"NA LINHA DO CEROL" DE JOÃO SCORTECCI POR LEONTINO FILHO
Parabéns pela beleza poética de Na Linha do Cerol.
Seus versos carregam a gravidez da terra e da gente em cada passagem lida. A infância prenhe de alegria e de fascínios nos remete ao infinito universo da ternura e da solidariedade. Você é terno, saudosista, sensível e altamente poético sem ser piegas.
Aventurar-se nos meandros da memória é um risco, pois, das pequeninas lembranças que amontoamos em nossa mente, poucas são (d)escritas com a verdadeira face das vivências. Em seu livro, percorremos o perigo da travessia que sinaliza para uma vida mais harmônica e fraterna.
O vidro amassado/colado à linha — voa livre como os nossos sonhos. Todo voo é risco, todo ar é risco... toda linha é caminho, todo cerol nos acompanha como espinhos de uma aventura que tentamos vencer.
Leontino Filho
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"A MAÇÃ QUE GUARDO NA BOCA" DE JOÃO SCORTECCI POR LUIZ JORGE
Li - A maçã que guardo na boca. Um poema grande e um grande poema. Feito como louvação a corpos, sensações, posses, e por fim apaziguamentos. Lúdico. Um turbilhão de pequenos detalhes agigantados na interação entre o microcosmo do corpo, e o macrocosmo do que o cerca como moldura para o momento da paixão. João Scortecci é um homem feito da somatória de muitos rumos. O que se reflete por inteiro no poema. Este precisava ser escrito. E muito mais, lido em todas as possibilidades em que o desejo avassala apaixonados.
Luiz Jorge. Medico. Poeta.
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"NA LINHA DO CEROL" DE JOÃO SCORTECCI POR OSVALDO LOPES DE BRITO
E o segundo apresentador, Caio Porfírio Carneiro, observa que Na Linha do Cerol, ao longo dela, desfilam, em traços elípticos, instantâneos vários, como num jogo de cartas dispersas, lá da infância perdida...
E ambos, em várias páginas, elogiam o escritor e o memorialista. De fato, o mesmo que aconteceu comigo. Gostei do jeito de João Scortecci narrar sua vida, desde a infância, e do estilo literário, muito bem apoiado pelas gravuras.
No enredo, o cenário é a cidade de Fortaleza (CE), em 1964. Fala de sua infância depois de 25 anos passados em seu exílio das plagas paternas. Com amor e carinho.
Apenas para o leitor ter uma ideia mais precisa do tema e do seu modo descritivo, transcrevo algumas linhas:
Lá fora, no pátio de ser menino inocente
brinco de marcha-soldado-cabeça-de-papel
no golpe revolucionário dos fatos
que é verde em tudo.
Osvaldo Lopes de Brito
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"NA LINHA DO CEROL" DE JOÃO SCORTECCI POR LÍLIA A. PEREIRA DA SILVA
Mais tarde, das quermesses no chão de paralelepípedos, a lamparina no pensionato, as pererecas assustando.
O autor derrama sensualidade das suas primeiras emoções em Margarida (que moía carambolas maduras na prensa de suas coxas), em Rita Twist de corpo aveia e em Teresa (Mistura de rapadura e água de coco. (...) Teresa foi assim. De pé).
João Scortecci tem, na sua pureza de menino, a presença do muçum preto que pode sair da toca, mas a certeza de que Não há sangue. Medo e confiança.
O poeta substitui em versos toda sua autobiografia. Nada mais agradável do que lê-la em tão poucas palavras.
Lília A. Pereira da Silva
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"A MORTE E O CORPO" DE JOÃO SCORTECCI POR ADELAIDE HERRA
Página 9: evasão de mim
Página 12: jardim de revolta amordaçada
Página 16: o poema inteiro
Página 22: versos, ganchos de escuta
Página 25: retrato, tudo antigo e profundo, ensinando-me coisas
Página 28: o poema inteiro
Página 33: pedaços de morte podem dividir o corpo
Página 40: o poema inteiro
Página 46: o poema inteiro
Página 47: dor física em Alfa, que dói pelo mestre
Página 72: um poema terrível
Página 75: o poema inteiro
Em busca de uma impressão geral, faço ao próprio livro algumas perguntas:
1. Como se configura a morte, neste livro? Dia único. Segredos jurados de morte. Banho de rosas de cheiro. Silêncio absoluto das locomotivas. Mecanismo organizado. Sede incomum liberta do corpo. Efervescência de fumos. Último silêncio da lembrança. Folhetim envesso. O velho, longe do nome que o envelhece.
2. E o corpo, como aparece? Dentro dele, a morte. Ícaro. Fatia da dúvida com a narrativa do dever. Corda de laços. Movimentos e anarquia. Estorvo da forma. Flauta alvejada pela morte. Pouso de altura duvidosa.
3. E onde faíscam eu, meu, minha? Logo na dedicatória, meus filhos. No poema de abertura: o corpo do eu além corpo, na evasão de mim. Meu corpo de segredos. (Eu) Falo da flor roubada. (Eu) conheço o corpo. A cor do eu em mim. Um retrato ensinando-me coisas. A menina arrisca-se com a minha sede. Face ensinando-me o banho. Coloridos da minha escolha. (Eu) te vi cega, (eu) te vi única. (Eu) duvido da dor física em Alfa. (Eu) bebo da fonte. (Eu) tenho dor no corpo. Veio ocupar-se de mim. Foi o que (eu) fiz. (Eu) busco lágrimas. ...para o corpo da minha vontade.
