O Abrigo Central, centro de convivência que abrigava pessoas que esperavam ônibus, uma pequena rodoviária, foi construído em 1949 e demolido em 1967, com a alegação de que estava ruindo e representava um perigo. Eu e meu avô Batista tomando café preto, sem açúcar, no Abrigo Central é a mais forte lembrança que tenho dele. Fomos a pé, da Av. D. Manoel 1086, onde morávamos, até o centro, na Praça do Ferreira. Uma boa caminhada. Eu tinha 6 anos de idade, ainda usava bermudas e dava os meus primeiros passos de independência.
Meu avô, já aposentado, ex-superintendente da Light, vestia-se com elegância e seus ternos de linho branco eram marca registrada. Brincavam, na época, que tinha apenas um único terno branco de linho. Batista qual o segredo: como você faz para ficar sempre alinhado e elegante? Puto da vida, respondia: Fico pelado enquanto tua mãe lava, seca e passa! Carregava pendurado no braço esquerdo - mesmo em dias de sol - o seu inseparável e clássico, guarda-chuvas.
Batista - era assim que gostava de ser chamado - era um contador de "causos". Suas histórias eram engraçadas e divertidas. Adorava contar histórias de mulheres. Seu repertório feminino era grande. Tinha de tudo: putas, vadias, vigaristas, tias, donzelas, raparigas, moças de família e santas. Naquele dia inesquecível da minha primeira visita ao Abrigo Central o lugar estava lotado de gente. Sempre assim vovô? Sempre, respondeu. O calor era sufocante e um cafezinho propunha refrescar o corpo. Foi o que ele me disse. Meu avô pediu dois cafés pretos, sem açúcar. Eu que até então só tomava leite morno, me vi encrencado. Ele bebeu quente, de um só gole. Eu esfriei o meu, assoprando para não queimar a língua. Naquele dia meu avô encontrou amigos, contou piadas e "bolinou" moças que passavam pela praça. Cumprimentava todas, sem exceção, com um delicioso tapinha no bumbum. Minha sobrinha, dizia. Elas sorriam. Hoje, se fizesse isso, seria linchado em praça pública e processado por assédio sexual. Um safado, segundo minha mãe. Seu avô adora um "rabo" de saia, justificava.
No caminho de volta para casa parávamos para comprar pão e queijo. Zé, dizia ele, quero um quilo de queijo sem buracos! A brincadeira era a mesma de sempre. Pedia em voz alta - em busca de atenção alheia - e piscava o olho para mim. Zé sorria e respondia: - Pode deixar seu Batista. Um quilo sem buraco bem pesado! A minha inocência durou anos até entender que era uma deliciosa brincadeira. No meu julgamento de criança o Zé era um tremendo pilantra que vendia queijo com buracos e roubava no peso. Fomos mais cinco ou seis vezes tomar café, sem açúcar, no Abrigo Central.
Logo depois meu avô adoeceu e nos despedimos para sempre do Abrigo Central. Sua doença - é o que diziam na época - era arteriosclerose. Tinham até uma explicação para a sua doença: feijão, farinha e toucinho! No final da vida - já recluso e impedido de sair de casa - brincávamos de tabuada, de jogar dama e gamão, de contar dinheiro de papel jornal (sua brincadeira preferida) e se balançar na sua cadeira de vime no terraço.
Meu avô Batista era um “apaixonado” por bundas. Devo isso a ele e aos meus melhores pecados. Quando uma "grande bunda grande" passava na sua frente ele sorria e dizia: Olha lá a Raimunda. Feia de cara e boa de bunda! As mulheres hoje, explicava, são foguetes. Não são mais princesas do céu. São foguetes de rabo quente e pegam fogo por nada. São capetas! Vovô João Batista de Paula, o Batista da Light, morreu em fevereiro de 1968 - véspera de carnaval - um ano depois da demolição do Abrigo Central.
João Batista de Paula, o Batista da Light e Sarah do Carmo Paula
João Batista de Paula, o Batista da Light, nasceu na cidade de Quixadá, estado do Ceará, em 26 de março de 1895. Filho de José Ferreira de Paula Filho e Maria Carminda do Carmo Paula, ambos analfabetos e trabalhadores rurais.
