Eu e a – propensa – liberdade. A que ainda resta! Lendo sobre o “vício viciante do vício” e as ambiguidades da vida: perenes, incertas e doloridas. Reflexões! Nasci passarinho silvestre: voador, cabeça com cabelos e sangue de caçador do mato. Fui criança e jovem, também. Depois adulto e agora: idoso. Estou na boca dos 70 anos. Consigo, ainda, voar distâncias, navegar com a cabeça sem cabelos e olhar o sol. Veloz? Não mais. Dizem, com ironia: é a idade! Sim. A mortalidade existe! Continuo um corpo agitado, inquieto e exagerado. Tenho – sempre tive – um coração mole e selvagem. Coisas de leão! Iridescente de palavras e secretado, com o néctar da terra. Joana – minha babá de banho e açúcar no Ceará dos anos 1960 – sabe de tudo da história. Ensinou-me o que sabia, depois desapareceu. Partiu. Nunca mais voltou. Ficaram as suas lições. Joana está florida no tempo nas páginas do livro “Na linha do cerol – Reminiscências poéticas”, já na sua terceira versão. E os meus incomuns? Todos, ainda, incertos. Deixo-os para o destino. Meu coração bate febril, nas agitações da pele. Vejo rugas, algumas manchas e ressecamentos. Procurei saber dos fatos: diminuição de colágeno, sol e secura natural. Corpo de abelha! Li no “Guia das Abelhas” que elas morrem fora da colmeia por exaustão ou – quase sempre – para não sobrecarregarem a logística funcional da colônia. Interessante. Alguns animais fazem isso: afastam-se no melhor da hora. Sabedoria! Despedem-se polinizados de mel e cera de carnaúba nas veias, para o derradeiro voo. Zangão, ainda. Conhecido por ser maior, ter olhos grandes e não ter ferrão. Mesmo assim: sensíveis e inquietos. Marujos do farol do Mucuripe: olhos do mar! Biruta de agulhas, mapas, rotas e bússolas. Um cosedor de palavras. Existe isso? Sei não. Meu voo é de borboleta 13, nas manhãs do primeiro sol. Sou ovo, larva, coice e abraço. Ventania abrasadora: queimo e incendeio fácil. Sou cabresto de arraia – pipa, papagaio – que envia telegramas e bilhetes através da linha do cerol. Grito aos deuses: “Avisos da terra! Infância de pitombas, cajás, goiabas, seriguelas, graviolas e atas”. Foi assim na adolescência das danações do corpo e da alma. Acabei sobrevivendo, acontece. Foi assim no adulto das coisas, das manias, dos trejeitos e no doloroso das fatalidades. Hoje: papel escrito, impresso, páginas, encadernações, lombadas, orelhas e sonhos. Muitos! Nas madrugadas escuto o canto do sabiá que mora no abacateiro da minha janela. Eu acordo e ele canta. Ou, talvez: ele canta e eu acordo junto. Um morcego silvestre. Um pica-pau teimoso. Um bicho vaga-lume de papo amarelo. Um pirilampo no relógio adormecido na noite dos lobos. Aprendi a uivar: som agudo, longo e lamentoso. Dudu, meu Terrier brasileiro, aprendeu junto, o mesmo grito poético. Um cosedor de palavras, um assobio selvagem, uma canção com a dor do mundo e dos vícios viciantes do vício. Eu e a – propensa – liberdade. A que resta, ainda!
João Scortecci