4. E quanto à forma, qual é a deste poeta? Pronomes e possessivos de 1a pessoa, raros. Você e tu, mais raros ainda. Escrita, a mais econômica possível. Adjetivos de vez em quando. Frases curtas. Verbos elididos ou infinito impessoal. Substantivos, frequentíssimos. Exemplo, poemas 18, 27 e 45.
Então, a impressão geral que fica da primeira leitura é esta: Grande impessoalidade na linguagem. Realismo quanto à morte. Objetividade quanto ao corpo. Sensibilidade para episódios do quotidiano. Memória de violências, angústias, tristezas, injustiças. Sentimento sob o controle da reflexão. Julgamento duro porque essa realidade é dura. Talvez, lendo seu livro mais vezes, minha campainha toque para outros versos, me alerte para outras descobertas. Senti falta do lírico. Livro incomum este porque, numa era de corpo-demais e de alma-de-menos, traz o sentimento e a reflexão sobre a morte, e a criação de imagens singulares:
Última vontade de Escorpião,
coser vestido de noiva.
Nada que não possa ser curado pela morte
diante da doença do corpo.
Vírus da morte, para os brincos
do corpo festivo.
Vendida à morte,
a língua sabe do punhal ferido.
(ao lado, um desenho terrível)
Seu livro é um enfoque sobre o corpo, vivente e cadáver, a ponto de soltar-se da alma. Para o último dos terminais, foi partida mesmo, para nunca mais voltar. Eu, entretanto, gostaria de saber mais sobre o depois-daqui. Vejo horror na morte, mas também, antinomia do horror, a maciez.
Com o apreço e o dilema de não julgar,
Adelaide Herra
São Paulo, 27 de julho de 1995.
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ÁGUA E SAL DE JOÃO SCORTECCI POR STELLA LEONARDOS
Meu Caro João Scortecci,
Muito grata pelo envio de Água e Sal - Fragmentos de Tempo Algum.
Boa poesia. Concisão, Imaginação. Sensibilidade.
Gostei em especial desse poema de brilho e movimento:
Freios e músculos
são do cavalo
ali na parede nua
Ele se foi ontem
e hoje ainda
corre na parede
da sala.
Gostei do livro inteiro, aliás.
Abraço fraterno da
Stella Leonardos
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"POESIAS, POETAS E POEMAS" DE JOÃO SCORTECCI POR IZACYL GUIMARÃES FERREIRA
João Scortecci o seu trabalho de editor de poesia tem as marcas pessoais do esforço, do estímulo, do sucesso. Como o planejou? O que está planejando?
É verdade. Vejo no meu trabalho marcas do esforço, entusiasmo, dedicação e amor aos livros. Vejo também sorte, muita sorte! Uns chamam isso de estrela, bunda virada para a lua, algo assim. Acabei - ao longo dos anos - construindo uma fábrica de sonhos... que me transformou em um empresário tipo girafa, obrigatoriamente com os pés no chão e a cabeça no mundo da lua. É o meu EU em estado sólido. Vivo isso 24 horas por dia. No início, lá no ano de 1982, quando nasceu a Scortecci, não havia planejamento ou estratégia alguma. Nem poderia. Dizer que sim é falar uma bobagem. Entusiasmo sim! Objetivos e planos somente depois do primeiro ano, quando tinha no catálogo pouco mais de 40 títulos e desejava sobreviver.
Na cabeça coloquei um único sonho: editar, imprimir e comercializar livros em pequenas tiragens. Esse foi, é e será sempre o caminho das pedras e o segredo de sucesso da Scortecci. A minha opção de lucidez. Às vezes erro feio e devoro capim feito jumento - até sapos. Com o tempo descobre-se que o gosto não é tão ruim assim. Melhor engolir e buscar o próximo banquete. Costumo comer com farinha. Dizem - não sei se é verdade - que absorve melhor a gordura e a pobreza de espírito. A Scortecci nasceu do meu amor pelos livros. Isso me parece claro. Sem amor e dinheiro nada funciona no mundo dos justos. Cresci em uma família de leitores e no meio de uma imensa biblioteca. Monteiro Lobato, Machado de Assis, José de Alencar, Fernando Sabino, outros, eram assunto de todas as horas. Meu Pai Luiz Gonzaga adorava coleções e dicionários. Minha mãe Nilce Scortecci as obras completas de Carlos Lacerda. Meu avô José Scortecci foi proprietário da Revista PAN, isso em 1941. Era dele a revista que teve a honra de publicar o texto de estréia "triunfo" de Clarice Lispector. Experiência mesmo de editor quase nenhuma. Aprendi bastante na Presidência do Grupo Poeco (1978-1982), embrião da editora. Deus não veio na calada da noite e me disse no pé do ouvido: Filho, vai ser editor! Isso, infelizmente, não aconteceu. Prefiro achar que tive muita sorte. A oportunidade veio veloz - risco o céu - e eu me agarrei no rabo do cometa com força e garra. Vai ver que estava escrito nas estrelas... Não tenho tantas certezas, opiniões e verdades na ponta da língua. Estou perto dos 50 anos e isso mexe com a minha razão. Passei a gostar também dos fracos, dos medrosos, dos calados, dos feios e dos covardes. Com eles aprendo sempre. Joguei fora o retrovisor dos meus próximos passos. Descobri que também sou amigo do rei.
Que sentido dá aos concursos que realiza? Como os compara com os outros?