No ano de 1919 casou-se com sua prima legítima, por parte de mãe, Sarah do Carmo Paula (09/07/1894).
Batista e Sarah do Carmo Paula, mais velha que Batista alguns meses, tiveram três filhos: Margarida Maria de Paula Ventura (26/09/1919), Luiz Gonzaga do Carmo Paula (19/02/1923) e João Batista de Paula Filho (28/07/1925).
Batista começou a trabalhar com 12 anos de idade quando deixou a casa de seus pais, em Quixadá, para ser caixeiro da mercearia de Pedro Gurgel do Amaral, em Senador Pompeu, uma pequena cidade com 30 mil habitantes, localizada às margens do Rio Codiá, no coração do Ceará.
Dois anos depois, em 28 de junho de 1909, mudou-se para Fortaleza. Empregou-se na Casa Correia. De lá saiu para a Casa R. Guedes que funcionava no antigo local do Cartório Pergentino Maia. Com dezessete anos, no ano de 1912, foi admitido pela South América, no serviço de recebimento de material para a instalação da Usina do Passeio Público e as linhas de bondes, com o salário de 150 mil réis por mês. Seis meses depois passou a ganhar 200 mil réis.
A South América durou pouco. Construiu alguns trechos da Estrada de Ferro de Baturité, mas em novembro de 1913, faliu e Batista foi demitido.
No ano de 1914, Batista conseguiu emprego de Almoxarife na Ceará Light (Ceará Tramways Lyght and Power Cº Ltd) que no ano de 1911 havia celebrado com a municipalidade um contrato por 75 anos para a implantação e exploração de bondes a tração elétrica, na cidade de Fortaleza. O seu salário inicial como Almoxarife era de 250 mil réis.
Foi caixa durante seis anos. Depois chefe do tráfego, chefe do escritório, assistente do gerente e, finalmente, em 26 de setembro de 1934, gerente. Foi gerente durante vinte anos.
O Bonde Elétrico
No dia em que o primeiro bonde elétrico chegou a Praça do Ferreira vindo de Joaquim Távora, o povo, debaixo das árvores, o recebeu com oração.
Alguns passageiros sentavam-se no banco do bonde, davam uma cédula de cinco mil réis ao condutor e diziam, sem pressa. - Quando acabar, me avise.
O ponto central dos bondes elétricos era na Praça do Ferreira, no centro de Fortaleza. Partiam de 10 em 10 minutos, para as seguintes linhas: Estação (Joaquim Távora), Benfica, Prainha, Outeiro (Santos Dumont), Fernandes Vieira (Jacarecanga), Mororó (Soares Moreno), Via-Férrea, Alagadiço (S. Gerardo) e Matadouro (Farias-Brito).
O trafego era de aproximadamente 20.800 metros. Começava às 5h30 da manhã e se prolonga até 22h30 da noite, nos dias úteis, e até às 23h00 horas, aos domingos e dias santificados.
O serviço de bondes era feito com 52 carros e transportava por ano, perto de 27 milhões de passageiros.
O Escritório Central da Ceará Light funcionava em prédio próprio na rua Dr. João Moreira, no número 143, esquina da Rua Floriano Peixoto, em frente ao Passeio Público.
Nos seus diversos departamentos a Ceará Light empregava cerca de 800 operários, assim distribuídos: Escritório Central - 110; Tráfego - 220; Usina - 230; Oficinas - 130; Via Permanente - 50; Linhas aéreas - 50.
Usina de Energia Elétrica
A Usina para fornecimento de energia elétrica a domicílio, foi construída pela Ceará Light em 1912, com duas máquinas de 500 quiluotes (corrente contínua) e duas de 250 quiluotes (também corrente contínua).
Em 1927, iniciou-se o fornecimento de correntes alternadas de 1250 quiluotes.
Em 1932, instalou-se nova usina de 2.000 quiluotes, em 1938, a terceira unidade de 3.000 quiluotes.
Três foram as caldeiras. Em 1927, compraram mais uma, junto com a turbina de 1.250 quiluotes.
Em 1932, duas outras, com a turbina de 2000 quiluotes. E finalmente em 1945, a última caldeira.
