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DOENÇA DE POETA E OS HIPOCAMPOS DA LOUCURA

Gosto dos loucos. São sábios! Louco: aquele cujo comportamento ou raciocínio denota alterações patológicas das faculdades mentais. O poeta romano Juvenal (Décimo Júnio Juvenal, c. 55 e 60 – 127), autor de “Sátiras”, sofria de hipergrafia: tendência à escrita compulsiva e extensa, termo médico para descrever a “doença” da escrita. A doença é desencadeada pela epilepsia do lobo temporal e às vezes está associada à doença bipolar, na qual a mania se alterna com a depressão. O impulso para escrever tem origem no sistema límbico – conjunto de células cerebrais associadas à emoção – e transformado em ideias “editadas” pelos lobos temporais. Encontrei o poeta romano Juvenal lendo sobre “Sátiras”, fonte de uma penca de máximas filosóficas, algumas de arrancar os cabelos da razão. Exemplo: “E quem vai vigiar os vigias?”. Lendo sobre Juvenal, lembrei-me dos muitos escritores que conheço – ou conheci – que sofrem ou sofriam de hipergrafia literária. Bipolaridade de gênero! “João, o que faço: não paro mais de escrever?”. “Nada! Uma hora qualquer o lobo temporal entra em colapso e a cura acontece naturalmente. Pode acreditar! Quem duvidar recomendo a obra “História da Loucura na Idade Clássica" (“Histoire de la folie à l'âge classique”) (1961), do filósofo, historiador das ideias, teórico social, filólogo, crítico literário e professor francês Paul-Michel Foucault (1926 – 1984). Uma curiosidade: em 2026 comemora-se o centenário do seu nascimento. No tarot, a carta “o Louco” é a última do baralho – a de número 22 – mas também é considerada a carta “zero”, porque a partir dela tudo se renova: início e fim. Definição do arcano: impetuosidade, vontade de viver, entusiasmo temporário, integridade e otimismo. E significa: quebrar o ciclo, romper, e por princípio definir e apontar o caminho de novos horizontes. No Tarot, a carta “o Louco” pode ser considerada uma carta benéfica, ou não. Um coringa! Resumindo: desconhecia a existência do tal “sistema límbico”, conjunto de estruturas cerebrais interconectadas que processam emoções, comportamentos motivados e memória, responsável pela loucura ímpar dos poetas hipergráficos. Pergunta: “E quem vai vigiar os poetas?”. A poesia salva!

João Scortecci