Não os comparo. Autor quer ter o seu livro publicado, vender muito e ficar famoso. Nada abaixo disso adoça a boca da cobra mãe. O Prêmio Literário Livraria Asabeça, já no seu terceiro ano, já foi no passado Prêmio Scortecci de Poesia. Mudou apenas de nome. Já devo ter realizado no total uns 10 concursos e publicado mais de 50 antologias. Outro dia dei uma olhada nos números: devo ter publicado mais de 1500 autores em antologias. Gosto muito de organizá-las. Foi assim que um dia me vi poeta. A idéia principal de um concurso é descobrir e revelar novos talentos. Tirá-los da toca. Isso movimenta uma editora e agita o meio literário. Não abro mão de oferecer ao vencedor a edição de um livro. Quem organiza sabe do trabalho imenso que dá. Um exagero de sufoco. Compensa? Claro que sim. Na hora de divulgar o resultado sempre fico de olho nas caras feias que recebo de contra golpe no olhar. Alguns certeiros. Morrer é preciso! Resta-me dizer a título de consolo: hoje quero uma cara muito feliz! Ajuda aliviando a tensão que é de tirar o fôlego. Até que nos últimos anos a coisa ficou mais suave. Hoje tenho colaboradores fiéis, funcionários dedicados, gente que me ajuda e muito. Agradeço sempre. Adoro o jogo da premiação, da seleção, da escolha do vencedor. É com certeza o momento mais importante na vida de um escritor. É a magia do reconhecimento batendo à porta. É a glória! Outro dia li um depoimento da Hilda Hist, que infelizmente veio a falecer no início deste ano, onde ela falava de sua mágoa de não ter sua obra reconhecida pela crítica e pelo grande público. Muito triste. Logo ela que foi uma poeta ímpar. São as derrotas ruins da vida. As inúteis. Nada se aprende com elas. Melhor esquecer e tirar da cabeça do prego.
Como ex-vice-presidente e membro da Câmara Brasileira do Livro, como julga seu passado, como vê seu futuro?
Fui feliz na CBL. Foram 8 anos incríveis! Trabalhei muito e realizei grandes projetos. Aponto dois deles: equilíbrio financeiro da entidade com superávit de caixa e a minha atuação na Comissão Nacional de Incentivo a Cultura, MinC, Área de Humanidades, Lei Rouanet. Na verdade lá na CBL fui um soldado. Fiz essa opção já no primeiro dia quando lá cheguei. Convivi com gente importante do mundo do livro. Fui também Diretor-Adjunto em duas gestões. Ajudei a organizar 4 bienais. Fiz parte da diretoria que comprou a nova sede da entidade. Tenho muito orgulho disso. Perdemos as últimas eleições. Faz parte. No coração a sensação do dever cumprido. Totalmente realizado. Você me pergunta sobre o futuro. Na CBL? Devagar com a sorte. Estou confortável no meu lugar. Não sei até quando. Mas muito confortável.
Como ex-diretor e sócio da União Brasileira de Escritores, o que acha que nos falta para melhor representar-nos?
Pergunta perigosa. Darei uma resposta com o coração. Não vou colocar minhas mágoas na balança. Seria deselegante. A UBE tem jeito. Não é retórica. Quando lá estive lutei muito, mas não consegui mover uma palha sequer. Arranjei tanta briga que tive um colapso nervoso. Minhas idéias eram profissionalizar a entidade. Não encontrei apoio. Até hoje, depois de muitos anos, os problemas são os mesmos. Falta dinheiro, quadros, grandes projetos e muita coragem. Sem isso não se chega a lugar algum. Deixei a diretoria da entidade muito triste e frustrado. Derrotado. Fui incapaz de ajudar. Respeito muito os que lá estão e continuaram na luta. Alguns heróis. Sou sócio da entidade desde 1978. Convivi com Fábio Lucas, Antonio Possidônio Sampaio, Ricardo Ramos, Lygia Fagundes Telles, Antonio Callado, Anna Maria Martins, Ruth Rocha, José Carlos Garbuglio, Ênio Squeff, Caio Porfírio Carneiro, Samuel Penido, Geraldo Pinto Rodrigues e muitos outros, verdadeiros companheiros. Esquecê-los jamais. São ícones na história da entidade. Uma hora vai aparecer um grupo forte, unido, determinado, que vai virar o jogo e levantar a UBE. É o meu desejo. Um dia - se Deus quiser - eu volto. Isso quando eu for somente um poeta desinteressado. Agora na condição de empresário "tubarão" fica difícil. Sei que a minha presença na entidade incomoda alguns companheiros. Eles ainda não perceberam que o segredo está na pluralidade de idéias e ações. Estão na contramão. Se nós, editores, livreiros, gráficos, distribuidores, governo, e outros, somos os verdadeiros inimigos do escritor - é o que muitos dizem e acham - nada melhor do que nos ter por perto, em vigília e tocaia. Dias melhores virão. Tenho certeza absoluta disso. O que nos falta? Profissionalizar a entidade. Urgente! Sair do armário. Colocar a cara para bater. Respondi? Até lá ajudo não atrapalhando o sacrifício de poucos.
Você foi conselheiro do Ministério da Cultura. Avalie o cenário atual?
Fui. Hoje sou um suplente. Um reserva. Não participo mais ativamente com antes e no início. Viajei tanto que fiquei com trauma de avião. Meu trabalho termina, definitivamente, em abril de 2006. Já estão convocando as entidades que indicam os conselheiros. Estou na CNIC desde 1997. Foi a minha experiência de governo mais valiosa. O Gil tem sido uma surpresa boa. Mesmo depois do que aconteceu no seu Ministério e ainda está por acontecer. É o que fofocam...Tenho certeza que ele vai superar tudo e voltar com força total. Não desista Gil! Força! Antes não gostava dele. Antipatia quase que total. Hoje tenho admiração e muito respeito pelo trabalho que ele vem desenvolvendo. Se sair será uma grande perda. Ele me conquistou sem dor. Teremos muitas mudanças na Lei Rouanet. Estarei atento e disposto a colaborar. Algumas centenas de projetos passaram por mim. Aprendi muito e hoje tenho uma opinião interessante sobre a Lei. Resta saber se vão ou não me chamar.
