Gosto do “segredo” milenar – que funciona, sempre – de pensar com simplicidade, diante de problemas complexos, crônicos, insolúveis e sem solução. Existem mil ditados, recolhidos ao longo da vida. Todos de aceitação e cabeça fria! Não é fácil perdoar uma mágoa, uma traição, uma injustiça, um ato de covardia e ainda – pasmem – manter a cabeça fria. Impossível. Um provérbio chinês: “Se o problema tem solução, não esquente a cabeça; se não tem solução, não esquente a cabeça”. A ideia central é que, diante do inevitável, a preocupação é inútil e a resignação - aceitação passiva ou conformada de uma situação difícil – é a melhor saída. Existe um ensinamento – uma dica interessante – que aprendi num curso sobre técnicas de memorização, isso nos anos 1980. Num dos exercícios práticos, era obrigado a resumir um assunto completo, uma problemática, usando no máximo cinco palavras. Vale o exercício! Lembro-me, até hoje, da resposta vencedora, aplaudida por todos na sala de aula. Uma moça jovem, vinte e poucos anos, sentenciou: “O amor é cego!”. Chavão, claro, mas indestrutível. Simples e compreensível. Ponto-chave da questão: “sem explicação” ou, ainda, “ausência de uma explicação lógica”, mas aceita e reconhecida por todos. O físico e teórico alemão Albert Einstein (1879 – 1955), gênio que desenvolveu a teoria da relatividade geral, dizia, sempre: “Se você não consegue explicar algo de forma simples, é porque ainda não entendeu bem o suficiente.” A simplicidade é sinal de compreensão verdadeira. Na filosofia do conhecimento, essa ideia está ligada ao princípio de que a clareza é um sinal de domínio intelectual. Hoje, às quatro e pouco da manhã, no radinho de bateria recarregável, ouvindo um programa sobre futebol, o repórter esportivo, declarou: “Futebol é coisa simples!”. Dei um pulo, até desequilibrei os meus cristais do labirinto, rindo do moço, um profundo desconhecedor da arte da bola. Não há nada nesse mundo mais problemático e incerto que o futebol. Na hora, deu vontade de enviar uma mensagem protestando. Desisti. Sorte que, logo em seguida, o jornalista e amigo Marcelo Duarte, editor e autor da coleção de livros “O Guia dos Curiosos”, entrou no ar e começou a falar sobre álbuns de figurinhas das copas do mundo de futebol. Delícia escutá-lo! Lembrei-me, com o coração nostálgico, do meu primeiro álbum de figurinhas: Copa do Mundo de Futebol, México, ano de 1970, Brasil tricampeão Mundial. Guardo-o com paixão, na mesma caixa de pandora, junto com o meu incrível time de futebol de botão. O amor é cego! Quando adolescente, isso no Ceará do final dos anos 1960, era torcedor do time do Botafogo do Rio, pelo Mané Garrincha (1933 – 1983), pela estrela solitária – belíssima – cravada no coração da pelota. Com o tempo – mudança de ares, São Paulo, em 1972 – tornei-me palmeirense. Paixão avassaladora! Culpa do César Maluco, centroavante goleador do Palmeiras, que me convidou para assistir a um jogo de futebol no Palestra Itália. E eu fui! Ausência de uma explicação lógica: não se discute política, religião e muito menos futebol. Melhor assim! Quanto ao resto das problemáticas do mundo – total falta de lógica e domínio intelectual –, sobra o mundo cruel e desleal de Zeus: doenças, discórdia, guerras e fome. Segundo Vicente Matheus – um corintiano polêmico, que admirava: “Quem sai na chuva é para se queimar”. Não há no mundo do futebol explicação maior sobre a arte do futebol. “Haja o que hajar!”
João Scortecci