O PIONEIRISMO DE JOÃO SCORTECCI
Uma vida, bem vivida, é exemplo gratificante de grandeza pessoal que, sem a menor sombra de dúvidas, serve de estímulos a muitos que ainda não se deram conta do muito que poderiam fazer pela humanidade.
Contudo, é necessário que se dê o primeiro passo e tenha a visão do que realmente deseja empreender. Para tal fim, há que acreditar no futuro promissor, com o peito destemido e a vontade de vencer pelos méritos pelo arregaçar das mangas – fatores preponderantes para construir um nome, uma organização.
Ao chegar aos 40 anos de existência com centenas de publicações, espalhando a cultura, dando espaços para os novos autores, reunindo poetas, contistas, cronistas, romancistas, enfim, enorme plêiade de entusiastas, João Scortecci escreve, na história editorial do Brasil, um nome consagrado que merece todos os maiores e mais largos encômios
Numa síntese biográfica desse editor, podemos aquilatar a sua trajetória de vida e os caminhos que ele percorreu, sempre acreditando no potencial da literatura e, principalmente, nos novos autores que buscam o seu espaço. Só por esta linha de trabalho e dedicação, podemos dizer de sua consagração num país que ainda, infelizmente, a leitura é coisa rara e, pelo que ele dedica e acredita muito, haverá mudanças. Cremos também piamente. Eis, pois:
Escritor, editor, gráfico e livreiro. Nasceu em Fortaleza, Ceará, em 1956. Veio para São Paulo em 1972, onde reside até hoje. Autor premiado (Prêmio do Sesquicentenário da Independência do Brasil e Prêmio Itajaí de Poesia) com 23 títulos publicados e mais de 40 edições. É Diretor Presidente do Grupo Editorial Scortecci, Presidente da Abigraf, Regional São Paulo, Membro do Conselho Eleito da CBL - Câmara Brasileira do Livro, Membro do Conselho Técnico Editorial do SNEL - Sindicato Nacional dos Editores de Livros, Editor do Portal Amigos do Livro e docente. Autor das obras: Relógio de Sol – coautoria; Papel Arroz – coautoria; Memória interior; A Morte e o Corpo; Água e Sal – Fragmentos de Tempo Algum; O Eu de Mim – Poema Ecológico; Na Linha do Cerol – Reminiscências Poéticas; Quase Tudo – Antologia Poética I; Guia Profissional do Livro; A Maçã que Guardo na Boca e Dos Cheiros de Tudo – Memórias do Olfato - entre outras.
A Editora Scortecci (Grupo Editorial Scortecci) é um exemplo vivo da dinâmica que o mundo livreiro vive nos tempos atuais. Esta dinâmica é vista pelas inovações por ela empreendida, mas que, na verdade, refletem o espírito de quem gosta, vive e se satisfaz em dar aos brasileiros de todos os quadrantes qualidade e beleza harmonioso do livro – fator indiscutível destes 40 anos da Scortecci.
As plagas cearenses estão jubilosas de dar ao Brasil e ao mundo uma figura exponencial que nos brinda, volta e meia, com obras expressivas e contribue com a cultura literário do nosso país.
Parabéns, João Scortecci, por acreditar no potencial de nossa gente e espalhar o livro, como diria Castro Alves: Oh! Bendito o que semeia Livros à mão cheia. E manda o povo pensar! O livro, caindo n'alma É germe – que faz a palma, É chuva – que faz o mar!
J. R. Guedes de Oliveira, ensaísta, biógrafo e historiador.
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CARTA DO POETA LINDOLF BELL
Caro João Scortecci.
De muitas maneiras, (e não tantas neste país), as pessoas resistem no ofício.
Recebi o livro de Maria Lúcia Pinheiro Sampaio que tua editora trouxe a público. Sem dúvida, um ponto de partida fundamental para um levantamento menos preconceituoso da poesia no Brasil.
Há muitos anos tento um espaço descentralizador da cultura brasileira no Sul (em Blumenau, Santa Catarina) e gostaria de receber esta obra para revender em meu espaço cultural.
Peço enviar condições, para iniciarmos um contato mais eficaz. Na próxima viagem a São Paulo tentarei avistá-lo. Por favor, se houver interesse de tua editora comunique-se.
Abraço fraterno.
Lindolf Bell.
