Sardônico é o escárnio do poema. Um irrisório do riso! Vive carregado de desdéns e falácias! Seus rizotônicos são risíveis de sorriso! Um garfo estrábico. Risório e Risota – amigos de versos e prosas – desaprovam seus ditos de zomba. Sardônico é um sádico: largo, imprevisível e perigoso. Muito perigoso. Mesmo assim o toleram. Todos – e mais ninguém – nasceram irmãos no caminho do abismo. São filhos do precipício, da queda, lá do morro do sangue ruim. Nasceram da cunha do espinho e do prego sujo, enferrujado. Dormem juntos – aos tombos do gozo – no assoalho do chão, na desordem das palavras perdidas. É Sardônico quem – sempre – puxa a ladainha do poema. Assunto? Uma angústia maluca que o persegue dia e noite na cabeça. Pesadelo frenético, que o incomoda. Risório e Risota não reclamam. Aceitam o mote e o seguem de pronto. O poema começa assim: “Porta que se arrebenta e arde: cristais!/ Olha longe e perto: nada vê de novo./ No rasgo dos olhos/ caleidoscópios, cunhas e sangue./ Muito sangue./ Pano sujo esconde o sol ferido./ Dói esperar...” Então, é a vez de Risório alinhar mais versos ao poema. Pergunta: “Até quando?/ A morte dorme no ventre do passeio./ As horas nos chamam de longe./ Tudo em algum lugar nos quer./ Nos abraça!” E Risota – a caçula tristonha – resfolega, então, um provável final para o poema: “A hora tarda de horas./ Tarda de vida,/ tarda de sonhos e esperanças. Simplesmente tarda...” E Sardônico, o escárnio do poema, o perigoso, o da zomba, carrega o rifle de caça, aponta para os cristais e atira. Mata Risota no coração, que cai no assoalho do chão, e fere Risório – de raspão – no pescoço. Risório, enfurecido, arma-se com o garfo estrábico e cega Sardônico, apunhalando-o no rosto, ferozmente. Sardônico, então, brada uma glória de dor: “Até que enfim, feito o derradeiro poema!”. Sardônico respira e morre – amorosamente – tombando sobre o corpo da irmã Risota. Risório, enciumado, traído, pelo tombo do gozo, carrega o rifle e se mata, com um tiro na boca. Escárnios do poema. Leio o poema e o guardo no prelo. Talvez o publique. Talvez.
João Scortecci