E o poeta João Scortecci? Diga o que acha da poesia que se faz no Brasil hoje. Fale sobre seus escritos: intenções, projetos.
O João poeta também é agitadíssimo. Sou naturalmente um sujeito ansioso, agitado, cheio de manias, rápido e muito feroz. Quando estou delirando a coisa pega feio. Fico insuportável. Minha doçura vai para o espaço. Paciência zero. Quem me conhece sabe como lidar comigo. Estou escrevendo um novo livro. Chama-se A Poesia das Idéias. Inicialmente era para a bienal do livro de 2004. Não sei se até lá termino. Acho que não. Está travado. Aguardo aquele traço mágico de lucidez. Já fechei as gavetas, os armários, já lambi o chão, já dormi de janela aberta e até agora o encanto não veio. Resta esperar. Você me pergunta sobre a poesia de hoje. Ela mudou muito quando comparada com a que fazíamos nos anos 70. Isso todo mundo já sabe. Vejo hoje vários movimentos brotando aqui e acolá. Grupos. É assim que a coisa começa. Lentidão progressiva e explosiva. Sinto também um ar de liberdade maior. Menos engajamento filosófico, coisa desse tipo. Isso é muito bom. Que ela - a poesia - continue indomável. É o que sempre espero. Cumplicidade e traição crítica. Nada melhor que um verso perigoso escapulindo de uma boca no cio. Quando a gente menos espera surge um bom poeta e com ele mais uma legião de sopros. É assim que se faz uma ventania. Um tufão. Um furacão. É isso ai. Já falei muito. Se continuar sou capaz de reler tudo e desautorizar a entrevista. Não gosto muito de ficar passando cerol na linha. Prefiro arrepiar a pipa e lancear. Prefiro o vôo rasante que o papocar da linha e do barulho do carretel solto entre os dedos do destino. Questão de gosto. Questão de sorte.
Izacyl Guimarães Ferreira
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NA LINHA DO CEROL DE JOÃO SCORTECCI POR SAMUEL PENIDO
Há um olhar para trás, sim, mas um olhar que procura fixar toda uma atmosfera de iniciação nos mistérios da vida, através do filtro da memória. Memória que privilegia o ponto de vista da criança, excluindo assim tudo que possa vir a parecer recriação arbitrária da idade adulta. Daí a inegável autenticidade das lembranças e imagens que se sucedem, página a página, como que resgatadas do subconsciente de alguém que tivesse carregado anos afora, intato, o mundo de sua infância.
Trata-se de reminiscências, como faz questão de registrar o poeta no subtítulo da obra, porém, reminiscências de verdade — não encobertas pelo véu da fantasia. Distantes, portanto, de um certo tipo de memorialismo que tende a transformar o tempo da infância em pura ficção, impregnada quase sempre de tons angelicais.
Na Linha do Cerol não apresenta semelhante deformação. No espelho das reminiscências de João Scortecci, a infância irrompe em toda a sua nudez e complexidade: por um lado, sente-se a presença de uma aura de inocência e descompromisso, por outro, toques de malícias, astúcia e mesmo sensualidade.
Reavivando personagens de sua infância, episódios de determinada época (anos 60), flagrantes da cidade natal (Fortaleza), João Scortecci faz história por intermédio do verso. E é como se trouxesse à tona um passado ainda recente, um modo de vida que hoje não existe mais. O texto tem passagens saborosas, suscitando não raro uma sensação de estranhamento pela feliz utilização de termos próprios do universo infantil, às vezes regionais.
O poeta, que sempre foi um praticante da expressão enxuta, a ela permanece fiel em Na Linha do Cerol. Mais: avança no processo de contenção, além de valer-se com maior frequência de símbolos e alusões, sem qualquer prejuízo para a clareza da escrita. Antes, a economia de meios é valorizada por uma maior transparência da linguagem, em comparação com suas obras precedentes.
A título de ilustração, segue-se o último poema do volume:
E por que a arraia não alçou voo?
Não há respostas
para o passado.
Hoje diria: faltou-me água espraiada do Pajeú.
Poção mágica.
Com ela pude fazer a maior das arraias
de lancear arrepios
até então adormecida em reminiscências
Na Linha do Cerol.
Os prefácios, assinados por Fábio Lucas e Caio Porfírio Carneiro, iluminam o texto de forma a realçar-lhe as qualidades ostensivas, bem como aquelas menos aparentes.
Na Linha do Cerol é livro que merece ser lido e relido. João Scortecci imprimiu às suas evocações da infância coesão, graça e dinamismo fora do comum.
Samuel Penido
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"NA LINHA DO CEROL" DE JOÃO SCORTECCI POR CAIO PORFÍRIO CARNEIRO
Na Linha do Cerol, ao longo dela, desfilam, em traços elípticos, instantâneos vários, como num jogo de cartas dispersas, lá da infância perdida. Na Linha do Cerol deixou eternizada no céu da meninice a arraia altaneira, mas enovelou no carretel da existência momentos exatos vividos, espelhados com tanta precisão e magia que cada segmento dos quarenta e oito que compõem o livro é um retorno completo ao passado.
Cada módulo - digamos assim -, embora exponha uma face explícita e fotografia do tempo de menino, de miniconto, de documento, de reportagem... Uma amálgama só de muitos ingredientes, arco amplo que bordeja até o simbolismo, pleno daquele explosivo explícito referido – a uma reminiscência. Explosivo porque cada lembrança pinçada é uma detonação que vai fundo, resolve tudo, em extensão enorme para tão poucos versos. Porque são versos, que alcançam às vezes a linha do desabusado, como em Bandeira, mas nada igual a Bandeira, porque aqui não há o caricato.
