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ARROZ COM COLORAU E AS HISTÓRIAS DO BREU DA NOITE

Nunca vi na vida um urucuzeiro, muito menos sua semente, cujo pó industrializado vira colorau e corantes. Lá em casa – isso no Ceará dos anos 1960 – mamãe Nilce não usava colorau na comida. Não sei a razão. Também nunca perguntei. Foi numa paneladinha, com primos e amigos da rua, que conheci o tal pó mágico, vermelho, gostoso com arroz empapado. “Prova!” Foi o que fiz. Comi e repeti. Colorau lembra infância, barraca de lona no quintal, panela de barro, colher de pau, prato de alumínio e ki-suco sabor uva. De sobremesa, frutas no pé: goiaba, seriguela, sapoti, graviola, cajá, romã ou figo. Na Vila Santa Teresinha, tinha de tudo: até fantasmas! Depois da morte do sol, noite escura, acendíamos fogueiras, estrelas no céu, sonhos, medos, tudo no pavio do breu da noite. Noites de roda, risos, histórias do capeta, mulas sem cabeça, lobisomens, serpentes de duas cabeças, almas, bruxas voadoras, gritos e vozes do além. Sair para fazer xixi, nem pensar! Ninguém arredava o pé. Éramos sombras, abduzidas pelo desejo alucinógeno do colorau. Já tarde da noite, alguém gritava: “Das Dores, caga a luz! “. E do nada, o espírito da Das Dores, respondia: “Já caguei”. Mistério. Na hora de dormir, fechávamos a porta da barraca de lona, com pregadores de roupa do varal. Resmungos miúdos: “Estou vendo um gato preto no muro!”. Silêncio. “Cala a boca e dorme!”. “João, você comeu muito arroz com colorau?” “Comi”. “Vai, então, para o fundo da barraca e vê se não fica peidando!”. Dormia e não dormia. No meio da noite, abria a porta da barraca, colocava o travesseiro debaixo do braço e saia na escuridão do mundo. Fiz isso dezenas de vezes. Abria o portão do quintal e sumia na cidade. Meu irmão Luiz algumas vezes me pegava na esquina da rua de cima ou no caminho do colégio. “João, onde você vai?”. Respondia, dormindo: “Vou para o colégio!”. “João, acorda, você está sonambulando, de pijama, descalço, com o travesseiro debaixo do braço!”. Foi assim quase toda a minha infância: culpa do colorau, do selvagem pó vermelho da semente de urucuzeiro.

João Scortecci