Jogávamos bola na rua, descalços, na calçada da Av. D. Manoel, quase esquina com a Av. Duque de Caxias, na cidade de Fortaleza dos anos 1960. Os dois melhores jogadores da turma não podiam estar no mesmo time. Regra inegociável! Tirávamos par ou ímpar e escolhíamos alternadamente os times. Metade para cada lado! Os ruins de bola ficavam na defesa e os bons, no ataque: simples assim. Ser escolhido por último era uma grande humilhação. Os gordinhos e os canelas duras sofriam, mas jogavam! Ninguém sobrava ou ficava de fora. Um time jogava sem camisa e o outro com camisa. O pior de cada time virava goleiro, a não ser que tivesse alguém catador de bola. Se ninguém quisesse ser goleiro, adotava-se o rodízio: cada um do time agarra por um tempo, até alguém marcar um gol no adversário. Quando tinha um pênalti, saía o goleiro ruim e entrava o goleiro bom, só para tentar pegar a cobrança. As traves eram de sandálias havaianas ou com paralelepípedos. Gol pequeno, sem goleiro, ou gol grande, com goleiro. Os piores de cada time jogavam na defesa, não podiam avançar! O dono da bola jogava no mesmo time do craque. Não tinha juiz. As faltas eram marcadas no grito: se um jogador sofresse falta tinha que gritar: “Falta!”. Pegava a bola ligeirinho e batia a falta. Lesões, como arrancar a tampa do dedão do pé, ralar o joelho, sangrar o nariz e outras, eram do jogo. Quando alguém chutava a bola para longe, tinha que ir buscar. Lances polêmicos eram resolvidos no grito e na pressão, ou no braço. A partida acabava quando anoitecia, quando a bola furava ou quando a mãe do dono da bola mandava ele para casa tomar banho. Um detalhe insignificante: quando o dono da bola não obedecia ao chamado da mãe era comum ela aparecer de surpresa e levá-lo pela orelha. Fim de jogo.
João Scortecci