Toda a poesia de João Scortecci possui esse traço, mais liberto aqui que nos anteriores livros do gênero porque este tema pede fôlego menos contido. Mas é o mesmo. Não é só o poeta da concisão. O seu achado é filosófico e de uma objetividade que leva ao impacto. Às vezes ele simplesmente conta, parte outras tantas quase para ferir, e, insuspeitamente, talvez intuitivamente, num imprevisto que encanta, precipita-se para o haicai.
O seu como dizer é bárbaro, nascido das raízes da terra; lírico, marca sensível dos habitantes da região; objetivo e fugidio, prosaico e psicológico, num balancear poético bem dele, onde não falta, e nem poderia faltar, o sopro simbólico. E mais. Quando necessário é indireto, esse despiste que vai do amor à observação crítica velada.
Como citar exemplos que comprovem esta variação mágica se ela é constante? Centrado o livro no papagaio lá no céu, que lhe dá lenitivo de vida e lhe devolve à infância, em torno dele – papagaio – a geografia da cidade (Fortaleza do seu tempo) se espalha, espelha-se e adquire vida cinematográfica. Tudo muito rápido, numa espécie de marcação cênica de pontos e contrapontos. Um espargir de tonalidades fortes. O Rio Pajeú – Canal polonês que corta a cidade / e as pessoas -, a quermesse na Praça Coração de Jesus, o Colégio Cristo Rei, as peraltices, as incontinências e irreverências dos primeiros arroubos eróticos, a figura popular do Frei Ambrósio, que toda a cidade conheceu, tudo vai e vem através de um visor límpido, levado e vindo pelas mãos do menino que solta aos ventos a sua arraia. Cada passagem é tão agudamente essencial que toda a vida do aluno peralta no Colégio Cristo Rei – e ela está lá por inteiro – reduz-se a meia dúzia de versos soltos. Margarida, a doce Margarida, tão dadivosa e tão ávida de caminhos pela vida e pelo mundo, é personagem inteira e acabada. Sua história triste e humaníssima deixa, neste livro, e para sempre, um rastro de saudade. O autor, para contá-la, valeu-se de pouquíssimas pinceladas:
Margarida não gostava de brincar
de esconde-esconde
nem de roda e muito menos de passar
o-anel-que-tu-me-deste-era-vidro.
Não jogava conversa fora e só dava
se fizéssemos fila por ordem de chegada.
Um dia fugiu de casa
com mala e cuia.
Voltou carioca no andar e no falar
e logo foi embora novamente.
Foi baixa na tropa.
Na Linha do Cerol treliça-se ao longo da dispersão da memória. Cada detalhe é um achado pela riqueza expressiva, assustadoramente verdadeira e palpável. Valeu-se João Scortecci da água da fonte, espargida pelas remotas lembranças. Um borrifar tão palpitante de vida que até as lacunas, as muitas lacunas, são essenciais, para o leitor, aguçada a imaginação, viva o significado delas, entre no livro e se integre no tempo e na vida vivida pelo menino.
Fui lobinho da matilha amarela.
Depois escoteiro da patrulha Leão
e craque no gol de bola Pelé.
Um dia fui goleiro de peneira lá no Pici.
Peguei até pênalti.
Naquela defesa bem colocada
foi-se o sonho de ser craque de pé.
Virei Castilho Voador.
Para que dizer mais, se disse tudo? A obra é toda assim, um segmento de pontos finais. Após cada raio de luz, nada há mais para contar.
Então não é bem a síntese e é muito mais que a essencialidade. É uma potencialidade criadora pouco vista nos quantos caminhos da criação literária. Este poeta, a um pouco objetivo lúdico, é senhor de uma força criadora invejável, que desce ao psicológico e vem ao emblemático, em voleios de riquíssimo calor humano.
A saudade neste livro permanece em fogo lento. E em fogo lento ficam também a alegria, a tristeza e as dores fugazes da infância. Há um anteparo para tudo isto: o condão (mais que a linha) que une a mão do menino à arraia solta ao vento.
Aquele vento bom de poesia, que sustenta o papagaio, corre ao longo do Pajeú, gira o carrossel da quermesse, percorre toda a cidade do chão da infância e cala fundo no coração do leitor.
Caio Porfírio Carneiro
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TAVARES DE MIRANDA
15 de Abril de 1982 (quinta-feira)
Este repórter José está feliz por ter vivido para ver o dia em que se abriu, nesta desvairada pauliceia, uma livraria especializada em poesia.
João Ricardo Scortecci de Paula, líder lirico-empresarial, autor de Memória Interior - livro de versos - é o dinâmico jovem a quem se deve a Livraria Scortecci Editora.
Tavares de Miranda
(Poesia, sempre... Folha de São Paulo)
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"RELÓGIO DE SOL" DE JOÃO SCORTECCI POR CARLOS BURLAMÁQUI KOPKE
João Scortecci universaliza os temas que o motivaram.
Mostra-se, através da intuição poética, um esquadrinhador de fatos, de onde, desentranhando vida, faz confluir, para poemas de bons achados cinético-expressivos, aparências transvertidas e comutadas e, sobretudo, os mananciais psíquicos de que, verdadeiramente, o vemos dotado.
João Scortecci sabe mostrar a unidade mítica das coisas, a problematicidade e o mistério que as envolvem, o que o torna um poeta reflexivo no conteúdo.
