Fui, na infância, o “Duke” dos trejeitos. Trejeitos: movimentos corporais, faciais ou expressões comportamentais peculiares, muitas vezes automáticos e involuntários. Confesso: curti todos, cada um no seu tempo. Um em especial: ajustar e afivelar na cintura o cinto de couro dos dois revólveres. Fazia assim – sempre – antes de sacá-los, num piscar de olhos, e pistolar os inimigos do reino. Um sinal involuntário – um tique nervoso – um aviso: balas vão voar! Mamãe Nilce perguntando: “Filho, o que você quer de presente no Natal?”. Resposta de sempre: “Quero dois revólveres e duas cartucheiras do John Wayne e muita espoleta!”. “De novo? Pede outro presente.” “Não!” “Você está precisando de meias!” “Não! Meia é castigo!” “E uma boa sova de cinto: você quer?” “Também não.” Diálogo sem fim, inútil. Mamãe Nilce já perdendo a paciência: “O seu quarto está parecendo um paiol de guerra, entupido de espoletas, chilenas, rojões e bombas rasga-lata! Quer explodir tudo?”. “Talvez”. “Menino, o que você disse?” “Nada”. E provocando: “Mãe, se o quarto explodir e tudo pegar fogo?”. Resposta direta: “Você morre queimado!”. “Posso, então, dizer o meu último desejo?”. “Pode”. “Quero no Natal ganhar de presente dois revólveres e duas cartucheiras do John Wayne”. Mentindo, com os dedos cruzados: “Eu juro que no ano que vem peço outro presente”. “Você jura?”. “Juro”. O quarto explodiu no ano de 1968. Fogo e gritos. Fiquei três meses de molho e acabei perdendo o ano escolar. Tive que fazer enxerto de pele e até hoje carrego na barriga o mapa da tragédia. John Wayne, o Duke (Marion Robert Morrison, 1907 – 1979), faleceu em 11 de junho de 1979, aos 72 anos de idade. Wayne foi, na minha infância de “balas e espoletas”, o meu cowboy. Quanto aos muitos trejeitos – os de hoje – são outros. O trejeito de ajustar na cintura o cinto de couro desapareceu, sumiu de vez. Um dia – quem sabe – listo todos os trejeitos conquistados nos meus 70 anos de vida. Eu até juro – cruzando os dedos, claro.
João Scortecci