Já vi de tudo na vida! Mas uma colmeia de abelhas no amarelo piscante de um farol de rua, nunca! Local: esquina das ruas Deputado Lacerda Franco com Cardeal Arcoverde, em Pinheiros, na capital paulista. São conhecidas mais de 25 mil espécies de abelhas, divididas em sete famílias biológicas. São encontradas em todos os continentes, exceto na Antártida. Adoram o amarelo (estou inventando, claro). Não gostam do verde – de seguir em frente – nem do vermelho de parar! Preferem o amarelo poético do girassol, da atenção, da luz, do calor, da alegria, da descontração, do otimismo e da prosperidade singular. Isso – talvez – explique o fato de terem escolhido florescer no amarelo piscante do farol. Protesto, talvez. Parei na esquina. Fiquei olhando e fotografando. Uma mulher parou do meu lado e me perguntou: “O que está acontecendo?”. Respondi: “Uma colmeia de abelhas no semáforo.”. Ela fez cara de desinteresse. Dobrou a esquina e sumiu na direção do Largo da Batata. Deve ter pensado: cara zoado! Fotografei a colmeia e guardei o celular. Fiquei parado na esquina quase dez minutos observando o farol. Abriu e fechou: verde, amarelo piscante e depois vermelho. Do nada, o amarelo se apagou. Ou melhor, não acendeu mais. Pifou! Pensei: elas venceram! As abelhas do farol tinham polinizado o amarelo. Algo assim. No Ceará dos anos 1960, meus pais Luiz e Nilce viajaram de férias para a cidade de São Paulo. Eu e minha irmã caçula, Ana Cândida, ficamos em Fortaleza, hospedados na casa dos meus tios Mário Capelo e Lenira, e das primas Neca, Branca e Lolo, no bairro Floresta, zona noroeste da cidade, nas cercanias da Lagoa do Urubu, onde, na época, meus tios tinham um curtume, indústria de transformação de pele crua de animais em couro. Na verdade, um paraíso! Lá, nas festas juninas, dançávamos quadrilha, malhávamos o Judas e tocávamos fogo no mundo com fogueiras e bombas rasga-lata. Antes da viagem, mãe Nilce recomendou: “João Ricardo, comporte-se! Obedeça a seus tios, não faça danação, tome banho, lave o pescoço e escove os dentes.”. Repetiu tudo na frente da minha tia Lenira, uma mulher incrível, doce e amorosa. “Eu juro!” A viagem dos meus pais durou quase um mês e as coisas na Casa da Floresta, até a véspera da volta, ocorreram dentro do normal. Pequenas alterações, apenas! Tia Lenira me disse: “Amanhã na hora do almoço seus pais voltam de viagem e eu estou muito feliz. Você está inteiro!”. Recomendou, ainda: “Tome banho, lave o pescoço e escove os dentes.” Foi o que fiz. Acordei cedo – saudoso pela volta dos meus pais – e triste por ter que deixar a Casa da Floresta. Subi numa castanholeira – amendoeira-da-praia – e lá do alto contemplei as cercanias, a casa, o curtume, a infância de cobras e calangos. Quando estava descendo, esbarrei numa casa de marimbondos. Fui atacado e ainda cai de uma altura de três metros. Consegui correr e me esconder num tanque de água suja do curtume. Mesmo assim, tarde demais. Fiquei deformado, inchado, no pescoço e no rosto. Um monstro da Lagoa do Urubu! Tia Lenira, quando me viu, chorou de tristeza. Lembro-me até hoje das suas palavras: “O que eu vou dizer para a Nilce?”. O que ficou daquele dia de danação: amor pelas abelhas e ódio mortal dos marimbondos de fogo. Tenho certeza de que os marimbondos de fogo não gostam do amarelo piscante, dos girassóis, das luzes da cidade, do calor do amor, da alegria, da esperança, da vida inesperada e cheia de surpresas. Que elas – as abelhas – fiquem onde estão: no amarelo do farol – não mais piscante –, entre o verde e o vermelho, cores das incertezas do tempo.
João Scortecci