É, sem dúvida alguma, uma personalidade interiorizada, alguém que pode transformar a realidade e seus desvarios em atos poéticos.
Carlos Burlamáqui Kopke.
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SOBRE A OBRA "DOS CHEIROS DE TUDO - MEMÓRIAS DO OLFATO" DE JOÃO SCORTECCI / POR ELISA GUIMARÃES
Li e reli, com enlevo, seu novo livro.A leitura mergulhou-me em águas límpidas de notável curiosidade. Curioso, curiosíssimo o talento que, por sua vez, submerge o autor em rios de novidade, sabiamente repartidos com o leitor. Impressiona a sensibilidade com que se cultivam as memórias do olfato. Uma tentativa de síntese de todos os cheiros permitiria fechar toda a versificação com CHEIRO DE POESIA.
Afetuosamente.
Elisa Guimarães.
Doutorou-se em Letras pela Universidade de São Paulo, onde ministrou cursos de pós-graduação e orientou mestrandos e doutorandos na área de Letras. É professora titular da área de Letras nos cursos de pós-graduação da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
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NA LINHA DO CEROL: REMINISCÊNCIAS POÉTICAS, DE JOÃO SCORTECCI / POR MARIA MORTATTI
1.
Na linha do cerol [2], de João Scortecci, é um livro de “reminiscências”, mas “poéticas”; de “memórias autobiográficas”, mas também de “poesia brasileira”. Essas classificações no subtítulo e na ficha catalográfica sintetizam, em certa medida, o entrecruzamento das principais características desse livro-arraia[3], que se empina com o “vento de reminiscências” e convida o leitor a acompanhar o “sonho de ir além do destino” no “voo da alma” do menino-poeta. Mas sem temer a “linha do cerol”[4], metáfora central que sustenta a unidade temática do livro, como eixo em torno do qual se vão tecendo, no movimento em vórtice ascendente, as várias camadas de sentido da configuração textual.
Habilmente manejada pelo poeta — à semelhança do menino que lanceia a arraia para uma disputa no céu —, essa figura de linguagem opera no nível do enunciado e da enunciação, com sentidos e funções complementares entre si e apenas aparentemente opostos. Em vez de lancear/cortar, enlaça/costura o leitor pelo “fio da memória” de vivências de infância elevadas à condição de experiência humana e transfiguradas em poesia. Ao mesmo tempo, enlaça/costura a singularidade do livro no conjunto da obra literária do autor e na tradição literária/memorialística brasileira — especialmente a partir do século XIX — sobre o tema da infância.
2.
Os 62 poemas numerados que compõem o livro podem ser lidos isoladamente ou como unidades de um extenso poema lírico que contém uma narrativa memorialística-autobiográfica, cujo enredo está estruturado em ao menos três partes: nos poemas 1-7: apresentação de eu-poético/protagonista/narrador e outros personagens — amigos, meninas/mulheres, familiares —, tempo e espaço das reminiscências; nos poemas 8-59: sequência dos episódios rememorados; nos poemas 60-62: clímax, com o brusco rompimento da sequência narrativa, a explicitação do conflito da “hora de partir” (61) [5] e o desfecho, com a “anistia” do passado e o “resgate do poema” (62).
As reminiscências se iniciam com o protagonista aos oito anos de idade, em março do “ano verde oliva de 1964” (1), na cidade de Fortaleza/CE, até o “exílio voluntário”, após se despedir da infância, com um “cerol de março de mil novecentos e setenta e dois” (60). A sequência cronológica linear dos episódios rememorados e as referências diretas ao contexto histórico e geográfico propiciam apreender, no transcurso dos também oito anos do tempo da narração, o tempo psicológico/subjetivo do processo de iniciação/aprendizagem sexual e de formação de identidade.
A unidade temática sustentada pela metáfora da “linha do cerol” se desdobra em metáforas correlatas: rio Pajeú “canal polonês que corta a cidade/e o mundo em córregos”(4), “caminho de passagem e de chegada durante o ano inteiro” (36), em cujo vale se encontra a “a toca do muçum preto[6]” (4,61,62...) e se deu a despedida da infância (60). No entrelaçamento com o conteúdo das reminiscências e com as escolhas formais e estilísticas, podem-se visualizar os engenhosos movimentos ondulatórios em vórtice, por meio dos quais se vão tecendo as várias camadas ascendentes — das mais aparentes às mais íntimas — de sentido da configuração textual.
Aos que viveram a infância nos anos de 1960 no Brasil, a imagem da capa, o conteúdo das reminiscências e as belas gravuras que ilustram 17 poemas podem ter o efeito quase imediato — como poderosas madeleines proustianas — de despertar lembranças factuais e afetivas, dialogando com as do autor ou complementando-as. Brinquedos, brincadeiras, jogos, costumes, alimentação, vestuário, escola, professores, modos de socialização, fatos políticos, referências culturais, literárias e religiosas se perfilam nos poemas, remetendo ao contexto histórico e social de formação de geração de brasileiros e brasileiras, despertando, ainda, interesse de novas gerações em conhecer aspectos do passado recente do país e a obra poética do autor.
