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RECALCULANDO A ROTA: SPINOZA E O ABACATEIRO

Hoje acordei com o Benedictus de Spinoza nos ouvidos. Anotei e tentei dormir novamente, sem sucesso. Quatro horas da manhã! Levantei, tomei café preto sem açúcar e coloquei meus radinhos para carregar. Não sei o que seria de mim sem eles. Essa semana – do nada – acabei comprando outro. Estou possuído! As redes de interesse estão me perseguindo com radinhos, fones de ouvido e relógios inteligentes. Anotem, por favor: já comprei. Estão atrasados! Odeio algoritmos desavisados. Spinoza, o que queres de mim? Leio e vou anotando no bloco de notas o que o olho me chama: panteísmo – doutrina filosófica e crença que defende a identidade entre Deus e o universo: tudo é Deus e Deus é tudo; chérem – o mais alto grau de punição dentro do judaísmo, em que a pessoa é totalmente excluída da comunidade judaica; “Ética”, sua “magnum opus”. Li, também, a sentença do seu banimento e a lista de imposições. Cruel. No final da sentença algumas advertências: “... ninguém lhe pode falar, pela boca, nem por escrito, nem lhe conceder nenhum favor, nem debaixo do mesmo teto estar com ele, nem a uma distância de menos de quatro côvados, nem ler papel algum feito ou escrito por ele.”. Sobre côvados: medida de comprimento usada por diversas civilizações antigas, baseado no comprimento do antebraço, da ponta do dedo médio até o cotovelo. Quatro côvados? Recalculando a rota: dois metros, aproximadamente. Um detalhe, pontual: troquei a voz chata do meu GPS. Mulher mentirosa! Ruim das horas. Quando dava o tempo estimado no engarrafamento, errava sempre. Apaguei suas “recomendações” e comecei do zero. Perdi um monte de rotas ruins. Fazer o quê? Acontece. Insisti: Benedictus de Spinoza, o que queres de mim? Nenhuma resposta. Silêncio. Salvei o texto pesquisado e comecei, então, a ler sobre redes sociais que, agora, chamam de “redes de interesse”, algo assim. Pretendo montar – brevemente – uma apresentação sobre o assunto. Está na lista do capeta! Digo sempre: precisaria viver mais 100 anos para realizar todos os meus terríveis sonhos. Ops! Recalculando a rota. “Quem fala?” “Alô? É Bento, o filósofo Spinoza. Pode falar agora?” “Sim”, respondi. “Vamos conversar sobre ética e conduta humana?” “Claro. Começa você! O assunto é vasto, intenso e abstrato”, provoquei. Benedictus riu. “Já sei: você quer conversar sobre Deus e a Natureza! É isso?” “Pode ser”, respondi. Justifiquei-me: “Panteísmo é um assunto delicado, mexe com a cabeça e o coração das pessoas. Você sabe: nem todo mundo curte o papo”. Bento – delicadamente – desligou. Eu estava pronto para lhe dizer: “Benedictus, compartilho das suas ideias!”. Pena. Não deu tempo. Eu já sabia: Benedictus, o irredutível, com paciência zero. Ontem, quando estava entrando na garagem do prédio onde moro, um abacate dos grandes caiu no teto do carro. Que susto! Pensei: natureza violenta! Gritei: Deus do céu! Respirei fundo. Sorte: sobrevivi ao susto! Aqui com os meus cravos: acho que Spinoza ouviu o grito de dor do meu coração. Explico: não tenho mais idade – quase 70 anos – para as sofrências da alma. Cada susto vale um dia de vida perdida. Odeio surpresas! Recalculando os côvados. Onde eu estava mesmo? No engarrafamento da ética, creio. Chérem literário: nada de ler papel algum feito ou escrito por ele. Anotei.

João Scortecci