Os Ingleses da Ceará Light
O primeiro gerente inglês da Ceará Tramways Lyght and Power Cº Ltd foi Mr. Mackenzie, presente na companhia desde os tempos da instalação. Pouco antes da guerra de 1914, foi contemplado com um prêmio da Loteria da Espanha. Deixou a companhia, tomou um navio e voltou para Londres. Foi lutar na guerra e morreu logo depois.
Veio substituí-lo Mr. Scott que morou em Fortaleza de 1913 a 1932. Era filho de padre Anglicano e genro de bispo.
O último gerente inglês, Mr. Hull, Consul Britânico, manteve-se no cargo, até 1934, quando uma lei brasileira o proibiu do exercício da função. Mr. Hull fazia parte da diretoria da Light em Londres e ficou com o título decorativo de diretor local.
Batista assumiu o comando como Gerente da Ceará Light a partir de 1934.
No dia 1° de junho de 1946, por solicitação do próprio Batista, foi decretada pelo governo Federal, a intervenção na Ceará Light, sendo nomeado interventor o capitão Josias Ferreira Gomes.
Motivos: O encarecimento do material de conservação e reparação, o crescente aumento dos salários e a recusa dos poderes públicos de autorizar o aumento das tarifas de passagens.
Batista permaneceu na gerência da Ceará Light por 42 anos, oito meses e seis dias até sua aposentadoria no dia 31 de dezembro de 1954, com sessenta anos de idade.
Antes de se aposentar Batista ainda colaborou com todo o seu esforço, prestígio e dedicação, para a construção da usina termelétrica de Mucuripe, em março de 1955.
João Batista de Paula, o Batista da Light faleceu no dia 16 de fevereiro de 1966, às 23h50, no Hospital SOS, vítima pneumonia. Tinha 71 anos de idade. Seu corpo foi velado na sua residência na Av. D. Manoel, número 1088, e sepultado no dia 17 de fevereiro, às 16h00, no jazigo da Família Paula, no Cemitério São João Batista.
João Scortecci
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O Batista da Light
Chamava-se Batista, João Batista de Paula, ou melhor - o Batista da Light, como era conhecido e gostava de ser tratado.
João Scortecci tinha pelo seu avô (falecido em 1967) verdadeira adoração.
Batista da Light dispensa qualquer comentário. Hoje, sobre a presença da Light, em nossa cidade, Transporte farto, barato e acima de tudo popular.
Gerenciava a Light, em Fortaleza a figura por demais conhecida de Mr. Scott. Inglês, com aquela austeridade de seu povo, aquele britânico marcou pontos positivos na vida da cidade da menina.
Era seu lugar tenente, na administração da ferrocarril, um cidadão vindo de Quixadá que dada as suas qualidades excepcionais de empresário, foi nome muito conhecido e detentor de excelente conceito, não só no local de trabalho, como também na sociedade de Fortaleza.
Certa feita ele mesmo confessou que se lhe fosse dada alguma homenagem póstuma no caso, o nome de uma rua, queria que se chamasse Rua Batista da Light. Evidenciava, assim, o seu amor ao trabalho, à firma em que empregava atividades, enfim, à Light.
São saudosos os tempos dos bondes para o Alagadiço, Benfica, Outeiro, Fernandes Vieira, Soares Moreno, Joaquim Távora, Estação Bonifácio, Praia de Iracema, Via Férrea, Jacarecanga, Prado e outros.
Batista era ligado, por laços de família ao saudoso Demócrito Rocha. Desfrutava, nesta capital de elevado conceito e gozava de muita popularidade.
Seria oportuna, agora, uma homenagem póstuma ao Batista da Light, perpetuando o seu nome, em uma rua de Fortaleza sugestão esta também, extensiva ao Mr. Scott.
Com a palavra o conceituado vereador - Antônio Azin, homem bastante equilibrado e que gosta de tratar de assuntos desta espécie.
Cordialmente.
Alirio de Assis
The Ceará Tramway, Light & Co. Ltd., com sede na cidade de Londres, Inglaterra e escritório central no Boulevard Visconde do Rio Branco onde estacionavam os seus bondes, foi a famosa empresa de transportes coletivos de Fortaleza iniciada na década de 10 e extinta no início dos anos 40, fruto aliás da irresponsabilidade dos governantes da época.