Há, também, passagens de mais intenso e lancinante lirismo, concentradamente nos poemas 60-62 e em tantos outros, como nestes: 3 - Papai Noel “Apagou-se no escuro do silêncio/e nunca mais foi achado”; 20 - a voz de Sara cantando “... o mar também tem amante/o mar também tem mulher./É casado com areia/Dá-lhe beijos quando quer...”; 30 - Vovó Chiquinha, que “... existia e não existia/no livro da vida. [...] Subiu aos céus em noite de lua cheia/ na primeira batida do mar/Deixou uma digital de polegar no coração”; 34 – Margarida, que “Um dia fugiu de casa/com mala e olho roxo./Voltou carioca no andar e falar/e logo foi embora novamente”; 55 – “O anjinho que professora Rosa me deu/foi devorado por cobras e lagartos/ainda no purgatório./Chorei no eucalipto/uma coqueluche de arquibancada.”; 60 – “No alfenim da memória/o gosto amargo da fervura em movimento/ebulição de inquietude e renitência”; 61 – “Antes de entrar no Túnel do Tempo/recolhi do cenário o par de sandálias havaianas./Dei a última espiada no vazio dos olhos/e não me vi na raiz do coqueiro”.
Talvez, porém, sejam as lembranças da iniciação/aprendizagem sexual do universo masculino que se destaquem, convidando leitores a se colocarem na posição de voyeurs – como os meninos que, a pretexto de resgatarem a arraia lanceada, espiam “Na brecha da telha sem forro/o corpo aveia da moça no banho das seis” (28) –, frente à explicitude poeticamente trabalhada, seja por meio das muitas palavras e expressões com a força imagética de sentidos sugestivamente ambíguos a pulular nas páginas do livro — como “muçum preto”, “gavião afoito”, “fios de ovos”, “vômito no prato”, “moita do pau-de-arara”, “goiaba bichada”, “reserva na palma da mão” —, seja nos poemas dedicados a personagens femininas, em que se descrevem desejos e rituais de sedução erótico-sexual, a despeito de possíveis ressalvas que leitores atuais possam apresentar a essa representação da mulher.
O entrelaçamento é tecido também na relação do conteúdo das reminiscências com as opções formais e estilísticas: a disposição em versos breves, livres e soltos, cada um deles em apenas uma página, e o predomínio de substantivação e frases nominais, característicos da “concisão expressiva”, expressão utilizada por Fábio Lucas[7] para se referir à marca do estilo do poeta.
Essas características se encontram em todos os poemas, de modo menos ou mais visível. Em alguns estão de tal modo condensadas, que, ao lê-los, tem-se a impressão de ter encontrado o “cabograma secreto” que o menino “depositou no esconderijo da toca do muçum preto” (61). Um exemplo de “lancear arrepios” é o poema 7, onde se podem visualizar e sentir os movimentos ondulatórios que entrelaçam diferentes camadas de sentido entre a denotação e a conotação, entre o factual-empírico e o simbólico-onírico.
- 7 –
Basta – quase nada – de simpatia e vento
para se fazer uma arraia-pipa
voar feito pássaro em liberdade
Receita do Nelsinho
linha 24 de carretel de madeira
três palitos compridos de palha de coqueiro
2 folhas de papel de seda
uma mão generosa de grude de maisena
pano velho de algodão para rabo-de-escama
poder-de-puxar-e-rasgar
uma gilete para a ponteira
cerol de néon de vidro bem picado
peneirado em meia de nylon
de mulher honesta e água
Água espraiada do rio Pajeú.
No poema estão representadas duas faces de mesmo desejo, movido por “simpatia e vento”: o do menino, no símbolo fálico do voo da arraia-pipa; e o do poeta, na metáfora do livro-arraia. Nessa sofisticada representação, condensando camadas de sentido, ressalta-se o caráter substancialmente lírico das reminiscências, em um jogo incessante entre explicitação e despiste, semelhante às brincadeiras de esconde-esconde ou cabra-cega.
3.
Como se penetrando na intimidade do poeta, arrisco formular uma hipótese interpretativa com base nas pistas e despistes sintetizados nos poemas do desfecho. A origem do livro é o poema-diário-cabograma secreto, depositado no “esconderijo da toca do muçum preto” (61) — com Encontro marcado, de Fernando Sabino, e Diário de Dany, de Michel Quoist (62) — que, “no dia da hora certa” (61), “vinte e quatro anos depois” (62), o poeta resgata “na linha do cerol”(62). Anistia, então, o passado, para o qual “não há respostas”, “além de reminiscências.” (62)
Se assim for, é possível acrescentar: aquela “concisão expressiva” remete à característica de estilo esboçada desde as primeiras anotações — talvez como linguagem “criptografada” no código secreto do registro de confidências — no diário (real ou fictício?) daquele que via o mundo através de “óculos fundo de garrafa” (4) e vivia como poeta em construção “lá fora, no pátio de ser menino inocente/no golpe revolucionário dos fatos” (2). Com a despedida da infância e seu posterior resgate como poema, o cerol que corta laços com o passado – “impossível ficar” (60) —, também enlaça/costura com a linha da poesia — “Impossível morrer” (60) — as reminiscências do vivido “em ebulição”.
Nesse livro, portanto, a concisão pode ser interpretada como resultado do esforço de preenchimento, por meio de reapresentação e transfiguração poética da travessia em busca do acesso ao que está ausente – o passado —, e não se podia mostrar, quando era presente. Porque a memória é lacunar e coordenativa – como o ambiente onírico; e o que passou não pode ser reconstituído como de fato foi, apenas pelo que a memória afetiva reteve dos fatos vividos: sensações tácteis, auditivas, visuais, olfativas, gustativas.
E, ainda que de modo não consciente, o menino-poeta tenha talvez ensaiado nos registros do diário o estilo que o homem-poeta resgatou, foi consolidando em seus livros de poemas e também está presente em sua prosa ficcional e memorialística [8]. Desse ponto de vista, ao mesmo tempo em que se destaca por suas características específicas — poema lírico com narrativa memorialística-autobiográfica em que se enfatiza a iniciação/aprendizagem sexual —, Na linha do cerol... representa uma espécie de marco de opção poética[9] e estilística do autor, que se firma nos livros posteriores e enlaça o conjunto de sua obra literária desde as primeiras publicações.
