Quando criança – de cabeça que voa –, acreditava em tudo! Nasci sob o signo de Leão, uma quinta-feira, às 4h30 da manhã. Lembro-me do dia em que avistei, pela primeira vez, a estrela Denébola. Céu limpo, sonhos de menino e imensidão. Perguntei: “É aquela ali?”. Mamãe Nilce respondeu, balançando a cabeça: “Aquela com rabo de felino!”. Protestei: “Não vejo nada!” Mamãe Nilce, então, pacientemente, provocou-me: “João, imagina primeiro o leão, depois, o rabo da fera iluminando o universo!”. Foi o que fiz. Um leão de luz, imenso, apareceu do nada, no meu céu. “Estou vendo!” – gritei – “É Denébola!” Longe, radiante, eterna, distância 35,9 a 36 anos-luz da terra. Mamãe Nilce, explicou: “Está vendo aquela outra estrela de brilho maior, ao lado?”. “Estou”, respondi. “Aquela é Regulus, uma estrela Alfa! É o coração do leão. Estrela gigante, poderosa, de cor azulada, que bate velozmente.” Sentamo-nos, então, corpo e alma, nas areias úmidas do mar do Ceará. Mãe e filho: plenos, sem pressa. Explicou-me, o que sabia: “São quatro estrelas irmãs. Formam os dentes do Leão!”. Não duvidei. Mamãe Nilce parecia feliz. Lá ficamos: imortais em tudo! Depois do clarão da noite – olhos miúdos – foi difícil dormir! Cabeça que voa. Sonhei que estava na boca de um buraco negro, no dorso de um leão, viajando leve, incerto, sem direção. Sinto saudade de Denébola, de Regulus, dos dentes de leão. Aqui onde moro – cidade grande, cosmopolita – o céu é um engodo, uma cegueira dos infernos. Pergunto-me: “Denébola: cadê você?”. Silêncio. Morremos, então. Eu e mamãe Nilce. Quando criança, acreditávamos em tudo!
João Scortecci