo. Em menos de trinta minutos “detonaram” toda a munição do agrupamento. Uma tragédia militar! Depois do silêncio e do breu da noite, um pequeno grupo de soldados recebeu a missão de vasculhar a área. Meia hora depois escutaram o apito de silvo breve – que significa: caminho livre! O destacamento encontrou no descampado uma vaca morta, perfurada de balas. Risos. Depois da sobremesa o melhor da história. Eolo Ventura, o tio amado por todos, sussurrava: “A vaca havia sido alvejada 32 vezes!”. Memórias de Pantaleão, herói de 32 e de uma vida inteira.

João Scortecci

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"OBRA-PRIMA” NÃO É A MESMA COISA QUE “MAGNUM OPUS"

A história é do início da Scortecci Editora, ano 1983, quando os livros publicados pela editora eram quase todos com 40 páginas e de poesia. Pela manhã, até perto das 14 horas, eu trabalhava no meu restaurante Almoço em Casa – um dos primeiros do tipo self-service da cidade de São Paulo – e depois “voava” para a editora, distante quatro quarteirões, na Rua Teodoro Sampaio, n. 1.704, numa loja de 30 metros quadrados, na Galeria Pinheiros. Acordava de madrugada – entre as 4 e as 5 horas – e todas as manhãs via o sol nascer fazendo compras no CEAGESP, na Vila Leopoldina, centro atacadista de abastecimento de frutas e verduras da cidade de São Paulo. O restaurante Almoço em Casa funcionou por exatos dois anos e foi importante – financeiramente – no começo da minha vida de empresário. Não teria conseguido, se não fosse o restaurante. O que sobrava do almoço era o jantar do dia! Na editora, naquela época, trabalhava apenas uma colaboradora, uma nissei, de nome Márcia, creio. Ela fazia o básico. Cuidava da arrumação da loja, anotava os recados e atendia ao telefone, uma PL – linha particular –, que alugávamos de um casal de idosos, donos de uma loja de roupas na própria galeria. Linha telefônica, na época, custava uma fortuna, e o preço girava em torno de 4 mil dólares. Detalhe: eu tinha – comprado com sacrifício – um plano de expansão e um carnê de 24 parcelas fixas, com a promessa da Telesp de instalação em até 18 meses. Cumpriram a promessa. Certo dia, entrei na editora – atrasadíssimo – e um senhor com seus 55 anos de idade me aguardava, sentado. “Você é o Scortecci?” “Sim”, respondi. Antes que eu pudesse perguntar ou falar alguma coisa, o Arquimedes – esse era o seu nome – abriu um caderno velho e surrado e começou a declamar – em voz alta – versos de um longo poema sem fim. Tinha a voz forte, potente e boa retórica. Lembro-me de que juntou gente na Galeria. Incomodado, fiz sinal que interrompesse o recital, mas não fui atendido. “Estou quase terminando!”, justificou-se. Uma hora depois, Arquimedes, o de Taboão da Serra – não o matemático, filósofo, físico, engenheiro e astrônomo grego Arquimedes de Siracusa (287 a.C. – 212 a.C.) – encerrou, finalmente, sua performance. “Gostou?”, perguntou-me. “Não”, respondi. O tempo fechou! Márcia, a nissei, parecia assustada. Coincidência ou não, ela pediu demissão naquela mesma semana e nunca mais voltou. Escafedeu-se! Foi então que “descobri” a sutil “diferença” entre “obra-prima” e “magnum opus”. “Quer saber a diferença?”, perguntou-me. “Não precisa”, respondi. Arquimedes, então, declarou-se: “Sr. Scortecci, quero publicar a minha ‘magnum opus’!” O livro foi publicado. Demorou, mas saiu. Fiz para o autor uma condição especial. Arquimedes retirou os livros e sumiu. Não pagou pelo serviço. Meses depois, apareceu na editora e trouxe – embrulhado num saco de lixo – para pagar a sua dívida, um “tijolo baiano”, nome dado na época para aparelho de som, gravador portátil e toca fitas, tudo junto. Disse-lhe: “Não! Quero o dinheiro que você me deve!”. Arquimedes colocou o tijolo baiano no banco da recepção da editora e foi embora, em silêncio. Prometeu voltar – um dia qualquer – para fazer uma nova edição da sua “magnum opus” literária. Nunca mais soube dele. Levei o “tijolo baiano” para casa e lá ficou. Quanto ao Arquimedes, desconfio que se mudou de Taboão da Serra e voltou – imortalizado – para Siracusa, comuna italiana da região da Sicília, Itália. Teria dito, num bilhete em latim deixado na porta da editora: “Noli turbare circulos meos”, que significa “Não perturbe meus círculos”. A frase tem origem histórica e representa o desejo de não ser interrompido, nunca, principalmente quando um poeta estiver declamando a sua “magnum opus”.

João Scortecci

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