É também pelo “fio da memória” que o livro se enlaça na tradição literária/memorialística brasileira — especialmente a partir do século XIX — sobre o tema da infância. Além da remissão indireta, no poema 1, a “Meus oito anos”, de Casimiro de Abreu (poema gestado no contexto de seu “exílio voluntário” temporário em Portugal), os episódios rememorados ao longo dos poemas de Na linha do cerol... evocam outros textos em verso ou prosa. Para citar os que de mais imediato me vêm à lembrança, apenas entre os de autoria masculina e brasileiros: na poesia - “Infância”, de Carlos Drummond de Andrade, e “Infância”, de Manuel Bandeira; na prosa - Infância, de Graciliano Ramos, Menino de engenho, de José Lins do Rego, A idade do serrote, de Murilo Mendes.
Embora recorrente como matéria poética-ficcional-memorialística, são obviamente diversificados os tratamentos dados ao tema, conforme singularidades de vivências e experiências dos sujeitos que rememoram. No entrelaçamento do encontro marcado com o passado e o resgate do poema — no presente da narração — como memória do futuro, configura-se a singularidade de Na linha do cerol..., livro-arraia que eleva as reminiscências das vivências do menino-poeta à condição de experiência humana transfigurada em poesia, possibilitando identificação e provocando nos leitores o desejo ir além das margens do rio da infância.
4.
Trata-se, portanto, de um livro-arraia-com-linha-de-cerol que convida os leitores a se deixarem enlaçar — pelo conteúdo das reminiscências e pela forma literária — para se lançarem no desafiante jogo memorialístico-poético de que não se pode sair ileso, mas em que todos vencem. Porque, em vez de disputas de interpretações e para além da visão do universo masculino, o convite é para rememorar, complementar, questionar, explorando pistas e despistes das inúmeras camadas de sentido apenas comentadas, mencionadas ou sugeridas neste texto. Porque esse é o desafio que nos propõe a leitura de um bom livro: lá onde buscamos respostas, encontramos perguntas que nos instigam a continuar em busca dos sonhos “de ir além do destino” e “voar feito pássaro em liberdade”.
Maria Mortatti - 21.02.2021
[1] Escritora e Professora Titular na Universidade Estadual Paulista – campus de Marília.
[2] Analiso exemplar da 9ª. edição, de 2008, com capa de Heber F. Alvares, ilustrações com 17 gravuras por Luiz Carlos Checcia, nota introdutória, 62 poemas e nove comentários críticos anexados ao final do livro. A partir da edição de 2003, foi acrescentado o adjetivo “poéticas” ao subtítulo.
[3] “Arraia”, “pipa” ou “papagaio” são algumas das variantes de denominação do brinquedo feito por uma armação com varetas de madeira ou outro material adequado, como palha de coqueiro, encapadas normalmente com papel de seda. Preso por uma linha, o brinquedo é manejado por uma pessoa e elevado e sustentado no ar pelo vento. A denominação “arraia”, que predomina em Na linha do cerol..., decorre da semelhança do brinquedo com o peixe de mesmo nome, que tem corpo achatado e cauda com agudo e ferino esporão na ponta.
[4] “Cerol” é a denominação da massa de cera e sebo com que os sapateiros enceram as linhas usadas para costurar. Em outra acepção, refere-se à mistura cortante de vidro moído e cola que se passa na linha com que se empina o brinquedo voador, com objetivo de cortar a linha de outro em “batalhas” no céu.
[5] Entre parênteses estão indicados os números dos poemas de onde extraí os trechos citados.
[6] “Muçum”, conhecido popularmente como “enguia-do-pântano” ou “cobra-d´água”, é um peixe de água doce, carnívoro, com hábitos noturnos, que habita rios, lagos, córregos, brejos, pântanos, podendo sobreviver a longos períodos de seca, enterrado em tocas. É também utilizado como isca para pesca. Essa metáfora e a do rio Pajeú, recorrentes em Na linha do cerol..., merecem estudo detalhado, em outro momento.
[7] Encontra-se no comentário crítico “O passado que não passou”, de Fábio Lucas, anexado ao final do livro, a partir da edição de 2003.
[8] Além de editor, gráfico e livreiro, o escritor publicou, pela Scortecci Editora: um livro técnico, em coautoria, Guia do Profissional do Livro; quatro livros de prosa de ficção para público infantil e juvenil: O touro de ouro e sua neta Mimosa (1994); A história do peixe voador (199-); As aventuras de Olga Wap: a pulga elétrica e a realidade virtual (2015); dois livros de poemas em coautoria e sete como autor: Plurais: a tentação do plural (1992); Luanda, a bailarina morta (1994); Poema do deus que cria versos (1994); Na linha do cerol (1997)/Na linha do cerol: reminiscências poéticas (2003); Quase tudo – antologia poética (2002); A maçã que guardo na boca (2014); Dos cheiros de tudo – memórias do olfato (2019). É também autor de crônicas memorialísticas publicadas em seu Blog Blitz Literária: https://www.blitzliteraria.com.br/. Em sua obra poética e memorialística, ao menos dois aspectos que destaco neste comentário também merecem posteriores estudos mais detalhados: o tratamento ao mesmo tempo lírico e realista dado às personagens femininas retratadas e a função do exímio e experiente narrador na transfiguração poética dos fatos rememorados.
[9] Nessa afirmação ecoam — talvez como indicação de chave de sentido para o estudo de sua obra — as palavras do autor na apresentação de sua antologia Quase tudo (2002): “Preparo a minha alma em ser poeta até a morte.”
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