Pesquisar

TUDO NOS INTERESSA, MESMO SENDO APENAS IMPRESSÃO!

Lendo uma nota sobre a “crise” no varejo que assola o País, encontrei uma palavra que me motivou a escrever este editorial. Evito previsões – não tenho bola de cristal – e tento a todo custo fugir da obrigação institucional de pretender passar para o setor gráfico um otimismo ingênuo e a ideia de que as coisas vão melhorar. Ilusão. 2027 será um ano difícil e complicado. Vamos, então, à palavra da vez: “assimétrica”!

Eis a nota: “A crise do varejo tradicional atinge a indústria gráfica brasileira de forma assimétrica, dividindo o setor entre o colapso dos materiais promocionais físicos e a forte resiliência da área de embalagens impulsionada pelo e-commerce”. E mais: “Como fornecedora transversal, a atividade gráfica reflete diretamente as mudanças operacionais das grandes redes"!

No final dos anos 1970, no meu único emprego antes de me tornar, em 1982, empresário editorial e gráfico, aprendi com meu patrão Hiroshi Kitani, já falecido, sobre como avaliar o mercado, se as coisas estão indo bem ou não. Repetia, sempre: “Observe de perto – mensalmente, se possível – a venda de caixas de papelão!”. Na época – confesso – não entendia muito bem onde estava o segredo. Ele, economista e gestor brilhante, obrigava-me literalmente a ligar para fornecedores de caixa de papelão e sondar o mercado. Dizia, com propriedade: “O vendedor sempre entrega!”. A explicação lógica da coisa: estão vendendo caixas de papelão? Sim. Então o varejo vai bem, obrigado.

A crise do varejo brasileiro vive um momento de forte aceleração, com mais de R$ 68 bilhões em dívidas de grandes marcas, reestruturadas por meio de recuperações judiciais ou extrajudiciais. Esse cenário restritivo gera um efeito dominó imediato sobre a indústria nacional, que enfrenta o encolhimento de pedidos, o congelamento de créditos e o aumento do risco de calotes na cadeia de suprimentos. As causas são muitas: mudanças drásticas nos hábitos de consumo, juros restritivos, taxa Selic em torno de 14% ao ano, endividamento das famílias com “apostas online”, drenando mais de R$ 62,5 bilhões do orçamento familiar, a possível aprovação do fim da escala 6 x 1, a insegurança jurídica e, mais do que tudo, as incertezas sobre impostos e tributações com a implantação da reforma tributária.

Recentemente, recebemos na sede da Abigraf-SP o político, advogado, mestre e doutor em filosofia e ex-presidente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Jorge Perez, de família de gráficos, que, num papo informal, contou-nos uma máxima do seu avô gráfico, Durval Pereira de Andrade: “Dizem que nós, gráficos, fazemos milagres, mas é só impressão!”. Anotei.

Sobre a frase-título deste editorial “Tudo nos interessa!”, continua sendo uma singular verdade “assimétrica”. Tudo nos afeta, mesmo sendo somente impressão.

João Scortecci