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OSSOS DOS PÉS E O GOL DE BICUDA

 Fui goleiro de um time infantil chamado “Coqueluche”. Numa final de torneio no campo de grama do Círculo Militar, tomei um frango e perdemos o campeonato. Isso na cidade de Fortaleza dos anos 1960. O time tinha um técnico: Lúcio, talvez. Ele dizia para nós, jogadores: “O pé tem 26 ossos! Na hora de chutar usem o osso certo! Osso para bater pênalti, osso para cobrar escanteio, osso para cruzar a bola, osso para passar a bola, osso para dominar a pelota, osso para fazer gol de placa e – o mais importante dos ossos do pé: osso para fazer gol de bicuda!”. Ronaldo Fenômeno, Romário, César Maluco, Pelé, Ronaldinho Gaúcho e muitos outros fizeram gols de bico. Gols inesquecíveis! Para fazer gol de bicuda, usam-se as falanges e os metatarsos! Risos. No ano de 2010, já morando na cidade de São Paulo, conheci – no portão da garagem da Scortecci Editora – o Francisco, ex-jogador de futebol. Foi ponta-esquerda de um time do interior paulista. Ferroviária? Talvez. Ele caminhava apoiado numa bengala, com ajuda de uma cuidadora, e eu, começando o dia, entrava na garagem da editora. Cumprimentei-o: “Bom dia!”. Ele respondeu, sorrindo: “Bom dia!”. Era também madrugador; fazia sua caminhada diária, na mesma hora em que eu chegava à editora. Ficamos amigos. Assunto principal: futebol. Um dia – do nada – perguntei-lhe, puxando conversa: “Francisco, do que você mais tem saudade no futebol?”. Esperava mil respostas: dos gols, das finais, das brincadeiras na concentração, dos gritos da torcida, dos amigos da bola, do bicho gordo depois das vitórias, qualquer coisa parecida com isso. Francisco me olhou e respondeu: “Saudade das mãos do massagista que lavava e massageava os meus pés!”. Risos. Continuou: “Hoje, aos 75 anos, não consigo mais me abaixar para lavar os pés. Sinto falta, sinto dores. Esfrego um pé no outro e fica por isso mesmo.”. Hoje, aos 70 anos de idade, tenho a mesma dificuldade para lavar os pés. Não consigo mais me curvar o suficiente para massagear e lavar os meus pés. Uma tragédia! Falta de óleo nas juntas. Esfrego, então, um pé no outro. É o que faço. A lavagem dos pés é um rito cristão (João 13:1-17), em que Jesus lava os pés de seus discípulos na Última Ceia, simbolizando humildade, serviço abnegado e amor ao próximo. Exagerando: deveria ter um lava-pés em cada esquina! Francisco, o boleiro, ponta-esquerda, faleceu em 2021. Entre nós, ficou no ar o grito do gol de bicuda. Gol de craque: com os 26 ossos do pé.

João Scortecci