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Abrigo Central, Praça do Ferreira e João Batista de Paula (Batista da Light)
Meu avô paterno, João Batista de Paula, o Batista da Light, morreu em fevereiro de 1968. Eu tinha 12 anos, incompletos. Era seu neto preferido, segundo minha mãe Nilce. Até hoje estamos ligados em pensamento - saudade imensa - e espiritualmente. A nossa história começou em 1962 quando ele me levou pela primeira vez para conhecer o Abrigo Central, no centro de Fortaleza, no coração da Praça do Ferreira, símbolo da cidade cearense.
O Abrigo Central, centro de convivência que abrigava pessoas que esperavam ônibus, uma pequena rodoviária, foi construído em 1949 e demolido em 1967, com a alegação de que estava ruindo e representava um perigo. Eu e meu avô Batista tomando café preto, sem açúcar, no Abrigo Central é a mais forte lembrança que tenho dele. Fomos a pé, da Av. D. Manoel 1086, onde morávamos, até o centro, na Praça do Ferreira. Uma boa caminhada. Eu tinha 6 anos de idade, ainda usava bermudas e dava os meus primeiros passos de independência.
Meu avô, já aposentado, ex-superintendente da Light, vestia-se com elegância e seus ternos de linho branco eram marca registrada. Brincavam, na época, que tinha apenas um único terno branco de linho. Batista qual o segredo: como você faz para ficar sempre alinhado e elegante? Puto da vida, respondia: Fico pelado enquanto tua mãe lava, seca e passa! Carregava pendurado no braço esquerdo - mesmo em dias de sol - o seu inseparável e clássico, guarda-chuvas.
Batista - era assim que gostava de ser chamado - era um contador de "causos". Suas histórias eram engraçadas e divertidas. Adorava contar histórias de mulheres. Seu repertório feminino era grande. Tinha de tudo: putas, vadias, vigaristas, tias, donzelas, raparigas, moças de família e santas. Naquele dia inesquecível da minha primeira visita ao Abrigo Central o lugar estava lotado de gente. Sempre assim vovô? Sempre, respondeu. O calor era sufocante e um cafezinho propunha refrescar o corpo. Foi o que ele me disse. Meu avô pediu dois cafés pretos, sem açúcar. Eu que até então só tomava leite morno, me vi encrencado. Ele bebeu quente, de um só gole. Eu esfriei o meu, assoprando para não queimar a língua. Naquele dia meu avô encontrou amigos, contou piadas e "bolinou" moças que passavam pela praça. Cumprimentava todas, sem exceção, com um delicioso tapinha no bumbum. Minha sobrinha, dizia. Elas sorriam. Hoje, se fizesse isso, seria linchado em praça pública e processado por assédio sexual. Um safado, segundo minha mãe. Seu avô adora um "rabo" de saia, justificava.
No caminho de volta para casa parávamos para comprar pão e queijo. Zé, dizia ele, quero um quilo de queijo sem buracos! A brincadeira era a mesma de sempre. Pedia em voz alta - em busca de atenção alheia - e piscava o olho para mim. Zé sorria e respondia: - Pode deixar seu Batista. Um quilo sem buraco bem pesado! A minha inocência durou anos até entender que era uma deliciosa brincadeira. No meu julgamento de criança o Zé era um tremendo pilantra que vendia queijo com buracos e roubava no peso. Fomos mais cinco ou seis vezes tomar café, sem açúcar, no Abrigo Central.
Logo depois meu avô adoeceu e nos despedimos para sempre do Abrigo Central. Sua doença - é o que diziam na época - era arteriosclerose. Tinham até uma explicação para a sua doença: feijão, farinha e toucinho! No final da vida - já recluso e impedido de sair de casa - brincávamos de tabuada, de jogar dama e gamão, de contar dinheiro de papel jornal (sua brincadeira preferida) e se balançar na sua cadeira de vime no terraço.
Meu avô Batista era um “apaixonado” por bundas. Devo isso a ele e aos meus melhores pecados. Quando uma "grande bunda grande" passava na sua frente ele sorria e dizia: Olha lá a Raimunda. Feia de cara e boa de bunda! As mulheres hoje, explicava, são foguetes. Não são mais princesas do céu. São foguetes de rabo quente e pegam fogo por nada. São capetas! Vovô João Batista de Paula, o Batista da Light, morreu em fevereiro de 1968 - véspera de carnaval - um ano depois da demolição do Abrigo Central.
João Batista de Paula, o Batista da Light e Sarah do Carmo Paula