Sou torcedor do Palmeiras – desde o ano de 1972 –, quando me mudei em definitivo para a cidade de São Paulo. Tinha na época 16 anos de idade e não mais alimentava o sonho maluco de ser goleiro profissional. O culpado de tudo? Paixão pelo goleiro Castilho (Carlos José Castilho, 1927 – 1987), campeão do mundo nas copas de 1958 e 1962. No Ceará, minha terra natal, torço para o Fortaleza Esporte Clube, o Leão do Pici. Um registro: na infância – isso nos anos 1960 – meu time de botão chamava-se Botafogo. Uma explicação simples: fã do Mané Garrincha! Tornei-me torcedor do Fortaleza Esporte Clube, depois de assistir no PV (Estádio Presidente Vargas) ao jogo entre os times do Fortaleza e do Ceará, pelo Campeonato Cearense. Fui a convite dos irmãos e dos amigos de infância: Alexandre, Guilherme, Raul e Paulinho, filhos da Dóris Holanda Sampaio, vizinhos, inquilinos dos meus avós paternos João Batista e Sarah. Confesso: nunca tinha pisado num estádio de futebol e a oportunidade parecia imperdível. Fomos, então: Alexandre, Raul e Paulinho, torcedores do Ceará Sporting Clube e Guilherme, o Gorgulho, torcedor do Fortaleza. Optei por fazer companhia ao Guilherme, para não deixá-lo sozinho, algo assim. No PV, a torcida do Fortaleza, na época, ficava do lado oposto à entrada principal do estádio, atrás de uma das traves do gol. Lembro-me de que jurei: “Viro torcedor do time que ganhar! Combinado?” E assim foi. Naquele dia memorável, o Fortaleza goleou o Ceará por 4 X 0, fora o olé. Depois do jogo, na saída do PV, Guilherme gritou: “Pronto para correr?”. “Sim”, respondi. Guilherme calçou as sandálias havaianas nos dedos das mãos e saiu correndo. Fiz o mesmo. Lembro-me do sol – pegando fogo na cabeça – e da chuva amarelada caindo do céu. Casamento de viúva? Não. “Corre que é mijo! Feche a boca e olhe para o chão!”. Na época – não sei hoje – a saída da torcida do Fortaleza passava literalmente por debaixo da arquibancada da torcida do Ceará. Ficamos ensopados de mijo! Já fora do estádio, tirei a camisa e a guardei num saco plástico. Aproveitei e comprei a minha primeira camisa do Fortaleza. Estava, então, batizado. Depois a turma toda foi comer pão com mortadela e zoar. Daquele dia de sol e chuva, ficou na alma: gols, mortadela e urina! Durante alguns anos – desconheço a razão – evitei de comer mortadela, até o dia em que meu filho Alexandre confessou-me: “Pai, adoro mortadela!”. Desde então, passamos a comer juntos mortadela no pão e torcer, desbragadamente, pelo Palmeiras.
João Scortecci